Vidas. Emoções. Dias que se resolvem, noites que se atrapalham de incertezas. Júlio Machado Vaz, conhecido psiquiatra, especialista em sexologia, experimenta desta feita os domínios da ficção. Uma ficção inundada dos muitos rostos e pessoas que conheceu no trabalho e fora dele. Sem compartimentos estanques, extravasa, a cada página, a sensibilidade de quem sabe ouvir.
This is a book that captivatingly tells the story of lives and emotions. It is a fiction full of faces and people, described with the sensitivity to which the Author has accustomed us.
Entrevista publicada no DNa, do Diário de Notícias, em 1998!!! LUCIDEZ...
O contacto com o sofrimento transforma as pessoas? R:Há colegas meus que nunca estiveram deprimidos ou ansiosos. Eu não me posso gabar disso, mas também não faço disso uma tragédia. Ter conhecido eu próprio o que é a depressão e a ansiedade ajuda a entender alguém que diz «O Sr. Dr. não pode entender o que estou a sentir». A medicina ocidental é muito no reino da dor e da morte; mas não do sofrimento. Nós não somos educados medicamente para lidar com o sofrimento. Quando escrevi O Sexo dos Anjos um dos textos começava assim «A psiquiatria é a arte da distância; a vida também» . No outro dia reli aquilo e achei que não mudava uma letra. Andar à roda da boa distância, para que a pessoa não se sinta nem abandonada nem invadida, é complicado. E isso tanto se dá num consultório como na vida em geralcomo se esse fosse o nosso patamar admissível e não fosse possível residir bem na dor.
Não sente uma nostalgia por ter perdido a sua alma gémea? No Muros fala de uma intimidade assustadora e depois pergunta «Onde está a minha alma gémea». R:Penso que estou muito mais nos meus livros do que nos programas de televisão, arriscar-me-ia a dizer que O Sexo dos Anjos está a meio do caminho. A intimidade é assustadora. Nesse primeiro encontro com os jornalistas alguém me perguntou se, vivendo só, não me assustava a ideia de viver sozinho. Respondi «Assusta-me mais envelhecer ao pé de alguém com quem não me sinta bem». É algo que continuaria a dizer hoje. Não encaro um divórcio com ligeireza; é sempre o falhanço de um projecto.
Não teve vontade de refazer a sua vida? R:Parte-se do princípio que para se refazer a vida é preciso casar outra vez.
Foi a expressão que usou citando o Dr. Cunhal. R:Nunca me aconteceu ficar muito assustado por estar sozinho e baixar os meus critérios para poder não estar sozinho.
Isso parte de um pressuposto quase narcisista. Nenhuma preenche os requisitos para se encaixar na minha forma. R:Não é rigorosamente isso. Com o passar dos anos, com o egoísmo e os tiques, as probabilidades vão sendo menores. O Woody Allen gosta de citar o Groucho Marx e dizer «Nunca seria sócio de um clube de que eu fosse membro». Com franqueza, vejo com muita dificuldade, se fosse mulher, eu viver comigo mesmo [riso]. Seria uma tarefa hercúlea.
Porque é que se acha tão difícil? R:Sou um bom exemplo das pessoas que são bons amigos, que são solidárias, que nem dificultam muito a vida a quem se move à volta e que são quase execráveis no quotidiano de uma vivência em conjunto. A velha expressão Mau Feitio assenta-me como uma luva. Um mau feitio dentro de muros. Eu acho isso e, como já me foi dito várias vezes, tenho de me render.
Então não o assusta envelhecer sozinho? R:Em primeiro lugar não estou sozinho. Não consigo imaginar o que seria de mim sem os Machadinhos. Mesmo em sentido mais lato eu não vivo só, não sou monástico. Depois, tenho bons amigos. Tenho gente da minha geração que está a viver sozinha há tanto tempo como eu e que nunca jantou em casa sozinha, fica completamente deprimida. Eu tive sorte.
Aprendeu a viver deprimido. R:[riso] Exceptuando os primeiros tempos e por razões puramente funcionais, por ser um típico filho único sem qualquer capacidade de sobrevivência, viver sozinho foi muito menos catastrófico do que imaginava.
