Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu em 1936, em Águeda. Estudou em Lisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e actor do Teatro Universitário de Coimbra (TEUC). Em 1961 é mobilizado para Angola. Preso pela PIDE, passa seis meses na Fortaleza de S. Paulo, em Luanda, onde escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro, Praça da Canção. Em 1964 é eleito membro do comité nacional da Frente Patriótica de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel, na emissora Voz da Liberdade. Regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974. Dirigente histórico do Partido Socialista desde 1974, foi vice-presidente da Assembleia da República, de 1995 a 2009, e é membro do Conselho de Estado. A sua vasta obra literária, que inclui o romance, o conto, o ensaio, mas sobretudo a poesia, tem sido amplamente difundida e aclamada. Foram-lhe atribuídos os mais distintos prémios literários: Grande Prémio de Poesia da APE-CTT, Prémio da Crítica Literária da AICL, Prémio Fernando Namora e Prémio Pessoa, em 1999. Ao seu livro de poemas Doze Naus foi atribuído o Prémio Dom Dinis.
MANUEL ALEGRE nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda. Fez os estudos secundários no Porto, altura em que fundou, com José Augusto Seabra, o jornal Prelúdio. Do Liceu Alexandre Herculano, do Porto, passou a Coimbra, em cuja Universidade foi estudante de Direito, de par com uma grande actividade nas áreas da política, da cultura e do desporto. Destacado elemento dos movimentos estudantis, fez parte da Comissão da Academia que apoiou a candidatura de Humberto Delgado a presidente da República; foi um dos fundadores do Centro de Iniciação Teatral da Universidade de Coimbra (CITAC) e membro do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), foi ainda director do jornal A Briosa, redactor da revista Vértice e colaborador da Via Latina; praticante de natação, representou a Académica em provas internacionais.
Em 1962, foi mobilizado para Angola, tendo aí participado numa tentativa de revolta militar, pelo que esteve preso no forte de São Paulo de Luanda, cárcere onde conheceu Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. Libertado da cadeia angolana, foi desmobilizado e enviado para Coimbra em regime de residência fixa. Em 1964, exilou-se para Argel, onde viveu dez anos. Ali seria dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), presidida por Humberto Delgado, e principal responsável e locutor da emissora de combate à ditadura de Salazar, A Voz da Liberdade. Após o 25 de Abril, regressou a Portugal, passando a dedicar-se à política no seio do Partido Socialista de que é membro da Comissão Política. Foi Secretário de Estado da Comunicação Social e Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro para os Assuntos Políticos do I Governo Constitucional (1976-1978), deputado à Assembleia da República (1976-2009) e membro do Conselho de Estado, do Conselho das Ordens Nacionais e do Conselho Social da Universidade de Coimbra. Em 2006 foi candidato à Presidência da República, obtendo 20,7% dos votos, tendo-se recandidato em 2011, onde obteve 19,7% dos votos.
Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.
Como poeta, começa a destacar-se nas colectâneas Poemas Livres (1963-1965), publicadas em Coimbra de par com o «Cancioneiro Vértice». Mas o grande reconhecimento dos leitores e da crítica nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), logo apreendidos pelas autoridades, mas com grande circulação nos meios intelectuais. Começando por tomar por base temática a resistência ao regime, o exílio, a guerra de África, logo a poesia de Manuel Alegre evoluiria num registo épico e lírico que bebe muito em Camões e numa escrita rítmica e melódica que pede ser recitada ou musicada. Daí ser tido como o poeta português mais musicado e cantado, e não só em Portugal, mas também, por exemplo, na Galiza (Grupo «Fuxan Os Ventos») e na Inglaterra (Tony Haynes, BBC). Daí Urbano Tavares Rodrigues: «Os dois grandes veios que alimentam a poesia de Manuel Alegre, o épico e o lírico, confluem numa irreprimível vocação órfica que dele faz o mais musical (e o mais cantável) dos poetas portugueses contemporâneos.»
Estreando-se na ficção com Jornada de África, em 1989, Manuel Alegre não deixa de arrastar para a prosa e pela prosa a sua vocação fundamental de poeta. «A poesia é a sua pátria», lembra Marie Claire Wromans, e confirma-o a prosa de A Terceira Rosa.
Para além das revistas e jornais já citados, Manuel Alegre tem colaboração dispersa por muitos outros jornais e revistas culturais, de que destacamos: A Poesia Útil (Coimbra, 1962), Seara Nova, o suplemento do Diário Popular «Letras e Artes», Cadernos de Literatura (Coimbra, 1978-), Jornal de Poetas e Trovadores (Lisboa, 1980-) e JL:
"Estamos nus na sala de bilhar, é Julho, posso jurar que é Julho, dizemos palavras proibidas que pelo modo como as dizemos são santas e sagradas, os nossos gestos são castos, talvez perigosos, mas castos, ou, pelo menos, inocentes. Estamos nus, é Julho. E o espírito de Deus, se Deus existe, paira de certeza sobre nós."
