O que aconteceria se o fabuloso imaginário de Howard Phillips Lovecraft – considerado o maior escritor de terror fantástico de sempre – fosse aplicado à cidade de Lisboa, às suas colinas inclinadas, becos escuros e prédios seculares?
Guiados pela imaginação de autores tão diferentes como Rhys Hughes, António de Macedo, David Soares, João Barreiros ou José Manuel Lopes, entre outros, somos convidados para um passeio ao longo da história milenar de Lisboa e dos seus segredos mais obscuros. Entrelaçando artefactos, criaturas e intrigas lovecraftianas com factos e personagens históricas da nossa capital, o resultado é uma obra original, simultaneamente divertida e perturbadora, verdadeiro tributo não só a Lovecraft mas também à cidade de Lisboa.
Prepare-se para descobrir que horrores presenciaram os fenícios na foz do Tejo... O que levou a que os mouros invadissem a península... Que monstros encontraram as caravelas durante os descobrimentos... Qual a verdadeira razão para o terramoto de 1755... Que estranhos cultos combateu Eça de Queiroz... Qual a verdadeira razão para a interrupção das obras do metro da Baixa... E muito mais!
Em primeiro lugar, como muitas outras antologias, há uma disparidade entre cada conto. E não só quanto ao tamanho como no estilo inerente de cada conto. Agora, como nunca li nada de Lovecraft, não tenho muita noção quanto a esse lado da equação mas as narrações, algumas bastante verbosas (algo que, já me li, é típico de Lovecraft?) podem acabar por chegar ao ponto de serem um pouco maçudas. Pessoalmente, se calhar porque se destacam, as minhas favoritas foram as que não acabaram na destruição de Lisboa, grande parte da cidade, ou que não tiveram um grande número de morte, descrita ou apenas implícita - não que haja algum problema com essas mas a quebra da morte contínua foi apreciada. Um bocado tétrica a antologia mas tendo em conta o tema não há muito com que queixar.
ESTE LIVRO É INCONSTANTE. ALGUNS AUTORES PELA SUA ESCRITA CONCISA, ACUTILANTE E INSPIRADORA MERECEM 5*. FIQUEI A CONHECER A ESCRITA JOÃO BARREIROS E DESCOBRI NOVOS AUTORES COMO YVES ROBERT E VASCO CURADO. A ESCRITA DE DAVID SOARES É UM MARCO QUE VALE A PENA DESCOBRIR. MAS TAMBÉM FIQUEI DESILUDIDO COM EXAGEROS DE FLOREADOS NOS DESCRITIVOS DE ALGUNS AUTORES QUE NÃO TORNAVAM AS HISTÓRIAS NADA INTERESSANTES, TENDO SIDO TENTADO A DESISTIR A MEIO DO LIVRO. É UMA HOMENAGEM RELATIVAMENTE BEM CONSEGUIDA A LOVECRAFT COM DESCRIÇÕES VÍVIDAS E BEM CONSEGUIDAS DE LISBOA, MAS FALTAVA MAIS FORÇA EM TODAS AS HISTÓRIAS.
Goulas, bruxas, espíritos malignos e zombies foram a companhia perfeita para esta passeata sobre uma Lisboa lovecraftiana. É verdade que nunca li nada de H. P. Lovecraft mas o seu trabalho não me é estranho. Muito já li sobre ele e os ecos da sua criação sussurram em muito do que pode ser encontrado no terror moderno. Este livro, lançado em 2007, chamou-me a atenção, mais do que pela temática, pelos autores que nele escrevem. Os que conhecia não me desiludiram, um ou outro surpreendeu-me.
