Cecília fora uma criança especial, pois teve de aprender a conviver com o efêmero. Desde muito pequena lidou com a ausência e fez da morte uma companheira com a qual ela tinha intimidade. "Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas e foram sempre positivas para silêncio e solidão". Seu pai morrera três meses antes de seu nascimento. Antes de completar três anos de idade, perdeu sua mãe. Criada pela avó, Jachinta Garcia Benevides, a menina, sempre muita atenta a tudo ao seu redor, foi dotada de uma imaginação criativa e lírica. Olhinhos de Gato foi revelado pela escritora como um exercício ficcional inspirado fortemente em seus tempos de criança. Os textos que compõem esta obra foram publicados pela primeira vez na revista Ocidente, de Lisboa entre os anos de 1939 e 1940. Foram os portugueses, portanto, os primeiros a conhecer estas saborosas e envolventes páginas em tom de confissão nas quais, Cecília, na forma de ficção, retoma personagens que povoaram a sua infância. Na verdade, as pessoas que conviveram com a menina Cecília aparecem neste livro com cognomes. Boquinha de Doce é a sua querida avó, Dentinho de Arroz é a ama que cuidou de Cecília e Olhinhos de Gato é uma referência à própria autora.
Cecília Benevides de Carvalho Meireles was a Brazilian writer and educator, known principally as a poet. She is a canonical name of Brazilian Modernism, one of the great female poets in the Portuguese language, and is widely considered the best poetess from Brazil, though she rightly combatted the word "poetess" because of gender discrimination.
She traveled in the Americas in the 1940s, visiting the United States, Mexico, Argentina, Uruguay and Chile. In the summer of 1940 she gave lectures at the University of Texas, Austin. She wrote two poems about her time in the capital of Texas, and a long (800 lines) very socially-aware poem "USA 1940", which was published posthumously. As a journalist her columns (crônicas, or chronicles) focused most often on education, but also on her trips abroad in the western hemisphere, Portugal, other parts of Europe, Israel, and India (where she received an honorary doctorate).
As a poet, her style was mostly neo-symbolist and her themes included ephemeral time and the contemplative life. Even though she was not concerned with local color, native vernacular, or experiments in (popular) syntax, she is considered one of the most important poets of the second phase of the Brazilian Modernism, known for nationalistic vanguardism.
Cecília toca profundamente meu coração. Amei tudo nesse livro, mas principalmente a forma como percebemos a passagem do tempo pelas festividades tradicionais brasileiras. É lindo demais a forma como percebemos que é natal, carnaval, páscoa, festa junina, etc., sem a menção direta desses nomes, apenas com as descrições da perspectiva de uma criança. Um dos livros mais lindos que já li!
Meu trecho favorito:
O assoalho, que os outros pisam indiferentes, tem, no entanto, suas paisagens secretas. E porque ninguém contempla muito as linhas e cores da madeira. Algumas, na verdade, são lisas, da mesma cor, em tons de pele humana — amareladas, róseas, morenas. Outras, porém, encerram desenhos tais que, olhando-se para dentro delas, poder-se-ia dispensar qualquer outro lugar do mundo. A princípio parecem apenas riscos, sem nenhuma significação. Mas pouco a pouco se observa que há ondulações de águas, praias, montanhas, um estremecimento de pássaros, florestas densas, que escurecem — logo, um súbito jorro de estrelas e de luas, borboletas infinitas adelgaçam as asas riquíssimas, e santos de mãos postas pairam por cima de encrespadas nuvens... Há um outro mundo, no assoalho que se pisa indiferente. E os grossos pés ignorantes andam sobre essas maravilhosas coisas, sobre os palácios e as flores, sobre os peixes e os olhos dos santos... Há outros mundos, também, noutras coisas esquecidas; nas cores do tapete, que ora se escondem ora reaparecem, caminhando por direções secretas. As pessoas de pé, olhando de longe e de cima, pensam que tudo são flores, grinaldas de flores... flores... Mas OLHINHOS DE GATO bem sabe que ali há noites, dias, portas, jardins, colinas, plantas e gente encantada, indo e vindo, e virando o rosto para lhe responder, quando ela chama... Por isso é tão bom andar pelo chão, como os gatos e as formigas. Por baixo das mesas e das cadeiras reina uma frescura que a madeira conserva como a sombra que projetou no tempo em que foi árvore. E desse lado é que se pode ver como certas coisas são feitas: recortes, parafusos, encaixes, pedaços de cola... E desse lado que as coisas são naturais e verdadeiras, como nós, quando nos despimos. O avesso dos panos é uma revelação: que estranhos caminhos tem de seguir cada fio para, em sentido contrário, formar os desenhos que todos admiram!
Com Olhinhos de Gato termino o meu ciclo de leitura de Cecília Meireles. E termino com esta reflexão poética sobre a dor da perda, a solidão, a morte e o luto, embalada pelas histórias da ama e pelo afecto da avó, pelas brincadeiras infantis, medos, ensinamentos e descobertas no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, onde Cecília passou a sua infância. Já sinto saudade do seu traço firme e elegante e há momentos em que Olhinhos de Gato ainda chama por mim, para vir brincar e mostrar os vestidinhos das bonecas, as árvores de fruto, as formas das nuvens que desenham castelos no ar e princesas de além-mar.
Olhinhos de Gato, Dentinho de Arroz e Boquinha de Doce jamais permitirão que eu esqueça dos sagrados dias da minha infância. E do meu carinho recorrente e gratidão eterna à Cecília.
Minha primeira vez lendo Cecília Meireles e me encantei com suas frases poéticas, e com o seu tempo que é uma mistura de lembranças com vivências, as vezes com muito entendimento e as vezes com dúvidas que nunca são sanadas. Assim como nossas lembranças surgem em análise.
Este livro são lembranças da infância da autora e está repleto de poesia!! As 197 páginas tem aquele gostinho de: acabei de chegar em casa do colégio e tenho 7 anos de idade. Muito nostálgico, principalmente, para mim, que também sou interiorano.