«Breviário de uma geração, O Canto e as Armas articula paciente, mas indesistivelmente, aquilo que o autor segreda ao ouvido de uma mítica destinatária, a quem interpela como "Penélope que bordas de saudade", e no "amor em que me prendes", e que "é Liberdade", "palavra clandestina em Portugal / que se escreve em todas as harpas do vento." Contrapondo a incandescência das "armas" a uma outra, e porventura utópica, a do "canto", esta voz remete-nos a um destino hegemónico que consagra os artefactos da alta poesia, os quais, publicados e apreendidos pela censura, mas circulando em cópias manuscritas e dactilografadas, e novamente apreendidas, e novamente publicadas, duram como se verifica quatro décadas mais tarde. Eis pois o que erige um poeta, e o que o assinala, para além de quanto ele for, e de quanto quiser assinalar. Calem-se definitivamente, ou quase, as armas multímodas, e até as que se guardarem no avesso do gabão para surgirem em solertes assaltos. Só nesse instante o canto, o de Manuel Alegre, e o nosso através dele, poderá escutar-se em perfeita serenidade.» (do Prefácio de Mário Cláudio)
MANUEL ALEGRE nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda. Fez os estudos secundários no Porto, altura em que fundou, com José Augusto Seabra, o jornal Prelúdio. Do Liceu Alexandre Herculano, do Porto, passou a Coimbra, em cuja Universidade foi estudante de Direito, de par com uma grande actividade nas áreas da política, da cultura e do desporto. Destacado elemento dos movimentos estudantis, fez parte da Comissão da Academia que apoiou a candidatura de Humberto Delgado a presidente da República; foi um dos fundadores do Centro de Iniciação Teatral da Universidade de Coimbra (CITAC) e membro do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), foi ainda director do jornal A Briosa, redactor da revista Vértice e colaborador da Via Latina; praticante de natação, representou a Académica em provas internacionais.
Em 1962, foi mobilizado para Angola, tendo aí participado numa tentativa de revolta militar, pelo que esteve preso no forte de São Paulo de Luanda, cárcere onde conheceu Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. Libertado da cadeia angolana, foi desmobilizado e enviado para Coimbra em regime de residência fixa. Em 1964, exilou-se para Argel, onde viveu dez anos. Ali seria dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), presidida por Humberto Delgado, e principal responsável e locutor da emissora de combate à ditadura de Salazar, A Voz da Liberdade. Após o 25 de Abril, regressou a Portugal, passando a dedicar-se à política no seio do Partido Socialista de que é membro da Comissão Política. Foi Secretário de Estado da Comunicação Social e Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro para os Assuntos Políticos do I Governo Constitucional (1976-1978), deputado à Assembleia da República (1976-2009) e membro do Conselho de Estado, do Conselho das Ordens Nacionais e do Conselho Social da Universidade de Coimbra. Em 2006 foi candidato à Presidência da República, obtendo 20,7% dos votos, tendo-se recandidato em 2011, onde obteve 19,7% dos votos.
Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.
Como poeta, começa a destacar-se nas colectâneas Poemas Livres (1963-1965), publicadas em Coimbra de par com o «Cancioneiro Vértice». Mas o grande reconhecimento dos leitores e da crítica nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), logo apreendidos pelas autoridades, mas com grande circulação nos meios intelectuais. Começando por tomar por base temática a resistência ao regime, o exílio, a guerra de África, logo a poesia de Manuel Alegre evoluiria num registo épico e lírico que bebe muito em Camões e numa escrita rítmica e melódica que pede ser recitada ou musicada. Daí ser tido como o poeta português mais musicado e cantado, e não só em Portugal, mas também, por exemplo, na Galiza (Grupo «Fuxan Os Ventos») e na Inglaterra (Tony Haynes, BBC). Daí Urbano Tavares Rodrigues: «Os dois grandes veios que alimentam a poesia de Manuel Alegre, o épico e o lírico, confluem numa irreprimível vocação órfica que dele faz o mais musical (e o mais cantável) dos poetas portugueses contemporâneos.»
Estreando-se na ficção com Jornada de África, em 1989, Manuel Alegre não deixa de arrastar para a prosa e pela prosa a sua vocação fundamental de poeta. «A poesia é a sua pátria», lembra Marie Claire Wromans, e confirma-o a prosa de A Terceira Rosa.
