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Obra Poética (1948-1995)

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Nos seus livros mais recentes, a poesia de David Mourão-Ferreira parece organizar-se em forma de incursões no seus ciclos anteriores. Mas cada vez mais, no apuro e mestria de uma arte das palavras, ela é a celebração da própria poesia como a síntese impossível (lugar de contrários,conjugação da água e do fogo, simbiose da terra e do ar, convocação de todas as memórias). Ou da poesia como aproximação da música, não uma viagem em busca do sentido anterior e da mátria perdida, nem viagem de exploração e saque, mas viagem em torno de si própria, comemoração nupcial do indiviso.

Paperback

First published January 1, 2001

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About the author

David Mourão-Ferreira

73 books24 followers
David Mourão-Ferreira (February 24, 1927 in Lisbon – June 16, 1996 in Lisbon) was a Portuguese writer and poet from Lisbon.

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Displaying 1 - 5 of 5 reviews
Profile Image for Carmo.
728 reviews572 followers
February 28, 2019
Há uns anos encontrei numa colectânea que reunia vários autores, o poema "E por Vezes" de David Mourão-Ferreira. Despertou-me a curiosidade pelo autor e, passados tantos anos, ainda é um dos meus poemas preferidos entre centenas que já me me passaram pelas mãos.
Desta Obra poética podia destacar dezenas, alguns foram ficando nos updates, mas são tantos e tão bonitos que o melhor é lerem o livro.

Para fechar, teria que ser com chave d'ouro.

E por Vezes

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"
Profile Image for Paula  Abreu Silva.
393 reviews114 followers
December 25, 2020
"PACTO

Do pacto que o Verbo celebrou comigo
há sempre um artigo que sempre subsiste

Deixar que as palavras apenas exprimam
o que sem palavras tentava exprimir-se

Deixá-las que rompam da noite da vida
para que suspendam a morte do dia"
Profile Image for Simone Audi.
122 reviews7 followers
March 12, 2022
Estou apaixonada pelos versos de David Mourão Ferreira! Que alegria conhecê-lo aqui no goodreads através de comentários/resenhas de outros leitores.

TERNURA
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente que da nossa ternura anda sorrindo…
Mas ninguém sonha a pressa com que nós a despimos assim que estamos sós!

ILHA
Deitada és um ilha      
E raramente surgem ilhas no mar
tão alongadas com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio
florescente promontórios a pique      
e de repente na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha      
Que percorro descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada
eu morro da vida que me dás todos os dias

E POR VEZES
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos      
E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites      
não dos meses lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews86 followers
December 29, 2014
Colina

No alto da colina apenas a coluna
E a manhã decapita as cabeças da hidra
Mas vão todas gritando ao cair uma a uma
A dúvida ou a vida A dúvida ou a vida

Se regressas ao ponto onde estava a coluna
vês somente no chão as cabeças da hidra
E decifras agora ao vê-las uma a uma
que a dúvida é a vida A dúvida é a vida


ECO DA ANTERIOR

Que dúvida Que dívida Que dádiva
Que duvidávida afinal a vida
Profile Image for Tiago Aires.
322 reviews37 followers
December 23, 2021
7. Permanência

Cantam em provençal os pássaros de Maio
Mas em grego e latim as cigarras de Julho (p.437)

**

Olhas o céu
E a terra é tua

Deixa que o céu
te desiluda (p.778)

**

«poesia é, antes de mais, linguagem; mas linguagem animada pela emoção, intensificada pelo ritmo, transfigurada pela metafora (p.783)

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