Estou com esta conversa toda porque não me parece que tenha uma relação linear com o envelhecimento e com a idade. Por casualidade ou não o primeiro herói de que fala no Muros é o Peter Pan. R:O que me assusta mais no envelhecer é achar que há partes da minha cabeça que não envelhecem ao mesmo ritmo das minhas articulações e do meu colesterol. A expressão que me ouvi pronunciar e sobre a qual depois pensei é Envelhecer com dignidade. Vou fazer 49 anos e há partes minhas que se riem à gargalhada do bilhete de identidade e acham espantoso que tenha colesterol que exige dieta. Mas não penso que seja uma coisa que se passe só comigo; estou sempre a encontrar isso, na clínica e fora dela. As pessoas perguntam-me «Será que eu sou normal?»
No fundo, nas coisas prosaicas você é um homem tremendamente normal. R:Nesse aspecto sim. Envelhecer bem tem que ser, inevitavelmente, uma arte; e é uma arte que ainda não domino bem, ainda estou a aprender. Porque é que há coisas tão tristes como dar uma aula de Sexualidade na Terceira Idade, pôr dois idosos a beijarem-se na boca e uma data de gente rebentar à gargalhada? Porque há esse imperialismo da juventude?
O Garcia Marques escreveu Ridículo na idade deles, na nossa uma obscenidade. R:Psicologicamente sinto-me melhor comigo agora do que me sentia há vinte anos. Mas há umas coisas que me irritam: canso-me com mais facilidade.
Como é que imagina que vai ser daqui a vinte anos? R:Com tudo a correr bem imaginava-me com a casa ao pé de Vieira do Minho feita (teoricamente será a primeira obra do meu filho mais velho). A casa das vindimas da família, dos meus netos. Quando as pessoas me perguntam com que personagem me identifico mais no Muros eu digo que é com aquela avó que tem uma nostalgia terrível do clã. Eu sou o mais novo da minha geração na família e já não conheci a família em Paredes de Coura, com a quinta e os verões e quarenta e tal tipos a dormirem no bilhar por já não haver mais camas. Eu nunca tive isso, fui sempre citadino. Tive cedo a noção de que um dia iria reconstruir esse tipo de coisas. Mas normalmente não há dinheiro para isso aos vinte e tal.
Começou a ganhar dinheiro a sério com a televisão? O dinheiro foi um argumento válido para fazer o programa? R:De maneira nenhuma, eu aceitei o programa antes de saber quanto é que iria ganhar. Eu sou, comparado com o português médio, um homem rico; mas sempre quis o dinheiro pelo que me podia proporcionar em termos de qualidade de vida. Nunca fez sentido estar a enriquecer, ter dinheiro, multiplicar o dinheiro. Cá em casa é como numa mercearia e imperam duas regras de ouro: Não gastar mais do que se tem e A qualidade das férias depende do que se gastou durante o ano. O terreno de Vieira do Minho, que não é negociável, foi sempre pensado como um recomeço de saga familiar.
Um investimento mais familiar que imobiliário. R:Nem mais. Eu vejo-me calmamente em Vieira do Minho a ler os livros que não tive tempo de ler, a ouvir a música que não tive tempo de ouvir.
Leva-se a sério enquanto escritor? R:Não, não me podia levar porque nunca escrevi nada que não fosse em andamento; e isso é algo que considero incompatível com o rótulo de escritor. O próprio romance foi escrito de uma forma desadequada, grande parte de Muros foi escrito na Galiza, à noite. Se voltar a publicar ficção, o que não é garantido, gostaria que fosse escrito calmamente.
Gostava de ter o talento de um muito bom escritor? R:Claro!
Se lhe fosse dado um talento à escolha, escritor, cantor, galã de cinema, qual é que inveja mais? R:O Chico Buarque, porque alia o talento musical à extraordinária capacidade de ultrapassar os papéis de género e escrever poesia para homem e mulher.
O Chico Buarque vai muito bem consigo. Há pouco, quando falava de si enquanto homem desejado por mulheres, queria referir-me a um recato quase feminino que inebria as mulheres por lhes despertar o instinto maternal. R:Se quiseres, o Chico Buarque é o expoente máximo disso.
Há aqui um aparente paradoxo: é um homem de um enorme pudor mas que acaba por escolher a medicina, a psiquiatria e, dentro desta, a toxicodependência e a sexualidade que o expõem. Parece que não foi feito para a arena pública e, no entanto, não consegue sair dela. R:Consigo, se eu tivesse querido manter-me na arena pública teria sido muito fácil e eu hoje estou completamente fora da primeira linha dos colunáveis.
Está com os livros, por exemplo. R:Um tipo não pode deixar de fazer o que quer só porque isso acarreta exposição. Mas é verdade que na escrita sou muito mais permissivo em relação a mim mesmo que num programa de rádio ou televisão.
