O livro foi publicado em 1978 e procura reconstruir a vida de nossos antepassados mortos há muito tempo, centrado nas descobertas de fósseis humanos e de antepassados do homem.
Resumo
A região aonde tudo se desenrola é o lago Turkana, localizado no Vale da Grande Fenda que atravessa a Tanzânia, Quênia e Etiópia. Leakey e Lewin, didaticamente, explicam como ocorre o processo de fossilização naquele local, contextualizam as condições climáticas e geológicas; por fim, mostram como se deu o processo de reconstituição de um famoso cenário fóssil aonde havia hominídeos, uma carcaça de hipopótamo e até mesmo uma folha de figo cuja "fotografia " resistiu ao tempo.
Sobre quem seriam os primeiros hominídeos, os autores indicam que há poucas evidências fósseis que permitam uma resposta mais segura (alguns fragmentos de maxilares, partes de braços e pernas). Tudo indica que seria o Ramapithecus o nosso primeiro ancestral, seguido de perto pelo Gigantopithecus e Sivapitechus.
Partindo de que o Ramapithecus seria o nosso ancestral mais longínquo, há um hiato entre 8 e 4 milhões de anos atrás, chamado de "vazio fóssil", sendo impossível saber o que ocorreu com os hominídeos nesse momento da história geológica.
Após este “vazio fóssil” surgiram 4 tipos de hominídeos, com cabeça erguida e andar reto: o homo habilis, o australopithecus africanus, o australophitecus boisei e Lucy (para alguns, australopithecus afarensis, para outros, uma remanescente do ramapithecus; ainda, possivelmente, uma ancestral tanto do homo quanto dos australopithecus).
Lucy possivelmente é a antecessora de todos, podendo ser um ingrediente interessante ao "vazio fóssil" dos milhões de anos anteriores e mais próxima do ramapithecus, nosso provável primeiro ancestral. Os australopitecus robustus e boisei (ou zinjarhropus) provavelmente foram a mesma espécie, embora os primeiros muito maiores do que os segundos. Por fim o homo habilis, achado em 1972, empurrou para 2 milhões de anos a aparição do gênero "homo", um período maior do que aquele aceito até então.
Entre os fatos que se tem alguma certeza mas não se consegue explicar o porquê ocorreram que são características dos primeiros hominídeos são a diminuição dos caninos e a postura bípede, isso entre 10 a 15 milhões de anos atrás.
Sobre a postura bípede, algumas considerações. Primeiro, é algo mais antigo do que o senso comum leva a crer. Segundo, há uma impressão equivocada de que os australopitecus seriam mais desajeitados e andariam desengonçados em relação ao homo habilis e homo erectus. Todavia estudos com biomecânica levam a crer que os australopitecus andavam até mesmo de forma mais eficiente que o gênero homo. Terceiro, relevante também citar sobre a interpretação dos ossos que chegam até nós. O fato de existirem mais crânios e mandíbulas decorrem da dificuldade em elas serem consumidas por outros animais e o fato de serem achados em cavernas, não implica que os primeiros homens morassem em cavernas (em realidade, era pouco provável que elas fossem usadas como moradia).
Refletir sobre as sociedades coletoras-caçadoras existentes e sobre os grandes antropoides pode ser um modo de procurar entender a essência da natureza humana em nossos antepassados. As reflexões a seguir irão nesta linha.
Estudos revelam, em sociedades coletoras-caçadoras existentes, a predominância da coleta sobre a caça, uma natalidade em média de 4 anos controlada por infanticídio e o compartilhamento do produto da coleta. A partir disto infere-se que a coleta tenha sido a base da alimentação de nossos antepassados e que a quantidade de pessoas e recursos naturais deveria ser controlada instintivamente. É um contraponto à visão do ancestral humano como um caçador, carnívoro e em uma vida difícil e perigosa, deve ser repensada.
Sobre a inteligência humana. Abandonou-se a ideia de que o uso e/ou criação de ferramentas seria uma marca da supremacia humana, já que outros animais são capazes disso. Por outro lado, a interação social, manter e fazer alianças sociais, é possível que tenha sido decisivo na evolução da inteligência na medida em que não é observável em outros animais.
Repartir e acumular é o que pode nos ter feito humanos, e não caçar ou coletar. Pois embora sem vestígios fósseis, infere-se a confecção de bolsas para acumular a coleta, hipótese sugerida pelos chimpanzés, que são excelentes tecelões, embora nunca acumulem. A repartição pode ter implicado uma espécie de altruísmo recíproco que ampliou a sobrevida dos nossos antepassados e convergiu em uma primeira sociedade abundante em recursos.
A linguagem falada humana. Por quê e quando ela aflorou, será segredo para sempre. Contudo o simbolismo abstrato, como em entalhes e pinturas nos últimos 30 mil anos, são impossíveis em um animal que não fala. Ainda, fabricação de objetos (entalhes e pinturas) a rigor sem nenhuma utilidade, apenas humanos o fazem. Quando observáveis em fósseis, trata-se de sinais de uma cultura em pleno amadurecimento.
A vida sexual dos primeiros hominídeos. É provável que fosse semelhante à dos chimpanzés nos quais é observável a existência do incesto humano, embora a paternidade seja algo desconhecido. O aumento do compromisso do homem em relação à mulher e filhos pode ter se dado pela maior disponibilidade das mulheres ao sexo, diferente dos grandes primatas (que apenas em determinados momentos as fêmeas estão acessíveis para o acasalamento). Sugere-se também, observando sociedades coletoras-caçadoras existentes, que a predominância masculina se tornou maior de forma diretamente proporcional à importância da carne, uma equação ainda carente de maior elucidação e que deve ter movimentado a alavanca de poder ao homem na evolução humana.
Por fim, a guerra como uma tendência no curso da evolução humana e desconhecida pelos animais. Por quê? Bom, fósseis despedaçados e o instinto animal de agressão podem relacionar esta observação ao lado sanguinário do homem. Todavia, considerar a agressão incontrolável ou iguala-la à guerra, pode ser apressado. Ainda, se considerarmos o canibalismo familiar como algo menos agressivo que o canibalismo de inimigos, povos coletores (mais primitivos) seriam menos agressivos do que os agrícolas, já que estudos revelam que o canibalismo de inimigos é mais presente em sociedades agrícolas. Ou seja, a guerra parece um componente menos da evolução humana e mais da História humana, justamente quando o homem deu o passo gigantesco, talvez fatal, para a agricultura.
Considerações Finais
Richard Leakey e Roger Lewin são velhos conhecidos da pré-história humana e referência em estudos sobre a evolução dos seres humanos. O sítio arqueológico de Turkana foi importante no avanço dos estudos sobre nossos antepassados, graças às condições muito favoráveis encontradas ali.
Acredito que as reflexões feitas a partir dos grandes antropoides e estudos sobre sociedades coletoras-caçadoras existentes para explicar nossos antepassados devem ser recebidas com alguma cautela, principalmente por ser um livro de 1978 e algumas hipóteses podem ter mudado até então. Chega um momento em que os fósseis não conseguem mais falar e, a partir daí, resta ao pesquisadores apenas alguma dose de imaginação para tentar responder as perguntas que aparecem.
No entanto os autores procuram, de forma didática e simples, elucidar o trabalho dos pesquisadores, ao mesmo tempo que desmistificam alguns pontos. A narrativa é bastante acessível, quase como assistir um documentário.
É uma leitura obrigatória para os estudiosos e curiosos da Pré-História, bem como o público em geral.