A antologia não é superior a outras da editora, como Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa ou Lisboa no Ano 2000, mas o contraste é aqui mais evidente ao nível da qualidade dos contos apresentados. A Sombra Sobre Lisboa tem contos muito bons, que me fazem ter gostado do livro, não foi de maneira nenhuma tempo perdido, mas fiquei com a sensação que vários foram escritos sem paixão, quase diria em cima do joelho, para encher o volume. Não é uma acusação, apenas a sensação com que fiquei. Antes de passar para a análise aos contos, permitam-me elogiar o grafismo desta edição. Apesar de o meu livro se ter danificado com a passagem das folhas, a capa é lindíssima, assim como as ilustrações carregadas de negrume incluídas em cada conto, a perspetiva do ilustrador Miguel Vieira sobre cada uma das histórias apresentadas. Em contraponto, nos contos iniciais notou-se a falta de uma última revisão; nada de especial, mas não esperava encontrar os erros que encontrei num livro de aspeto tão cuidado e em contos de editores.
No que diz respeito ao conteúdo, os três primeiros contos têm muito em comum. Uma escrita esmerada, histórias com potencial, mas que mereciam muito, muito melhor tratamento. Rogério Ribeiro apresenta-nos O Primogénito, um conto que me agradou pela alusão ao período fenício na nossa Lisboa. É aqui que se dá a primeira aparição dos monstros lovecraftianos, gostei da figura Nyarlathotep e do concílio de deuses, mas a história terminou demasiado rápido e revelou-se muito indefinida e confusa. Pedia-se maior objetividade. O segundo conto, de Safaa Dib, Vale de Sombras, conta a história da nossa Lisboa no Período Visigótico. Mas só conseguiu mostrar que a autora tem bons conhecimentos e uma escrita atrativa. Houve momentos de tensão e de terror, mas aquela história terminou de uma forma muito apressada, muito vaga, denotou-se pouca consistência narrativa e alguma confusão na importância a ser dada aos personagens. O terceiro conto, Aquele que repousa na eternidade, de Luís Filipe Silva, foi sem dúvida o mais bem conseguido dos três. Gostei do facto do próprio Lovecraft ser um personagem da história, dos paralelismos entre a nossa história e a mitologia lovecraftiana, a escrita mostrou-se irrepreensível e os desfechos foram dignos. Mas as mudanças de ponto de vista tornaram-se confusas, assim como as mudanças de forma de diálogo. Ora começavam por aspas, ora por travessões. O conto foi extenso e a narrativa demorou a arrancar, trinta páginas a mais teriam beneficiado o conto.
Entramos então no quarto conto da antologia, desmarcando-se dos três anteriores e não pelas melhores razões. Um dia no cárcere, de João Henrique Pinto, começa bem, com uma escrita de qualidade a descrever uma sala de tortura, mas perde-se completamente em divagações e parágrafos com zero conteúdo, um fim pobre e fastidioso. É então que conhecemos O Elefante e o Cavalo, de David Soares. E é este o primeiro conto que me encheu as medidas. Primeiro, porque a escrita de David Soares, ao contrário das anteriores, não é competente, ela simplesmente é deliciosa. Depois, porque a abordagem ao imaginário lovecraftiano torna-o credível, assustadoramente credível. Uma sátira aos homens e às suas crendices, um olhar sobre o período em que Sebastião José de Carvalho e Melo se tornava o Marquês de Pombal. E a forma como ele encaixa o terramoto de Lisboa e a estátua pombalina na visão lovecraftiana é genial.
Logo em seguida, começo a entusiasmar-me. Depois do fantástico conto de David Soares, As sombras sobre Lisboa de João Seixas, vem revelar-se ainda melhor. Não só a história é cativante, tendo o famoso Eça de Queirós como protagonista, lutando contra cultos inomináveis, vudu, zombies, goulas e humanos que querem fazer despertar Cthulhu, como a escrita do autor me apaixonou. Se ao início os seus artifícios pareceram-me exagerados, pouco a pouco deixei-me maravilhar pela forma como a escrita se tornou fluída com tanta mestria. E as reviravoltas foram muitas e agradáveis de se ler.
