“Tal enunciado é fato ou ficção, original ou cópia? Quem é agente e quem é paciente, ação e reação? Tal comportamento é espontâneo ou manipulado, público ou privado? A intenção dessa pessoa é autêntica ou espúria? Em quem posso confiar?” Em um mundo onde a internet se tornou massivamente disseminada, tornando-se a principal arena de comunicação política em diversos países, essas perguntas que fazemos no dia a dia são indícios da ascensão de processos como populismo, pós-verdade, negacionismo e conspiracionismos. A antropóloga Letícia Cesarino oferece aqui uma perspectiva inovadora para ler esses fenômenos, comumente explicados por causas políticas, econômicas ou conjunturais. Uma nova leitura da cibernética de Bateson permite ver esses processos em sua dimensão técnica, como um sistema que funciona por dinâmicas de estabilização, crises, inversões, polarizações e novas reorganizações, demonstrando a complexidade por trás da recente digitalização da política e da verdade.
Um dos livros mais interessantes para uma leitura da crise contemporânea e sua faceta mais urgente por aqui: o bolsonarismo golpista e negacionista.
Uma abordagem valiosa sobre a crise civilizatória que experimentamos. Crise que pode ser resumida no lugar, agora central, que ideias e práticas tipicamente marginais (no sentido de estarem à margem da sociedade) passaram a ocupar e os efeitos disruptivos dessa mudança de posição. Crise do sistema de peritos, de instituições, da Ciência, da democracia liberal. O movimento que arranca esses discursos (bolsonarismo, negacionismo, os antivax, 'tratamento precoce' etc) das margens da sociedade e os reinsere no centro é, em larga medida propiciado pela plataformização da internet, cujos algoritmos reforçam um modelo de bifurcação da sociedade (amigo-inimigo), que muda as condições de apropriação dos conteúdos. Na verdade, os conteúdos importam cada vez menos em relação à forma como são apresentados/consumidos.
A hipótese cibernética defendia pela autora garante que não se fale de causalidades lineares (isso causa aquilo), mas que todos os processos observados no livro sejam entendidos em uma perspectiva sistêmica que permite observar causalidades circulares, isto é, não são os algoritmos das redes sociais que causam esse abalo na estrutura das democracias liberais, é no encontro desses algoritmos com modelo de negócios, tendências inerentes à cognição humana (mamífera, aliás), transformações do neoliberalismo entre outras contingências que se formam Feedbacks positivos fundamentais para entender o comportamento de sistemas distantes do equilíbrio.
Na primeira parte são apresentados os principais conceitos e fundamentos que serão costurados na parte II. Assim, veremos algumas ideias de Gregory Bateson, etologia e teoria do Caos incorporados. A representação do atrator de Rössler é poderosa, mas fica ainda o desejo de ver essa associação melhor desenvolvida. É aqui que as ideias de dupla torção (mímese e mímese inversa), colapso de contexto, englobamento do contrário e outras são apresentadas. Também aqui os aspectos técnicos das infraestruturas digitais ('plataformas sociais'), suas affordances cognitivas e políticas desenhadas.
Na segunda parte vemos os conceitos aplicados a casos mais específicos, facetas da crise: na política (populismo); nas ciências (alt-science).
O livro criou condições para que pudesse entender parte do incômodo de me ver posicionado agora do lado mais conservador. Não porque queira a manutenção do status quo, mas porque a alternativa antiestrutural que se apresenta é um espelho invertido do que gostaria de aprofundar. A dupla torção (mímese inversa) é chave para entender como o óbvio ficou de cabeça para baixo e como se pode, por exemplo, acreditar estar defendendo a liberdade pedindo golpe militar.
Fui atrás de adquirir o livro da Leticia Cesarino porque já havia lido alguns artigos acadêmicos de sua autoria e gostado bastante dos insights e teorias que ela havia usado neles. Por outro lado, achei o texto dos artigos denso e de difícil absorção. O tema que Leticia aborda neste livro, O mundo do avesso, tem respaldo em diversas das suas pesquisas na área da antropologia, embora ela não use somente aportes desta área para cerzir sua análise. Achei bastante curioso que nos dois primeiros capítulos deste livro a autora se utiliza de diversas direções de conhecimentos para desenvolver uma teoria sistêmica que poderia ter buscado em um só lugar: na Semiótica da Cultura de Iuri Lotman. Também, em um livro que pretende se voltar para as redes sociais, achei que encontraria muitos autores da área da comunicação. A impressão que dá é que a autora preferiu evitar se aprofundar nessa área do conhecimento. Dito isso, acredito que os artigos com linguagem densa produzidos por Cesarino me auxiliaram mais na minha pesquisa do que este livro inteiro com linguagem mais acessível.
Um livro denso, por vezes difícil, mas um tanto importante para o momento atual. Acompanho os trabalhos de Letícia já faz um tempo e esse livro só reforçou a minha admiração por ela como pesquisadora.