Uma coisa que me chamou a atenção no seu romance foi uma dedicatória ao seu pai. Deve ter sido um fardo terrível ser filho e neto de quem é. Contudo, pensava eu que as suas relações mais fortes eram com as mulheres e com a sua mãe. R:Por isso é que a dedicatória é ao meu pai. A dedicatória é «Por me telefonar todos os dias». Mais uma vez é a questão do afecto entre os homens. Tenho uma relação infinitamente mais visceral com minha mãe que com meu pai; e tenho uma imensa nostalgia, como é frequente entre os homens, de uma relação que tivesse sido mais visceral com meu pai. A dedicatória do Muros é uma espécie de armistício, é uma forma de lhe dizer « Aos 46 anos de idade, aceito que há maneiras diferentes de gostar, tu tens a tua, eu tenho a minha, isso não significa que gostemos menos um do outro ». Porque eu sou um tipo muito físico no gostar e o meu pai não é. Apesar disso, há não sei quantos anos, telefona-me todos os dias. Foi um bom passo. Teria detestado que o meu pai tivesse morrido sem lhe ter feito aquela dedicatória. Nunca me passou pela cabeça dedicar à minha mãe. Aliás, uma dedicatória semelhante à minha mãe seria quase ofensiva, não faria sentido nenhum.
Se em miúdo tivesse de fazer queixinhas fazia à mãe? R:Eu não fui um miúdo de queixinhas. Os filhos únicos vivem no mundo dos adultos. Mas se tivesse de as fazer seria à minha mãe, sim. Até porque a força motriz da família era ela. Tratava-se, afinal, de uma cumplicidade: nós dois éramos preguiçosos e ela cuidava dos seus homens que só serviam para estudar.
A competência dela era cuidar dos seus homens. Era a sua forma de os fazer depender. R:Exactamente, mesmo que possa parecer sinal de um horrível machismo, eu não consigo pensar na situação dessa maneira. Toda a gente lucrava. Ela tinha os seus homens que reduzia à impotência e ineficácia nas áreas que eram completamente dela. Na minha opinião insofismável tinha sozinha uma personalidade mais forte que nós os dois juntos. Minha mãe foi sempre uma rocha. Nunca consegui olhar para as mulheres como o sexo fraco. É uma expressão que claramente pertence à mitologia [riso]. O paradoxo da imagem pública entronca muito aí.
Tinha dois pais públicos. R:Um pai professor universitário, de quem fui aluno.
Que nota é que ele lhe deu? R:Não pôde fazer-me exame. Quando fiz as duas cadeiras, entrei eu e saiu ele.
Que nota teve nas cadeiras dele? R:Tive 19, 19. Ser filho de um catedrático era uma herança pesada. Mas havia do outro lado um peso ainda maior porque a minha mãe era uma figura pública a outro nível. Quando era puto levava-me para a Figueira da Foz quando ia cantar e eu ficava aterrorizado.
Aterrorizado com quê? R:Não percebia como aguentava aquilo. Ela cultivava ferozmente a sua privacidade. A imagem que tenho dela é a coser, a ouvir a Emissora 2 tardes inteiras e a evitar todo o tipo de exposição pública. Não entendia como é que depois, à sexta e ao sábado, ela estava naquelas coisas.
O seu pai também ia? R:Ás vezes ia. O meu pai tinha um orgulho espantoso na minha mãe.
Do que é que sente particular orgulho na sua vida? R:Do que eu me sinto mais orgulhoso é, evidentemente, da relação que tenho com os meus filhos. Em termos profissionais... É difícil falar disso porque eu não me sinto particularmente orgulhoso da minha trajectória profissional. Como professor universitário faltou-me sempre uma dimensão clássica, a investigação. Mesmo na tese de doutoramento as partes que me agradam mais não são as de investigação numérica mas sim as impressionistas do meu ensino da sexologia. Isso implicou uma opção, eu disse a mim próprio que não chegaria a ser um professor catedrático. O que significa que em termos de sucesso universitário eu poderia descrever-me como um falhado; continuo a ser um professor auxiliar, ponto final. Pesa-me não ter sido capaz de formar uma equipa.
Bem labiríntico o romance. Ou romances. Linguagem de peso. O estilo. Mas capítulos finais elucidativos e conducentes a um desfecho que apazigua o leitor.
Gostei muito. Este já reli. Há frases e passagens que continuo a guardar na memória. Gostei também da riqueza de personagens, não foram só os protagonistas a deixar a sua marca. É um livro muito sobre pessoas...há um casal que comunica através de faixas de albúns: uma delícia!