Este é um livro de História do Brasil. Mais detidamente, um livro de história social da cidade de São Paulo no final dos anos 30. Não é uma reinvestigação sobre um crime do passado, muito menos um romance policial. Não é, para usar o nome do gênero em voga, true crime. É uma reconstituição, o mais factual que as fontes permitem ao autor, da realidade social em torno de um evento: um crime brutal que atiçou a imprensa e a população da São Paulo de 1938.
O foco do livro é o assassinato de quatro pessoas num modesto restaurante da antiga rua Wenceslau Braz: o proprietário, sua esposa e dois funcionários que dormiam nas dependências. Um massacre a pauladas em plena Quarta-Feira de Cinzas do penúltimo Carnaval antes de Hitler invadir a Polônia. É rua de uma cidade que se acha direita e trabalhadora; governada, com algum ressentimento, por um interventor da ditadura do Estado Novo, escolhido por Getúlio Vargas para evitar levantes como o de 1932. Um lugar aonde crimes bárbaros são raros: movem montanhas na opinião pública, aumentam a circulação de jornais, pedem fotos sangrentas de cadáveres.
É uma época em que se indiciava um suspeito (um homem preto sem emprego fixo, tipicamente) com base em testes psicológicos vagos e estudos inerentemente racistas do Positivismo de Cesare Lombroso e seus correligionários. E é uma época em que Boris Fausto viveu, passeando como criança no banco de trás de um automóvel naquele mesmo Carnaval. É um cenário de fantasmagoria a perdurar nos sonhos de uma criança que se tornou um dos maiores historiadores vivos dessa mesma cidade, e que reconstituiu com pesquisa incansável não só todos os relatos, autos, documentos, personagens e notícias que resistiram ao tempo, mas também a aura da opinião pública, a macrossituação política e social, atendo-se estritamente a documentos e conhecimento acumulado sobre a época.
Não é um comentário narrativo, uma reflexão julgadora ou uma opinião delongada do autor. É a trilha dos acontecimentos em seu contexto razoavelmente objetivo. O mais longo comentário pessoal que Boris Fausto se permitiu fazer está na conclusão, em que o escritor esclarece por que decidiu escrever essa história. É documento de historiador, não narrativa de jornalista, muito menos reinvenção de cronista.
"O Crime do Restaurante Chinês" é um mergulho no cotidiano desaparecido da mesma cidade onde moro hoje. Um passado que só se vislumbra em notas de livros sobre o Estado Novo ou em acontecimentos políticos de almanaque. Aqui, é um passado de gente lidando com gente, todo dia, como a gente também faz todo dia, hoje. E não somos assim tão diferentes.