António de Macedo apresentou-nos A dama do espelho negro. A escrita é simples e o conto pequeno, não me maravilhou mas posso dizer que foi o conto que mais me arrepiou. Um espelho que mostra os rostos de pessoas mortas e as suas mensagens, personagens credíveis numa época da nossa História, espiritismo e histórias familiares que fazem estremecer de uma forma muito mais incisiva do que o aparecimento de monstros e criaturas nojentas. Para compensar, Arroz de Abominação, do galês Rhys Hughes, é uma lufada de ar fresco. Uma verdadeira comédia que engloba espiões nazis e um plano secreto do português famoso pela sua gastronomia, de apanhar o mostrengo Cthulhu para fazer arroz de polvo. O conto é de leitura rápida e de fácil digestão. As Confissões de Walter Reis, de José Manuel Lopes, não me agradou minimamente. Apesar de ele transpirar a Lovecraft por todos os seus poros, ele é uma simples exposição da vida de um sujeito que se transforma num anómalo aquariano, uma escrita exaustiva, parca em desenvolvimento. Sem muito interesse, para mim.
O músico Fernando Ribeiro apresenta Mastodon, que mais do que um conto, é uma canção. Não temos uma narrativa, mas uma brincadeira de palavras, que se derramam uma atrás das outras de um modo mágico que me deliciou em vários momentos, mas chegado ao fim, fica a sensação que isto não é um conto. No entanto, passou a mensagem. A ameaça rastejante, de Yves Robert, leu-se bem e conseguiu transmitir um verdadeiro clima de horror através das memórias tenebrosas de um português que vão renascendo como o prenúncio de um apocalipse. Pecou por uma maior falta de construção no que diz respeito às personagens, e a escrita não é muito atraente. A hora, de Vasco Curado, fala-nos de ratos, eles que trazem consigo uma missão horripilante. Gostei da escrita, é-nos passado um verdadeiro ambiente de “algo de mal está aqui”, em forma de sugestão, que consegue ser mais aterrorizador que uma apresentação do mal. Ainda assim, senti que foi um conto extremamente pobre em curso narrativo. Logo depois, João Ventura apresenta-nos um conto de qualidade em Num túnel em Lisboa. Qualidade a nível de escrita, de consistência, de credibilidade. Mas não me ficou na retina, nada nele se tornou marcante. Para terminar, Por detrás da Luz foi um hino ao absurdo e ao ridículo da esperança humana. E quem o podia escrever se não João Barreiros? Num futuro longíquo, o homem ainda é traído pelas suas próprias fraquezas, pelas manhas do corpo, pelas promiscuidades da carne e pelas vendas do coração. É com esta visão apalermada do que é o homem que nos é traçada uma narrativa que combina o folclore lovecraftiano ao mundo de ficção científica característico do autor. Mais do que a história mais entusiasmante da antologia, talvez a menos credível a nível de horror por se passar num futuro com maquinarias, escafandros e viagens no tempo, ela traz o humor sardónico tão reconhecido em João Barreiros, que sempre nos surpreende na forma como ridiculariza os seus próprios heróis.
No fim, fica a sensação que alguns contos destacaram-se dos outros. João Seixas foi o autor que mais me surpreendeu, e o seu conto As sombras sobre Lisboa ganha o ouro como o meu preferido da antologia. Por detrás da Luz de João Barreiros fica em segundo lugar e O elefante e o cavalo de David Soares conquista a terceira posição nas minhas preferências. Estes três contos destacaram-se imenso dos outros, embora os de António de Macedo e Rhys Hughes também tenham-me proporcionado momentos de grande envolvimento. Os restantes ficaram muito aquém, mas atrevo-me a dizer que não por seu próprio demérito, aqueles que destaquei fizeram verdadeiramente a diferença.
Recomendo a quem gostar de Lovecraft, a quem gostar de terror ou simplesmente, a quem quiser passar um bocado com contos de autores, na maioria portugueses.
E mais uma vez, a prova que se podem escrever bons contos em português, mesmo que seja introduzido num tema já muito falado, A Sombra sobre Lisboa recolhe testemunhos de perturbadas personagens que se vêem subitamente envolvidas num mundo lovecraftiano (que tanto aprecio) e que não sabem bem por onde sair... Uma colectânea de boa escrita e de vários autores.
Dar-lhe-ia apenas 2,5 estrelas. Em contraste com duas ou três boas histórias, contam-se todas as outras que são, ora falhadas, ora alvo de excesso de adjectivação e da própria bajulação com que certos autores pintaram as suas histórias.