"Há males que vêm por bem."
Depois de mais de 30 anos, um segredo horrível vai, finalmente, ser desvendado. Será agora feita a justiça, que foi ignorada no passado?
O quarto livro da série do Inspector Van Veeteren começa com um funeral de uma mulher, ao qual apenas a sua solitária filha assiste. Dias antes do Natal, ao lado da campa da sua mãe, a mulher de 29 anos reflecte sobre a vida miserável da progenitora, tão semelhante à sua, e promete vingança àqueles que considera responsáveis pelos dois destinos miseráveis. Assim, é pelo olhar da assassina que obtemos a primeira imagem de mais um enredo genial de Håkan Nesser. O escritor sueco é habilidoso e não esconde nem por um instante o que nos espera.
Foi com prazer que reencontrei o Van Veeteren! A assassina iniciou a sua missão e o inspector é acordado pelo som estridente do telefone, às 07:55 de Sábado, em Janeiro. Este mês é alvo de desdém por se prolongar indefinidamente, sempre com chuva ou neve, garantido um total de apenas uma hora e meia de sol ao fim dos 31 dias! A par dos meses de Inverno, o inspector sente um ódio crescente pelo telefone. Destino ou coincidência, o nosso protagonista vê-se com uma constipação que teima em ficar.
"Cherchez la femme, if you really must."
A investigação prolonga-se por dois meses e caracteriza-se por falta de pistas, testemunhas, ligação entre as vitimas e motivo. A assassina mantém-se fiel à sua missão e o seu método de matar é o que a define. A par do seu trabalho - nada fácil - Van Veeteren continua a jogar badminton com o seu melhor amigo Münster, xadrez e a ouvir música clássica para descontrair e também reflectir. Em acréscimo, depois da operação bem-sucedida ao cancro, o Inspector Chefe sente um desejo cada vez maior de ter um estilo de vida mais saudável, pois fuma e bebe em demasia! Apesar da melhoria nesta sua atitude perante a sua saúde, a vontade ainda não é suficiente para colocar o novo estilo de vida em prática. Contudo, tenho confiança no bom senso deste homem de meia idade!
A resolução deste caso conta ainda com toda a equipa que já conhecemos. A Jung e Ewa Moreno, a única mulher da equipa, juntam-se dois grandes homens que merecem destaque.
Münster é o colega preferido e melhor amigo de Van Veeteren. Contrariamente a ele tem uma vida familiar feliz e uma paciência enorme que o habilita como o homem ideal para aturar o humor sensível e complexo do Inspector. É de salientar que continua a ganhar todos os jogos de badminton, tal como o perdedor continua a justificar as derrotas com o seu estilo de vida errado ou raquete velha.
Reinhart,com qual Van Veeteren se identifica, desempenha neste livro um papel importante, sendo as suas excelentes competências policiais evidenciadas. Para além disso, ficamos a conhecer este homem lacónico um pouco melhor, tendo acesso aos seus pensamentos sobre a sua vida privada e conhecendo a mulher por quem se apaixonou, tenciona casar e ter filhos, apesar de já passar da meia idade. É de salientar as conversas entre os dois, após o sexo, sobre a investigação corrente. Afinal de contas, por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher.
"Hope lives eternal."
A história é trágica e as suas implicações têm um impacto que fica connosco mesmo após a leitura. É com naturalidade que o escritor sueco nos conta esta história triste e, de certa forma, deprimente, através do tom de humor inigualável, já tão característico seu. Nenhuma personagem é secundária e as relações entre a equipa policial são estimulantes. Håkan Nesser tem o dom de nos fazer rir nas situações mais tensas, mostrando o lado mais humano dos seus inspectores que lidam com os acontecimentos e pessoas mais obscuras.
Tal como os livros anteriores, também "Woman With A Birthmark" envolve o leitor a um nível quase surreal. Håkan Nesser tem um estilo inconfundível e considero-o um autor excêntrico, no melhor sentido da palavra. Longe de se enquadrar dentro dos padrões considerados normais deste género narrativo, explora o mundo do crime e o oposto que o combate, de um forma excepcional, focando-se nos detalhes mais ínfimos e sempre relevantes.
Confesso que não resisti e iniciei a leitura do livro seguinte "The Inspector and Silence" antes de escrever este comentário. Adianto desde já que fiquei, como sempre, rendida desde a primeira página. Desde a primeira palavra, permitam-me a correcção.
Apenas alguns meses após a investigação do livro "Woman With A Birthmark", Van Veeteren resolve dar outro rumo à sua vida já tão estimulante, interessante, peculiar e preenchida. E sinto na atmosfera uma promessa de romance, ou será impressão minha?
"Standing waiting for something that never came."