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Antes do Degelo

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A figura do duplo está mais uma vez presente nas personagens José Rui e Genaro. O romance Crime e Castigo, de Dostoievski, actua como a interpretação dos sonhos. Como o sonho, ele desempenha uma função anti-cultural, protegendo o desejo de dormir e assim renunciando a qualquer problema cultural.
O tema da perversão (ingenuamente tantas vezes atribuído à escritora) e que constitui como tal um resto de moralismo burguês, está presente no convívio dos dois amigos e em todo o ambiente da sua educação.
A libido tem como reserva da sua actividade útil todas as infracções da moral vulgar. Inclusivamente o crime, tal como é cometido pelo estudante Raskolnikov. Como homem de cultura, ele tem de renunciar ao exercício do mal - o que, num rápido acesso da sua natureza arcaica, acaba por criar o conflito. Assassina a velha usurária para que a culpa lhe facilite o excitante necessário para se redimir.
Tese dolorosa e empolgante, a do homem a quem o factor da culpa é necessário para provar a sua humanidade.
O ser humano não pode viver a cultura senão com o sacrifício do seu destino arcaico. Esta é a experiência dos dois amigos que desenvolvem uma existência de acções da sociedade em que o proibido é, ao mesmo tempo, atraente e temível.

371 pages, Paperback

First published January 1, 2004

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About the author

Agustina Bessa-Luís

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Agustina Bessa-Luís was born in Vila Meã (Amarante) in 1922. Her father's family was from the north of Portugal and her mother was Spanish.

She lived her childhood and teenagehood in the region of Douro, Minho and then Coimbra in 1948. She married Alberto Oliveira Luís in 1945 and after 1948 she moved to Oporto.

She started writing at the age of 16 and in 1950 she published her first novel, Mundo Fechado. In 1952 her talent was recognized with the award Delfim de Guimarães, for her book Sibila, which also received the award Eça de Queirós the next year.

In 1958, she gave her first steps in theatre, writing the play O inseparável.

Between 1986 and 1987 she was the director of the diary O Primeiro de Janeiro in Oporto. Between 1990 and 1993 she was the director of D.Maria II Theatre in Lisbon and a member of the Alta Autoridade para a Comunicação Social.

She is a member of the Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres in Paris, of the Academia Brasileira de Letras and the Academia das Ciências de Lisboa, being also recognized at Ordem de Sant'Iago da Espada (1980), Medalha de Honra da Cidade do Porto (1988) and degree of "Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres", given by the French government (1989).

Various works have been translated in various countries and some were adapted to the cinema, such as Francisca, Vale Abraão and As Terras de Risco by Manoel de Oliveira. Her novel As Fúrias was adapted to the theatre by Filipe La Féria.

At the age of 81, Agustina Bessa-Luís received the Camões Award, considered the most important portuguese award.

Agustina Bessa-Luís nació en Vila Meã (Amarante, Portugal) en 1922, de madre española y padre portugués. Es miembro de la Academia Europea de las Ciencias, las Artes y las Letras de París, de la Academia Brasileña de las Letras y de la Academia de las Ciencias de Lisboa. Sus numerosos libros le han valido las más importantes distinciones, como la de Santiago da Espada (1980), la Medalla de Honor de la Ciudad de Oporto (1988) o el grado de Oficial de la Orden de las Artes y las Letras del gobierno francés (1989). En 2004 recibió el galardón literario más importante en lengua portuguesa, el Premio Camôes.

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Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews85 followers
June 19, 2015
"Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas".

"Os Supermercados

Os supermercados são os palácios dos pobres. Não são só os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gerações foram reduzindo os gastos da imaginação, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superfícies. As grandes superfícies com a sua área iluminada e sempre em festa; a concentração dos prazeres correntes, como a alimentação e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambições do quotidiano. Não há euforia mas há um sentimento de parentesco face às limitações de cada um. A chuva e o calor são poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; há uma emoção própria que paira nas naves das grandes superfícies. São as catedrais da conveniência, dão a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas. Não há polícia, há uma paz de transeunte que a cidade já não oferece".
Profile Image for André.
25 reviews
July 11, 2019
Comecei a ler Antes do Degelo num dia. Terminei-o noutro; ontem, para ser mais preciso. Entre estes dois pontos sucederam-se outros dias. Em alguns deles não li. Agora escrevo esta resenha e começo desta maneira, porque me apetece. Decidi ignorar as regras da boa crítica. Precavenham-se aqueles que esperam ler um resumo do enredo e uma exploração profunda dos temas. Não, aqui não vão ter nada disso. Quer dizer, até posso fazer o resumo da história: não é por aí que vou esbandalhar o meu cérebro em trabalhos exaustivos. Agora, quanto à exploração profunda não contem comigo. Primeiro porque nem sei o que isso é. O segundo nem há: não saber é razão suficiente.

José Rui e Genaro são amigos desde a infância. A mãe de José Rui é Charo. Esta tem mais quatro filhas, mas a única que interessa é Judite, que se casa com Genaro. Cláudia é uma mulher rica, madrinha de Judite, herdeira da fortuna. Mas quem acaba com o dinheiro é Genaro. O Dostoievski apresenta-se para tomar chá às 4 num apartamento sujo do quarto andar; espreita pela janela e vê um monte de lenha e um machado ferrugento; lembra-se da sua obra Crime e Castigo; gotas de suor correm-lhe pela face, ou não, não sei, aqui Agustina não clarifica. Existe um homem, Medeiros, que é um inútil e irrelevante, portanto um verdadeiro homem.
Este livro, na verdade, não faz muito sentido. Melhor dizendo, faz todo o sentido. Concentramo-nos num personagem num parágrafo para que noutro o foco se altere: outra personagem, um cão numa varanda ou simplesmente uma deambulação filosófica. O tempo é algo maleáveal nas mãos de uma sacerdotisa, dessas que passou uma vida inteira enclausurada num templo, aspergindo líquidos de aroma acre sobre carneiros mortos. É como se Agustina nos quisesse mostrar um desses tapetes medievais, feitos em Brugges numa oficina húmida, e se perdesse no esplendor; dividindo-se, avançando e voltando, sorridente, já me esquecia, vejam este pormenor tão delicioso. E é de facto delicioso. Acima de tudo, somos guiados como uma criança que ainda não conhece o perigo dos carros.

