O paulista, natural da cidade de Taubaté, José Bento Renato Monteiro Lobato (1882/1948) é uma das expressões máximas de nossa literatura. Escritor, crítico de arte e editor corajoso (foi o único no Brasil a publicar Lima Barreto quando quase ninguém nele acreditava), seu nome é quase que automaticamente ligado à literatura infantil, principalmente ao ciclo de histórias do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” já adaptado para várias mídias além dos livros e um grande sucesso. No entanto Monteiro Lobato, como é conhecido o escritor, tem uma produção que vai muito além de suas inegáveis contribuições à literatura infantil e vale muito a pena conferir o que existe “além do sítio”.
Desafortunadamente aquele que considero um dos grandes escritores da literatura nacional em todos os tempos, um esteta do nosso idioma, dono de um senso de humor mordaz, detentor de uma grande capacidade de observação da realidade em que ele então vivia e de um senso crítico que demolia sem dó nem piedade as instituições e tradições da época, encontra-se, hoje em dia, “cancelado” em função de um pretenso racismo que permearia as suas obras. São muito contundentes as afirmações que Tom Farias, escritor, jornalista, roteirista e colunista da “Folha de São Paulo” fez em detrimento de Lobato em artigo publicado na revista “Piauí” (Fevereiro de 2024). Farias afirma que Lobato seria “herdeiro da exploração escravista no país” além de “conhecido por seu racismo e a inclinação eugenista” e um precoce “apologista do apartheid”.
Por outro lado o mesmo Tom Farias, um crítico de Lobato admite, no mesmo artigo que ele era “hábil escritor e contador de histórias”.
E é esse lado de “hábil escritor e contador de histórias” que Beatriz Resende, professora titular do departamento de letras da UFRJ, especialista na obra de Monteiro Lobato e organizadora do excelente e obrigatório “Contos Completos”, lançado em 2014 e que reúne os quatro livros de contos lançados pelo autor (“Urupês”/1918, “Cidades Mortas”/1919, “Negrinha”/1920 e “O macaco que se fez homem”/1923) que ela procura explorar em suas análises sobre a obra do escritor. Ela afirmou com propriedade e convicção, na apresentação desse livro o seguinte:
“Basta a leitura de “Negrinha” para compreender toda a tolice que envolve as críticas feitas a momentos de sua literatura em que reproduz o linguajar racista de seus contemporâneos. As falas evidentemente irônicas da boneca Emília, por exemplo, são o eco da sociedade racista, classicista, escravocrata que atravessa o século XX e chega até hoje convencida de que espaços como as universidades não se devem abrir aos pobres, aos diferentes e vêm na ainda tímida política de cotas uma heresia e nas condenações penais por racismo um excesso”.
Polêmicas à parte Lobato era especializado em contos, em narrativas mais curtas em que era considerado um mestre.
“O presidente negro” é o único romance de Monteiro Lobato e, curiosamente, pode ser classificado como ficção científica, o que por si já garante ao livro a condição de obra pioneira na literatura brasileira.
No romance um melancólico cobrador chamado Ayrton se envolve num acidente automobilístico e é socorrido por um cientista chamado Benson e por sua filha, a bela Jane.
Convalescendo na espaçosa casa do cientista o cobrador toma ciência de que o cientista criou uma engenhoca chamada “Porviroscópio” que lhe permitia ter vislumbres de tempos vindouros.
Observando o futuro através de seu “porviroscópio” o professor Benson, no capítulo intitulado “Passado e presente”, descreveu a um atônito Ayrton o seguinte, que antecipa de certa forma o home office:
“Cessa a era dos veículos. Nada de bondes, automóveis ou aviões no céu. Pois para lá caminhamos. Em cortes sucessivos que fiz de dez em dez anos observei a diminuição rápida dos veículos atuais. A roda, que foi a maior invenção mecânica do homem e hoje domina soberana, terá seu fim. Voltará o homem a andar a pé. O que se dará é o seguinte: o radiotransporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório. Em suma: trabalhar-se-á a distância. E acho muito lógica esta revolução”.
