Ao ter ´concluído o primeiro volume deste estupendo romance não poderei, obviamente, debruçar-me sobre o seu todo, apenas sobre a parte que me foi dada a conhecer.
Li este livro era ainda adolescente mas, confesso, que nada retive sobre o drama que coloca a personagem principal, Julien Sorel, numa dicotomia entre os prazeres mundanos, o amor, a paixão, a luxúria, e os prazeres espirituais que o alinham numa vida eclesiástica, centrada no seminário, no conhecimento do Novo Testamento, do latim, elementos esses que enformam o indivíduo que pretende dedicar a sua existência às maiores dádivas divinas.
Filho de um camponês/serralheiro, a residir na província de Verriéres, próximo de Besançon, desde cedo o jovem mostrou capacidades intelectuais muito acima daquilo que a profissão do pai e dos seus irmãos permitiria na medida em que, para o efeito, precisavam da força dos braços e não a da mente que, para tal ofício, de nada serviria.
O senhor de Rênal, presidente de Verriéres e homem influente graças ao seu poderio económico e social na pequena vila, decide tomar o jovem Sorel para perceptor dos seus filhos oferecendo-lhe uma quantia para o jovem e para a sua família ambiciosa, muito a jusante daquilo a que estrariam habituados. E logo que chega à mansão dos Rênal, Julian tem uma visão divina: a bela Madame Rênal. Entre eles, surge imediatamente aquilo que hoje chamaríamos um clique, um crush, de duas almas que, no primeiro momento, vislumbram um momento não fátuo mas antes carregado de promessas que nem eles ainda conheciam ou conceberiam.
A concretização desse enlace era algo que não estivéssemos à espera desde que os dois se encontraram no jardim da residência da família Rênal. E, de facto, acabariam por se envolver numa paixão alucinante, desmedida e perigosa embora carregada de dúvidas não só pela diferença de idades mas, sobretudo, pelo estatuto social e económico de cada um.
E embora o provincianismo de todo o contexto, Stendhal cria este pensamento notável: “Estava feliz em demasia para poder levar fosse o que fosse para o lado mau. Ingénua e inocente, nunca esta boa provinciana torturara a alma para tentar arrancar-lhe um pouco de sensibilidade em cada novo cambiante de sentimentos ou de desgraça. Inteiramente absorvida, antes da chagada de Julian (a tradução coloca-o como Julião mas prefiro o nome próprio original), por essa carga de trabalho que, longe de Paris é o fardo de uma boa mãe de família, a senhora de Rênal pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engano certo e felicidade procurada pelos loucos”. Sublime esta reflexão mas feita num momento de alguma incipiência cognitiva por ambos sobre o advir que, nós leitores, adivinhamos. E esta senhora, burguesa até às entranhas mais profundas, viverá momentos carregados ora de júbilo, ora de desespero e remorsos como só uma dama do século 19 poderia experimentar: “A senhora de Rênal não pôde dormir. Parecia-lhe que, até àquele momento, não tinha vivido. Não podia distrair o seu pensamento de felicidade de sentir Julian cobrir-lhe a mão de beijos inflamados. De repente, surgiu-lhe a horrível palavra: adultério. Tudo o que o mais vil deboche pode imprimir de repugnante à ideia do amor dos sentidos apresentou-se à sua imaginação. Estes pensamentos tentavam macular a imagem doce e divina que ela criara de Julian e da felicidade de o amar. O futuro pintou-se-lhe com cores terríveis. Sentia-se desprezível”. Esta ideia, em que amar significa sofrer, confirmada pela igreja e pela sociedade apenas confere infelicidade aos amantes.
Quem terá decidido que a monogamia é o caminho mais perfeito para que dois seres alcancem a plenitude de um estado de exaltação física e espiritual? Creio estar aqui a mensagem, muito propositada, que Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal, quis nos transmitir corria o ano de 1830 para memória futura. Mais deixemos as questões filosóficas e avancemos no enredo.
Quando o escândalo da sua relação chega ao domínio público – pese embora as artimanhas que Madame de Rênal utilizara para fazer com que o seu marido de nada desconfiasse -, Julian vê-se na obrigação de partir para o seminário de Besançon onde a sua vida, embora solitária, irá adquirir novo sentido. Julian é um jansenista dogmático, noção muitas vezes confundida com o protestantismo, que acredita no pecado e na corrupção da natureza humana, receia, face aos seus dotes intelectuais, integrar esse grupo de aristocratas burgueses que só procuravam as mais-valias e que, para o efeito, exploravam tudo e todos. A atualidade desta narrativa faz-nos compreender que a evolução do homem pouco acelerou em dois séculos. E quando alguns dizem que sairemos desta pandemia pessoas melhores, só me apetece rir pois não é isso que a história prova! Deixando essa aceção para o protagonista cito um dos seus momentos mais esclarecidos: ”Julgava viver, preparava-me somente para a vida: eis-me enfim no mundo tal como o encontrarei até ao fim, rodeado de verdadeiros inimigos. Como é difícil a hipocrisia de todos os minutos”. Como é difícil a hipocrisia de todos os minutos, repito!
Aguado o desenrolar e as consequências do segundo volume desta obra notável, de grande, enorme atualidade sobre a condição humana e as suas paixões, sejam elas positivas ou negativas como em tudo aquilo que a emoção e a razão envolvem.
Esta trama, que consagra paixões verdadeiras entre classes sociais e diferenças etárias, acaba por configurar uma constante na literatura coeva: já o grande Stefan Zweig e o espetacular Henry James nos deram provas de dramas semelhantes, todos eles com igual qualidade. Estes autores que temos a felicidade de conviver nas suas obras criaram uma literatura de reflexão no sentido em como podemos melhorar as nossas existências sem dramas, medos ou sentimentos de culpa.