E há frases e parágrafos deslumbrantes. Dignas de serem entregues a extraterrestres, esses que de vez em quando nos visitam, com a sua tecnologia superior, os seus discos velozes, as suas armas capazes de reduzir os monstros que não existem à cinza que nunca serão. Podemos dar-lhes este livro e dizer: “pois vejam o que esta mulher faz com papel e caneta.” E eles muito surpreendidos, abismados, dizendo palavras entusiásticas lá na língua deles, uma mistura de croata e chinês: “fstiiii prlaaaa steprta”

Vós, que me acompanhastes até aqui, e que certamente vos arrependeis, direis: “Então, André, essas estrelas que dás ao livro não se coadunam com aquilo que escreveste e muito menos acompanham as coisas que se subentendem, o teu terror à vida, por exemplo.” A isso, meus caros, que muito vos prezo, digo, com respeito e amargura: metam-se na vossa vida; era o que faltava, estar aqui a explicar-me.
Profile Image for Dário.
2 reviews
August 8, 2020
O grande tema de Antes do Degelo é o desejo e, precisamente, a necessidade de o institucionalizar de modo a conter a devastação que lhe é inerente. No desejo cabe a insaciedade; uma sobra, um resto do caos primordial de cuja violência - e os escombros que ela provoca - se ergue a acção criadora do homem que é, essencialmente, a capacidade do amor. O desejo tem uma natureza inconfessável e o fundo animalesco que há nessa violência deixa-nos expostos à destruição, pelo que o acesso a ele e à compreensão ou consciência dele só pode ser feito por simulações, rituais, símbolos, teatro, ficções, literatura: arte. Aliás, diante tudo perante o qual o homem não pode ficar ileso existe o véu da mediação criado na experiência infantil da humanidade, simbolicamente “antes do degelo”, antes do holocénico e do desenvolvimento de sociedades humanas tecnicistas, devoradas pela devoção e depois pela razão, afinal todas elas (técnica, devoção e razão) instrumentos de contenção do desejo e mobilizadas pela culpa.
À culpa é inerente a confissão que chama a si o julgamento, o momento em que o bem e o mal se fundem para doar forma ao destino. José Rui e Genaro, personagens centrais do romance, são espelhos de Raskólnikov, em consciência, e o «Crime e Castigo» de Dostoiévsky a pedra de toque do desdobramento que esse espelhar significa e o desmantelamento e desconstrução que ele contém.
Desejo não é apetite, como se sabe. O desejo abre uma fenda na natureza humana, mais ou menos como o que é dito no discurso de Aristófanes no «Banquete», ou uma “falha tectónica” a que o amor vem dar lambidela, consciente da incompletude que essa fenda, falha ou ferida significam. Porque o que é o amor senão a consequência de ser-se incompleto e encostar ao umbigo das coisas a nossa fissura? É pela nostalgia da completude que o homem se potencia enquanto criador e, por isso, enquanto criminoso. A culpa é civilizadora porque nasce do refreamento do desejo, sendo motor de tudo o que o homem faz para se soltar desse freio, como seja a contemplação, a filosofia ou a criação de um deus:

[Agustina Bessa-Luís. «Antes do Degelo»] – Alguns sublinhados
« - Devia ser muito chato o teu avô – disse Genaro. José Rui encolheu os ombros.
- Levou muitos segredos com ele. Todos somos assim. Quando eu era pequeno e ia confessar-me, tinha uma lista de coisas que nunca dizia ou dizia-as de outra maneira.
- O quê por exemplo? (…)
- Por exemplo: eu correspondia aos olhares dos velhos. Eram olhares vazios como se pedissem esmola. Uma coisa que não tem nome e que nós chamamos desejo. Aos dez anos sabe-se mais disso do que quando somos homens.»

«Via-o sair pela porta fora, atordoado de liberdade, com o fato de treino sujo de tudo quanto havia, lama, esperma, sangue e indescritíveis nódoas em forma de estrela.»
«Ninguém ama a nudez; ela significa a vertigem da renúncia total.»
«(…) Antígona não foi castigada por enterrar o irmão a salvo das feras que o podiam devorar; mas porque revelou sentimentos incestuosos, sobretudo por isso. Toda uma cultura estava em risco e ela tinha que morrer.»
«Nós não queremos a verdade; queremos não ser desiludidos.»
«O mundo já não precisa de gente inteligente, só de gente eficaz.»
«Há sempre uma árvore particular nas memórias duma pessoa triste.»
«Não é a miséria e o sofrimento que nos atormenta, ou antes, que nos dá tanta compaixão, mas a culpa. Temos que a converter nalguma coisa de concreto, nalguma coisa que se veja.
- Como um crime?»
“Pulsão para a morte era não ter raízes, nem sentimentos duradouros, nem obediência sem conflito”
“Raskolnikov era um romântico porque nunca teve um objectivo. Foi um desejo que não pôde refrear.»
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