Continuo a perguntar-me como é que este senhor "imagineiro" ainda não recebeu o Nobel da literatura. Nem todas as histórias são excecionais, mas são a beleza e a criatividade da linguagem que mais enleiam.
«Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.»
«Tímidos dedos roçam a vidraça. É a chuvinha, tão leve, tão menina que só pode tombar por lapso do céu. Parto prematura da nuvem, a chuva não cria poça, nem deixa descendência. Extingue-se, sorvida sem vestígio. E a areia nem se mexe. O aguaceiro foi só cócega na imensa pele do mundo.»
«(…) O país que tinham obrigara-os a viajar mas não os deixara nunca partir. Para onde quer que fossem levavam a sua terra. A saudade que tinham nascia de estarem longe de si mesmos.»
«Acontece que o mundo é sempre grávido de imenso. E os homens, moradores de infinitos, não têm olhos a medir. Seus sonhos vão à frente de seus passos. Os homens nasceram para desobedecer aos mapas e desinventar bússolas.»
Das melhores leituras até agora. "Mya Kowto" passou a ser dos meus escritores favoritos pela maneira como usa toda a linguagem para fintar e trocar o leitor, ferindo-o com o golpe acutilante que apresenta nestes "simples" contos.
Índice: A carta A sombra sentada Lénine na cabeceira O viajante clandestino Sangue da avó, manchando a alcatifa A ascensão de João Bate-Certo A velha e a aranha Lixo, lixado O gato nacional O dia em que fuzilaram o guarda-redes da minha equipa O Januário, ou melhor: o Januário O jardim marinho Lágrimas novas para as velhas damas A rua de pernas para o ar O filho da morte A lição do aprendiz Mulher roxa em vestido laranja Natural da água Balões dos meninos velhos Pingo e vírgula Pela gravata morre o tímido A prenda do viajante As medalhas trocadas Mezungos A mancha O rio que bebeu o homem Um pilão no nono andar Entre a missa e as misses O homem com um planeta dentro Sangue da atriz no cinema da vida No zoo-ilógico Animais, animenos O monstro infantil O secreto namoro de Deolinda. Ossos do ofício O retro-camarada O cabrito que venceu o Boeing. A culatra saiu pelo tiro Os anjos embriagados A derradeira morte da estátua de Mouzinho Sonhar de bicho Escrevências desinventosas A morte nascida do guardador de estradas África com kapa? Carta entreaberta do corrupto nacional O português, as raças, os corvos Amar à mão armada ou armar a mão amada? Pescador na ida, herói na chegada O Gentipó, suas gentis poeiras