“Invisível” é um Paul Auster sem tirar nem pôr, com as coincidências e a metaliteratura que o definem, mas depois de vários momentos bons, deixou-me insatisfeita pela composição das personagens e pela interacção entre elas. Há na génese de “Invisível” algo do universo dos super-heróis em que o vilão é mesmo muito pérfido, enquanto o herói é menos poderoso e, apesar de um forte sentido de justiça, faz algumas escolhas duvidosas.
Numa festa, Walker, estudante universitário e aspirante a poeta, conhece a personagem dúbia que é Born, um professor universitário francês disposto a investir no seu talento literário. Aquilo que poderia ser o início de uma bela amizade termina abruptamente durante um assalto e Walker cai numa crise existencial.
Sim, tu és impossível, e perguntas-te como é que foste acabar neste beco sem saída em que só encontras desespero e um arreigado desprezo por ti mesmo. Será Born o único responsável pelo que te aconteceu? Será possível que uma momentânea falta de coragem tenha minado a tua confiança em ti mesmo tão profundamente, ao ponto de não acreditares no teu futuro? Há apenas alguns meses, ias incendiar o mundo com o teu fulgor, e agora achas-te estúpido e inepto, uma máquina de masturbação perfeitamente acéfala.
Depois de uma viagem a Paris para estudar e também acertar contas com o seu arqui-inimigo, Walker acaba por fazer uma viragem abrupta.
Três anos de Direito. A ideia era fazer alguma coisa de bom pelos outros, trabalhar com os pobres, os oprimidos, envolver-me com os humilhados e os invisíveis e tentar defendê-los contra as crueldades e a indiferença da sociedade americana. (...) Da poesia para a justiça, então. Justiça poética, se quiseres.
Quer na Nova Iorque de 1967, em plena Guerra do Vietname, quer na cidade de Paris do Maio de 68, Born, por detrás da sua bonomia, representa as forças retrógradas e as actividades insidiosas dos poderosos. Apesar de serem mais semelhantes do que se julgam, capazes de grandes mentiras e com tendências para a perversão sexual, no final, vence o mal na sua mais pura expressão, obviamente, porque o mal vence sempre, nem que seja através da reinvenção.
Cinquenta ou sessenta homens e mulheres negros agachados naquele terreno, com martelos e escopros nas suas mãos, malhando nas pedras enquanto o sol malhava nos seus corpos, sem sombra nenhuma em sítio nenhum, o suor brilhando em todos os rostos.