Mais que uma doutrina filosófica, o existencialismo passou a ser identificado como um estilo de vida, uma forma de comportamento que designava atitudes excêntricas e caracterizava seus seguidores como depravados, promíscuos e mórbidos. Tudo que infringisse as regras estabelecidas, a linha divisória entre o certo e o errado, era considerada existencialista. O autor, despojando-se dessas idéias preconceituosas e fantasiosas, caracteriza os traços gerais dessa doutrina, seus antecedentes filosófico s e sua relação com o marxismo.
Um daqueles bons livros da Coleção Primeiros Passos. Faz uma boa síntese – bastante clara e didática – do que vem a ser o existencialismo. Se inicia com Kierkegaard para depois se concentrar na dupla Heidegger-Sartre. Há vantagens e desvantagens nesse recorte. A desvantagem mais óbvia é que outros expoentes – Gabriel Marcel (pouco publicado aqui no Brasil) ou Karl Jaspers (dentre os mais conhecidos) – ficam restritos a uma nota de rodapé. Um nome como Camus – na avaliação do autor – é erradamente apontado como existencialista, “...não obstante exprimir em suas obras certas teses existencialistas”. Infelizmente, e essa é a principal falha do livro, é a de restringir esse comentário a uma linha, a despeito do que parece ser – ao público em geral – a importância do Camus. A vantagem de restringir-se essencialmente à dupla Heidegger e Sartre é a de poder dar mais atenção ao pensamento desses dois na elaboração do pensamento existencialista. Selecionei alguns trechos em que ele trata de Heidegger. “O Dasein é nossa existência cotidiana, é o indivíduo, é o homem (...). [É] um estágio superior à existência cotidiana do Dasein, algo acima do dia-a-dia que lhe constitui a biografia [...] é a Existenz, a existência idealizada do Dasein.” “O homem autêntico é aquele que reconhece a radical dualidade entre o humano e o não-humano. Desconhecê-la é mergulhar na inautenticidade, é sofrer uma queda. Existência inautêntica e queda são sinônimos. Queda, porque os existentialia (categorias básicas da existência humana: entendimento, sentimento e linguagem) são necessidades ontológicas imprescindíveis ao ser humano, e que no estado de inautenticidade tendem a se degradar. A queda é um estado de decadência, de derrelição, de desamparo.” “A inautenticidade se apresenta sob duas formas: subjetivamente e objetivamente. Na primeira, uma subjetividade degradada comanda a consciência individual, levando o homem a agir de acordo com que dizem ser certo ou errado, obedecendo a ordens e proibições sem indagar suas origens ou motivações. O Dasein, o indivíduo, passa a viver sob o signo do “se”, do “dizem” (tradução aproximada do alemão das man): lê o que se lê, come o que se come, segue este ou aquele modismo que dizem ser o mais conveniente seguir. O “Ser-aí”, na vida cotidiana, mergulha numa espécie de anonimato que anula a singularidade de sua existência. Perde-se no meio dos outros Dasein, buscando a justificativa de seus atos num sujeito impessoal, exterior. A experiência cotidiana do Dasein transcorre, dessa forma, no âmbito da impessoabilidade, o das man torna-se massa, alheia-se de si mesmo. Com os sentimentos embotados, incapaz de livrar-se dos hábitos e das opiniões que lhe são impostos, sua consciência é atormentada por medos e ansiedades neuróticas. A vida interior degrada-se, vulgarizando-se. O indivíduo – embora julgue que tudo lhe é acessível – já não consegue discutir nenhum assunto com profundidade, detendo-se na superficialidade das coisas, sem interrogar os fundamentos daquilo que discute, tagarelando sobre banalidades, o que conduz à perda da expressividade da linguagem, que, enfraquecida, sem a força de seu apelo original, torna-se ambígua. A outra forma de inautenticidade manifesta-se no mundo artificial criado pela tecnologia.” Sartre: “A essência humana, portanto, só aparece como decorrência da existência do homem. São seus atos que definem sua essência. Logo, inicialmente o homem existe–e só depois é possível defini-lo, conceituá-lo. Enfim, da existência decorre a essência. [...]o homem primeiramente existe, não sendo nada a princípio, se a ideia de Deus é eliminada, se a cada instante o homem tem de escolher aquilo que vai ser, então só a ele cabe criar os valores sob os quais dirigirá sua vida.” “Para o existencialismo, a liberdade é a capacidade do indivíduo de decidir sobre sua vida, escolhendo-a e por ela se responsabilizando.” “Ele passa a existir para o outro, o que o torna inautêntico, desprovido de uma afirmação pessoal e autônoma. Move-se em busca da cumplicidade do outro, desejando ser percebido por ele segundo a imagem que criou de si para si e para os outros. Tal ambição, repetimos, é frustrada pela recusa de nosso próximo em nos conceder aquilo que dele esperamos, malogro sintetizado pelo célebre aforismo: “O inferno são os outros”. Garcin, Estela e Ignez são simultaneamente juiz, carrasco e vítima.” “A ausência de espelho no cenário tem uma função dramática: indica que cada personagem só pode ver a si próprio através do olhar do outro.” “Na verdade, o inferno [...] é o olhar do outro, que, como diz Sartre, em O ser e o nada, obriga a que nos julguemos a nós mesmos como coisa.” Talvez o existencialismo acabe por exprimir a angústia moderna (obviamente nas sociedades em que a ideia de indivíduo tem valor) no sentido em que o homem se vê como indivíduo e, assim, como senhor de si próprio. A maioria sequer é capaz de se dar conta disso e, assim, se vê submetido às vontades alheias e a viver as vidas de outros, o que constitui uma vida inautêntica. Nesse sentido, acho que o existencialismo - no sentido de constituir a busca por uma vida autêntica - me parece ter coisas a nos dizer. Por outro lado e por fim, e fiquei com essa impressão ao ler o capítulo sobre Heidegger, que houve uma apropriação (ou seria uma decorrência de uma semente já existente? Não sei) pós-moderna do existencialismo que vê o homem como uma espécie de massinha de moldar, que pode se transformar em qualquer coisa. Isso, por exemplo, parece ser a tese de algo como o transhumanismo, cuja tese parece ser exatamente essa: o corpo físico é só um invólucro que pode ser transformado em qualquer coisa ou até mesmo transcendido. Acho que essa é uma interpretação possível, mas que não seja muito clara do que pensa Heidegger. Porém teria que ler coisas dele para poder fazer uma avaliação mais sólida.
O livro "O que é existecialismo?" se mostrou como um ótimo introdutório ao existencialismo. O livro tem uma linguagem de fácil acesso e ilustrações encantadoras. Além disso, e o melhor, o livro apresenta de maneira breve, mas rica, a história do existencialismo e os filósofos/existencialistas mais importantes que contribuíram com a essa corrente filosófica.
For anyone interested in learning about existencialism, especially Sartre's, I recommend reading this book before "Existencialism is a Humanism". It makes all the difference. The Primeiros Passos collection never lets me down, and every book of theirs I read makes me want more...
"A linha divisória entre o certo e o errado, era considerado existencialista. Algo semelhante com o movimento hippie, onde bastava a recusa de alguém em cumprir os mais elementares preceitos". p. 07
uma ótima introdução ao existencialismo, especialmente para quem se interessa por sartre. bom ponto de partida para a continuação do estudo dessa corrente filosófica.