Dois antigos conhecidos do tempo da Ditadura e das conspirações encontram-se, muitos anos depois, numa manifestação contra um governo que traiu as promessas feitas ao seu povo. Tudo se passa, portanto, num país imaginário de um continente também imaginá uma Europa que se encontra em completa desagregação social e política. Um deles convida o outro para o acompanhar a uma igreja onde se encontra um caixão cujo conteúdo ele não revela. Uma mulher? Ou algo de secreto para uma revolução de que ambos falam como se fosse necessária? Durante a noite falam do passado, do presente, da mulher que ambos amaram, e do homem que ela teria amado e que os traiu a todos ligando-se aos vários governos que se sucederam, independentemente da cor política, apenas para satisfazer os seus interesses. A noite acaba com a descoberta do segredo que o caixão esconde e com os dois amigos a partirem na madrugada do dia em que a igreja vai ser implodida.
NUNO JÚDICE nasceu na Mexilhoeira Grande, Portimão, em 29 de Abril de 1949. Licenciou-se em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vindo depois a ser professor do ensino secundário. Foi Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em Literaturas Românicas Comparadas, em 1988 com a tese O espaço do conto no texto medieval. Colaborou ainda nas publicações O Tempo e o Modo e Jornal de Letras. A partir de 1997, foi nomeado Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e Director do Instituto Camões, em Paris. Foi comissário para a área da Literatura de «Portugal como país-tema da 49.ª Feira do Livro de Frankfurt». Publicou um livro de divulgação da literatura portuguesa do séc. XX em França: Voyage dans un siècle de littérature portugaise (1993) reeditado e revisto na edição portuguesa Viagem por um século de literatura (1997). Tem livros traduzidos em Espanha, Itália, Venezuela, Inglaterra e em França, onde está publicado na colecção Poésie/Gallimard com Un chant dans l'epaisseur du temps. Escreveu obras de ficção, como Plâncton (1981), A Manta Religiosa (1982), O Tesouro da Rainha de Sabá (1984), Vésperas de Sombras (1999) e Por Todos os Séculos (1999); Publicou o primeiro livro de poesia em 1972: A Noção do Poema. Seguiram-se Crítica Doméstica dos Paralelipípedos (1973), O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), O Voo de Igitur Num Copo de Dados (1981), A Partilha dos Mitos (1982), Lira de Líquen (1985, Prémio Pen Club Português), A Condescendência do Ser (1988), Enumeração de Sombras (1989), As Regras da Perspectiva (1990), Um Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação sobre Ruínas (1994, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1995), O Movimento do Mundo (1996), A Fonte da Vida (1997), Raptos/Enlévements/Kidnappings (1998, poemas escolhidos, com ilustrações de Jorge Martins), Teoria Geral do Sentimento (1999), Linhas de Água (2000) e A Árvore dos Milagres (2000). De entre as suas obras de ensaio destacam-se A Era do «Orpheu» (1986), O Espaço do Conto no Texto Medieval (1991), O Processo Poético (1992) e As Máscaras do Poema (1998), sendo esta última obra uma recolha de muitos dos seus textos de ensaio e crítica. Em 1996, foi lançada a revista Tabacaria dirigida pelo escritor. Recebeu os mais importantes prémios de poesia portugueses: Pen Clube (1985), D. Dinis da Fundação Casa de Mateus (1990) e da Associação Portuguesa de Escritores (1994), este último com o livro Meditação sobre Ruínas que foi finalista do Prémio Europeu de Literatura, Aristeion. Nuno Júdice recebeu ainda o Prémio de Poesia Pablo Neruda e o Prémio da Fundação da Casa de Mateus. Em 2001, publicou Pedro, Lembrando Inês e Cartografia de Emoções, um livro de poesia. No mesmo ano, Rimas e Contas, integrada na colectânea Poesia Reunida 1976/2000, foi reconhecida com o Prémio Crítica 2000, pelo Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários (AICL). Faleceu a 17 de Março de 2024.
"A Implosão" de Nuno Júdice é uma obra de leitura rápida e acessível. O livro conta a história de dois ex-revolucionários do tempo da Ditadura que se encontram após vários anos sem se contactarem, e começam um diálogo que pretende esclarecer antigos mistérios que datam dos seus tempos de conspiração contra o regime. Esporadicamente, a conversa gera corolários que expõem a atual deterioração do sonho europeu.
Júdice consegue criar uma interessante dinâmica no discurso entre os protagonistas, onde a fronteira entre a introspeção dos personagens e a crítica social se dissolve e se mistura. Os protagonistas movem-se num espaço limitado, mas rico em símbolos que cativam a mente do leitor, prendendo a sua atenção.