"Quando deixei de acreditar em Deus, o amor tomou o lugar da perdida fé. Posso dizê-lo sem temor. Deus eras tu. Tu eras a minha fé e a minhs religião. Foi o que eu disse ao Padre Julio. Que me respondeu:O amor é sempre uma religião, é haver Deus e não haver."
"Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto. Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos? Esta é a história. Uma história sem história. Uma história só isto." (p.49)
"Ficou sobretudo a mágoa e a descoberta de que ninguém é dono de ninguém e de que qualquer pessoa, por mais íntima que seja, pode aparecer de repente como sendo ela própria e outra, para sempre estrangeira, para sempre desconhecida."
Xavier esperava as cartas de Cláudia...em código só por ele decifrável!!! " O sim dentro do não, o não dentro do sim " "A Terceira Rosa" "foi uma emergência, um impulso, uma viagem para trás"
Neste pequeno livro em prosa, Manuel Alegre relata-nos simultaneamente uma história de amor e o final do Estado Novo. Numa escrita poética, o autor tece um paralelismo entre o amor de Xavier e Cláudia que oscila entre encontros e desencontros, entre felicidade e solidão, e entre a decadência do regime e a Liberdade. “Viveu a euforia de Lisboa Libertada, as chaimites que se passeavam, o sorriso das pessoas, a corrente que passava entre todos, o sentimento de pertença a um país, um movimento, um sonho. (…) Estava alegre e estava triste, partícipe e ausente. (…) Havia uma ausência, faltava o resto da sua mais secreta e íntima liberdade.” (p. 115)
Num tom confessional, e numa mescla de prosa e poesia, o autor recorre a pequenos textos, fragmentos intimistas para nos mostrar o caminho do amor, da paixão, da liberdade, mas também da solidão, da perda, da morte. “ (Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto. Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos? Esta é a história. Uma história sem história. Uma história só isto.)” (p.51)
É portanto uma leitura cativante, na medida em que o pensamento (de Xavier) convoca os momentos, as memórias mais marcantes e importantes de uma vida.
A paixão de Xavier e Cláudia fizeram-me companhia nesta tarde de Domingo. Uma viagem até Coimbra numa escrita rica e envolvente. Só não dei ***** porque gostaria de ter sentido mais emoção.
Há ecos de poesia nesta prosa sem narrativa. A escrita é intangível, etérea: evoca-me memórias de textos semelhantes mas talvez nunca iguais, na sua repetição de presságios e aura fatídica, num véu de memória enaltecida pelo tempo, com o narrador sonhando a realidade mais do que a recordando. É uma celebração do amor, ou melhor, uma celebração do amor do amor. Cláudia é indefinida, vaga, "uma e todas". As referências literárias são inúmeras, sendo que na maior parte o sentido me escapou. Não se pode ignorar a vida de Manuel Alegre nesta obra, é um conto de amor mesclado de autobiografismos e meta-comentário. Esse meta-comentário diminui de certa forma o valor literário da obra, um ensaio sobre o amor em que se negam os ensaios sobre o amor, mas dá-lhe uma originalidade interessante.
Este livro, a minha estreia com Manuel Alegre, tem um escrita muito bonita e está escrito de uma forma muito particular. Conta-nos a bonita e triste história de amor de Xavier e Cláudia, em 56 pequenos capítulos que mais parecem ensaios sobre a paixão (está expressão, vinda do próprio autor numa entrevista sobre este livro). Nao é o livro mais fácil de ler. Fez-me voltar atrás algumas vezes. Mas é muito bonito, sem dúvida.
"... enlaço-te, encaixamos um no outro, forma com forma, tudo se ajusta. Os nossos corpos têm a mesma batida, o mesmo ritmo, o mesmo tango por dentro. Alma com alma..."
"Amarei outras mulheres. Amar-te-ei em outras. Tu, todas. E todas tu."
"É aí que te procuro: no vento, nas dunas, no mar, na espuma, nas noites de neblinaposso apertar o teu corpo já sem corpo."
Provavelmente a prosa esteticamente mais satisfatória que li.
"O teu corpo vai-se tornando cada vez mais imaterial, o teu rosto uma abstração. Haverá por certo uma equação capaz de o reconstituir, Afonso Furtado, meu pai, dizia que só pela matemática e pela poesia se pode chegar ao inominável."
(Não será a passagem que gostei mais, mas a que no contexto da minha vida faz mais sentido.)
Este livro não estava na minha TBR mas foi adicionado para a categoria de "um livro que te vai fazer sorrir" do #stayathomereadingrush que já foi em Abril mas reparei que não tinha deixado aqui registo desta leitura. Por ser um livro tão curto, foi uma leitura curta, rápida e que me deu muito gosto ler. (Além de me fazer sentir que estava a ler muito neste desafio ahaha). Uma coisa que gostei muito é que fala de amor e tem os sentimentos muito presentes. Foi uma leitura boa para quebrar a ressaca literária em que estava a entrar por ser tão simples e agradável. Foi a primeira obra que li do autor e foi um bom começo.
"if there are any heavens my mother will (all by herself) have one. It will not be a pansy heaven nor a fragile heaven of lilies-of-the-valley but it will be a heaven of blackred roses"
Absolutely incredible, very touching and clarifying themes like love and passion following the classical tradition although finding an interesting balance between the frivolous vision and the anarchist view of passion and love. Amazing!