Para além das revistas e jornais já citados, Manuel Alegre tem colaboração dispersa por muitos outros jornais e revistas culturais, de que destacamos: A Poesia Útil (Coimbra, 1962), Seara Nova, o suplemento do Diário Popular «Letras e Artes», Cadernos de Literatura (Coimbra, 1978-), Jornal de Poetas e Trovadores (Lisboa, 1980-) e JL:
Vou dar-me ao trabalho de transcrever para aqui o último poema, primeiro porque é excelente e segundo porque adorei e só me apetece escrevê-lo por aí nas paredes. Não sei até que ponto seria vandalismo.
POEMARMA
Que o poema tenha rodas motores alavancas que seja máquina espectáculo cinema Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas. Que seja um autocarro em forma de poema.
Que o poema cante no cimo das chaminés que se levante e faça o pino em cada praça que diga quem eu sou e quem tu és que não seja só mais um que passa.
Que o poema esprema a gema do seu tema e seja apenas um teorema com dois braços. Que o poema invente um novo estratagema para escapar a quem lhe segue os passos.
Que o poema corra salte pule que seja pulga e faça cócegas ao burguês que o poema se vista subversivo de ganga azul e vá explicar numa parede alguns porquês.
Que o poema seja microfone e fale uma noite destas de repente às três e tal para que a lua estoire e o sono estale e a gente acorde finalmente em Portugal.
Que o poema seja encontro onde era despedida. Que participe. Comunique. E destrua para sempre a distância entre a arte e a vida. Que salte do papel para a página da rua.
Que seja experimentado muito mais que experimental que tenha ideias sim mas também pernas. E até se partir uma não faz mal: antes de muletas que de asas eternas.
Que o poema assalte esta desordem ordenada que chegue ao banco e grite: abaixo a pança! Que faça ginástica militar aplicada e não vá como vão todos para França.
Que o poema fique. E que ficando se aplique a não criar barriga a não usar chinelos. Que o poema vista a prosa de poesia ao menos uma vez em cada ano.
Que o poema faça um poeta de cada funcionário já farto de funcionar. Ah que de novo acorde no lusíada a saudade do novo desejo de achar.
Que o poema diga o que é preciso que chegue disfarçado ao pé de ti e aponte a terra que tu pisas e eu piso. E que o poema diga: o longe é aqui.
Espero que apreciem e espero também que não estivessem à espera de uma review decente. As reviews não são de todo a minha especialidade.
This singular work is (almost similar to the Lusíadas, which has ten cantos) composed of eight cantos and other sparse verses. It was done virtually, and exclusively, at the revolutionary peak of the 25th of April. It has the poetic and warrior vein of Lusitanian blood that has made our nation, a nation without equal anywhere in the world. Portugal, the heir to the Discoveries epic, has a significant influence on the planet that exists and prevails, forever, in the memory of our ancestors.
A volume whose poems were musicalized and sung, among others, by Adriano Correia de Oliveira, having given this title to the album recorded in 1969. According to the record recalls, O Canto e as Armas was "the book of a generation that went on in time as a voice of hope in a free country. Denouncing the political oppression of the Salazar dictatorship, the colonial war, emigration and exile, to which many Portuguese, like the poet himself, were condemned ".
A set of prophetic poems, about which Urbano Tavares Rodrigues once said he represents the "dignity of Portugal that arises in words, without a single bulge of blunt rhetoric, before with constant verbal creativity, as finds in which the connotative glow itself ignites emotion".
Mais um livro incrível Anos 60, a guerra, a emigração, o ser português fora de portas, o que nos fez partir, a saudade, a revolta, injustiça, ditadura e repressão, uma guerra sem sentido. Mas acima de tudo um Amor que transborda por Portugal. Sinto tanto esse amor nos poemas que escreve, Portugal, Lisboa, Águeda, Coimbra... Que me emociona tanto e sempre. Um poeta que admiro muito, muito, muito Obrigada Manuel Alegre. Pelas lágrimas que me rasam os olhos, pelo aperto que sinto no peito, pelo embargar da voz... Porque existo e muito do que sou passa pelo que ouvi nos anos 70 no Coliseu, obrigada.