Infelizmente, no derradeiro ato da obra, Júdice decide subitamente retirar a sua confiança no leitor e tornar berrantemente explícita a crítica política que fervilha sob a superfície das letras. Todo o mundo de vivências evocado pelos dois protagonistas não passa, afinal, de um puro argumento de film-noir (temos direito a femme-fatale e tudo), e as personagens da história são, de repente e sem margem para dúvidas, rotuladas de "boas" ou "más", consoante a ideologia do autor (para cúmulo, uma delas recebe inclusivamente o nome de "Traidor", e nada mais).
Fecha-se assim qualquer possibilidade do leitor retirar as suas próprias conclusões da obra, dado que o autor tomou a liberdade de o fazer por ele.
O autor e poeta Nuno Júdice faleceu há pouco. Já li um livro dele, mas foi um livro de poesia e basicamente a minha perspetiva no mundo da poesia é barbárica, até no meu próprio idioma, portanto decidi comprar um romance dele. E que romance desafiante! Fui em busca de opiniões de outros leitores e encontrei um ensaio escrito por um académico da Universidade Católica de Portugal, que fala da "intertextualidade com alguns textos de Guerra Junqueiro ou O Marinheiro de Fernando Pessoa" e logo percebi que este texto podia estar fora do meu alcance!
Mas segui em frente e li o livro e gostei, apesar de tudo. Lembrou-me d'À Espera de Godot de Samuel Beckett, tendo como protagonistas duas pessoas num sítio irreal, com poucas outras pessoas. Falam de coisas que nem sempre fazem sentido: um caixão que talvez contenha armas, escondidas sob um cadáver que talvez seja também a pátria... Os dois têm um diálogo que anda em rodapés, tendo como assunto o seu passado na clandestinidade e a traição por sabe-se lá quem. Criticam o declínio do país e a desilusão das esperanças dos revolucionários do passado, e julgam que o Portugal de hoje, com os seus laços com a UE e as suas modernices é pouco melhor do que o Estado Novo, mas a atmosfera é tão absurda que é difícil (ou pelo menos eu acho difícil) entender o que o autor queria transmitir.
Nota-se que o ensaio fala da "geração de 70", o que eu assumi significa "a geração que participou na revolução". Mas enganei-me: A geração de 70 foi um movimento da década de 70 do século XIX. Pois... mais um assunto de mais uma pesquisa de mais um dia... Mas isto tudo alimentou o sentimento de estar perante uma obra cuja profundidade não sou capaz de explorar!
“Os patifes não sabem o que hão-de fazer. Andam a roubar-nos, é o que é. Lembras-te da Alemanha no tempo dos nazis? Roubaram tudo aos judeus. E nem era preciso disfarçar: era só esvaziarem-lhes as casas, partirem-lhes as lojas. É o que nos estão a fazer, aqui. Mas aprenderam, as coisas agora são feitas com maior limpeza, tudo muito inócuo, não há violência. Mas o roubo é o mesmo. Acaso não aprendemos com o que se passou para parar com isto a tempo?”
“No tempo da Inquisição, quando o Estado precisava de dinheiro fazia a lista de cristãos-novos, sobretudo os que eram ricos, e o défice resolvia-se com umas fogueiras pelo meio. O Estado fez o mesmo aos lavradores ricos. Mas nessa altura o Poder tinha um rosto, podíamos ver quem nos assaltava e a revolução francesa inventou a guilhotina para que o carrasco pudesse mostrar à multidão o rosto de quem a oprimira. Hoje, não sabemos que rosto está por trás de tudo isto. Não sabemos quem nos rouba, quem põe a leilão as coisas que nos custaram a comprar e que o Estado vende ao preço da chuva. E as casas ficam vazias. Isto quando temos casas, porque se as temos também elas nos são confiscadas e os proprietários, transformados em devedores daquilo que julgavam seu, vão viver para a rua.”
“A ditadura hoje é muito mais maquiavélica porque não se apresenta como tal. Vivemos todos convencidos de que somos livres, e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós, que não sabemos como rejeitar. Não é contra ti nem contra o teu vizinho: é contra todos, e todos são objecto de um roubo que vem de fora, mas que é executado como se fosse uma coisa natural, explicada com argumentos que até parecem lógicos, e que deixam um sabor amargo na vida que não sabes de onde vem.”
“O mundo é uma enorme ficção, concluí. Mas é tão mal feita que nos faz saber precisamente como vai acabar, e o fim não presta, de tão repetido que foi no passado. A guerra, a fome, a miséria, as pestes, já vimos tudo isto. Quanto a nós, que queríamos ficar de fora porque sabemos como se pode alterar o fim da história, perdemos sempre, e nunca se vai saber quem ficará a ganhar.”
Sinceramente, não acho que seja um dos melhores livros para ler. Achei muito confuso, talvez por não estar organizado por capítulos e uma vez que, não o pude ler de seguida (nem o queria), era complicado lembrar-me do que já tinha acontecido. Achei o fim um pouco mais interessante do que o resto do livro, mas mesmo assim, fiquei desiludida. Fico contente, apenas, por ser útil para a faculdade, porque de resto, não o compraria para ler.