Não vai faltar quem me acuse de que alguns destes textos são desapiedados e injustos, que, tendo sido já politicamente inoportunos e impertinentes na própria época em que foram escritos, muito mais o vêm a ser agora, e que, argumento final, não é atitude das mais prudentes e sensatas da minha parte, considerando que todos temos os nossos «telhados de vidro», reabrir as chagas que o tempo, melhor ou pior, teve a caridade de cicatrizar. Disso, como do resto, pensará cada um o que quiser, e por isso responderá. Em todo o caso, creio que estas Folhas Políticas, de cuja honradez cívica não reconheço a ninguém o direito de duvidar, levam dentro verdades suficientes para que sejam capazes de defender-se sozinhas, sem ajuda. Nem sequer a minha.
José de Sousa Saramago (16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese novelist and recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature, for his "parables sustained by imagination, compassion and irony [with which he] continually enables us once again to apprehend an elusory reality." His works, some of which have been seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the theopoetic. In 2003 Harold Bloom described Saramago as "the most gifted novelist alive in the world today."
A cultura vive em conflito e reflete conflitos. E que não temam pelo futuro da cultura os que da vida são acusados de terem uma visão redutora. A vida não é reduzível mesmo quando tivermos distribuído com justiça os bens materiais e resolvido os maiores males do mundo. Talvez que a cultura verdadeira do homem só então possa começar.
Saramago, militante comunista, é um cronista tão imparcial quanto possível. Aliás, as críticas mais duras são até feitas à esquerda - à sua e às outras - do que à direita, provavelmente porque já desistiu dela. Deixam-me triste várias coisas, mas destaco duas:
1. O facto de, escassos anos após o 25 de Abril, já haver um sentimento generalizado de que se tinha perdido uma oportunidade de ouro.
2. A falta de unidade à esquerda já ser notoriamente um problema na altura e continuar, hoje, atual.
Vale muito a pena para quem tem interesse no cenário político em Portugal logo após o 25 de abril.
"As coisas são o que são, serem-no é a sua irrefragável força, e a nós cabe-nos tentar compreendê-las, ajeitá-las, se possível, à oportunidade e ao interesse da ocasião, mas respeitando-as sempre, evitando sobretudo cair na tentação do avestruz, o que, na circunstância, seria fingir que as coisas, afinal, são outra coisa."
Ao contrário do que esperava, Saramago é um cronista imparcial, pelo que é possível ler este livro sem nos sentirmos inundados de ideologia comunista. Considero as crónicas da década de 70 mais aborrecidas, talvez por serem também aquelas que estão mais politizadas. Nas crónicas dos últimos anos vemos a escrita que já reconhecemos da obra literária do autor.
Very good book. Although I miss some of the political and societal context to have a deep understanding of many of these situations, it's a good collection of short articles with Saramago's opinion on diverse political and social issues. Enjoyed it.