Manuel Alegre sempre entrou na minha vida pelos meios de comunicação social na área política desde muito cedo e, talvez por essa sucessiva entrada através da televisão ou dos jornais, nunca tive qualquer curiosidade em ler a sua obra, mais conhecida pela poesia. Mas há oportunidades imperdíveis e encontrar esta Terceira Rosa na Feira do Livro na Quarteira foi um convite irrecusável - pelo baixíssimo preço e por ser um livro de prosa.
A Terceira Rosa está dividida, ao todo, em 56 fragmentos que conta a história de Cláudia e Xavier. Ou melhor, conta a paixão sentida por estas duas personagens e, ao mesmo tempo, oferece ao leitor o ambiente vivido durante o Estado Novo até à Revolução de Abril em Portugal. A divisão da história em fragmentos é como um puzzle, em que se oferecem pequenas peças da história e alguns pormenores ficam a cargo da imaginação do leitor. São descritas sensações, sentimentos, especialmente esperança por parte de Xavier, em capítulos curtos e não há oportunidade para grandes descrições das personagens ou mesmo de cenário. Dos poucos livros que já tive oportunidade de ler sobre o Estado Novo ou sobre uma outra revolução de ditadura há uma sensação que permanece em todas as páginas: o medo. De modo mais suave ou mais abrupto, há sempre um medo a rondar os acontecimentos descritos e as personagens.
Neste livro de Manuel Alegre vive um medo em Xavier de perder Cláudia. Sente uma tal paixão que é, diria, doentia e obsessiva. É o combustível para a vida dele. O sentido que qualquer ser humano procura para se levantar todos os dias. Mas, na minha opinião, há uma diferença entre paixão e amor. Segundo os meus padrões e valores, a transformação de paixão em amor não aconteceu a Xavier e daí os seus medos mais profundos em relação à amada, deliciosos de serem lidos.
Esta Terceira Rosa encantou-me mas não me apaixonou por completo. Talvez tenha sido pelo meu estado de espírito da leitura que não me proporcionou uma apreciação completa. Manuel Alegre ganhou o Prémio Pessoa e Fernando Namora em 1999 com este livro e é completamente compreensível. Há uma passagem que vale a pena ser partilhada nesta crítica e ficou-me inteiramente na cabeça:
"Somos dois piratas a navegar nos mares do sul, navegamos por dentro um do outro, amanhã partirei para outro mar, amanhã estarás em outra ilha, não é possível tanto azul, tanta tensão, tanta pressão dentro de nós. O fio vai partir-se, por instinto o sabemos, os que se amam vão morrer, tu própria o dizes, pela primeira vez o dizes: Não quero morrer de ti."
Margaret e Patrick estão casados há apenas alguns meses quando decidem partir para o Quénia, convencidos de que irão viver uma grande aventura em África. No entanto, Margaret depressa se apercebe de que não conhece os costumes complexos do seu novo lar e tão-pouco o homem que tem ao seu lado. Quando, certo dia, um casal inglês os convida para escalar o monte Quénia, eles aceitam, entusiasmados, o desafio. Porém, durante a árdua subida, ocorre um terrível acidente e, no rescaldo da tragédia, Margaret ver-se-á enredada numa teia de dúvidas sobre o que se passou realmente na montanha. Estes acontecimentos, que a irão afetar profundamente, terão consequências indeléveis no seu casamento. Uma Promessa de Felicidade retrata-nos a relação de um casal, o impacto definitivo da tragédia e a natureza esquiva do perdão. Com uma linguagem soberba e uma enorme profundidade, Anita Shreve conduz-nos pelas paisagens exóticas de África, numa viagem até ao interior de nós mesmos
Nem chega ser história, pois é tudo muito curto e impressionista. às vezes discurso direto, às vezes narrado por terceira pessoa. História de xavier Furtado (ramo da família liberal e progressista) e seu amor adolescente por cláudia (ramo da família conservadora) sob os auspicios da Tia filipa Castro. Claúdia morre aparentemente em acidente de automóvel no mesmo dia e em Badajoz que o general humberto delgado, quando a paixão juvenil já tinham afastado bastante os dois adolescentes. ele em coimbra ela em lisboa. no fim aparece uma ou duas cenas no pós 25 de abril. Parece-me muito forçado a introdução do contexto histórico quer politico quer futebolístico.
"Caímos sobre a areia, não sei ao certo como aconteceu, estou ainda a ouvir-te: Não quero morrer de ti. Vejo-te ainda a correr pela praia fora, desapareces na neblina, sinto na boca o sabor dos nossos sangues misturados. O teu corpo vai-se tornando cada vez mais imaterial, o teu rosto uma abstracção. Haverá por certo uma equação capaz de te reconstruir, Afonso Furtado, meu pai, dizia que só pela matemática e pela poesia se pode chegar ao inominável. Deitados sobre a areia, ouvia-se o ronco do farol. E tu disseste: Não quero morrer de ti."