Outro desses vislumbres revelou que no ano de 2228, nos USA, uma política eugênica, separou brancos de negros com o objetivo de “purificar” as duas raças e evitar a degradação de ambas que a miscigenação havia causado. Nesse futuro, às vésperas de uma eleição presidencial a sociedade estadunidense estava dividida em três partes: os negros de ambos os sexos, os brancos homens e as mulheres brancas.
Nessa eleição em que a raça branca costumava votar em aliança contra os negros uma cisão leva à vitória do candidato negro – Jim Roy - e a raça branca, aliada contra a “tragédia” da vitória negra trama uma maquiavélica vingança.
O já citado Tom Farias avaliou o romance como racista e defensor da eugenia.
Sinceramente não avaliei dessa forma pois Lobato, claramente, descreve o futuro como distópico e o que fica claro, pelo menos para mim, no romance é o desastre da política eugênica.
No capítulo intitulado “O titã apresenta-se” os personagens Jane e Ayrton observam que Jim Roy, o candidato negro à presidência dos USA do futuro fez as seguintes e contundentes elucubrações acerca da necessidade dos negros de tomar o poder:
“Às nove e quarenta e cinco aproximou-se da janela e correu os olhos pelo casario de Washington. O panorama que viu, entretanto, não foi o da cidade. Descortinou todo o lúgubre passado da raça infeliz. Viu muito longe, esfumado pela bruma dos séculos, o humilde kraal africano visado pelo feroz negreiro branco, que, em frágeis brigues, vinha por cima das ondas qual espuma venenosa do oceano. Viu o assalto, a chacina dos moradores nus, o sangue a correr, o incêndio a engolir as palhoças. Depois, o saque, o apresamento dos homens válidos e das mulheres, a algema que lhes garroteava os pulsos, a canga que os metia dois a dois em comboios sinistros tocados a relho pela costa. Viu, como goelas escuras, abrirem-se os brigues para tragar a dolorosa carne do eito. E recordou o interminável suplício da travessia... Carga humana, coisa, fardos de couro negro com carne vermelha por dentro. A fome, a sede, a doença, a escuridão. Por sobre as cabeças da carga humana, um tabuado. Por cima do tabuado, rumores de vozes. Erma os brancos. Branco queria dizer uma coisa só: crueldade fria...
Viu depois o desembarque. Terra, árvores, sol – não mais como em África. Nada deles agora – nem a terra, nem as árvores, nem o sol. Caminha, caminha! Se um tropeça, canta-lhe o látego no lombo. Se cai desfalecido, trucidam-no. A caravana marcha, trôpega, e penetra nos algodoais...
Viu Jim viçarem luxuriosos os algodoais da Virgínia depois que o negro chegou. Além das chuvas havia a regá-los agora o suor africano – suor e sangue.
Viu dois séculos de chicote a lacerar carne e outros dois séculos de lágrimas, de gemidos e lamentos os uivos de dor. E viu a América ir saindo dessa dor, como a pérola, filha do sofrimento do molusco, nasce da concha...
Viu depois a Aurora da noite de 200 anos: Lincoln. O Branco Bom disse: “Basta!”. Ergueu exércitos e das unhas de Jefferson Davis arrancou a pobre carne-coisa.
As algemas caíram dos pulsos, mas o estigma ficou. As algemas de ferro foram substituídas pelas algemas morais do pária. O sócio branco negava ao sócio negro a participação de lucros morais na obra comum. Negava a igualdade e negava a fraternidade, embora a lei, que paira serena acima do sangue, consagrasse a equiparação dos dois sócios.
E viu Jim que a Justiça não passava de uma pura aspiração – e que só há Justiça na terra quando a força se impõe.
“Ei de fazer força e impor a justiça”, murmurou o grande negro”.
Não creio que um racista procuraria explicitar as injustiças cometidas contra os afrodescendentes através da história de uma forma tão contundente e embasada historicamente falando.
De qualquer forma trata-se de uma obra polêmica que vale a pena ser lida e discutida além de ser mais um ótimo trabalho do “hábil escritor e contador de histórias” que foi Monteiro Lobato.