Não tem outra forma de começar essa resenha sem dizer que subestimei esse livro, até porque a escrita não me conquistou logo de cara e, por isso, comecei a ler e parei por alguns meses antes de voltar novamente. Fico feliz de ter continuado, porque nem sempre as primeiras impressões estão certas e foi o caso de Boas Maneiras, pois, a história foi se lapidando na minha frente, como um diamante uma vez bruto. Preciso falar, antes, que todos os personagens são extremamente bem construídos, até os secundários. Todos eles tem a personalidade bem marcante e dá pra reconhecer de longe. Também amei que a descrição de aparência ou do local não é exaustiva, não fica parecendo uma ficha de rpg ou o manual de instruções, é feita naturalmente e nós conseguimos imaginar bem o cenário sem ficar enfadonho.
A cidade fictícia, a cantora fictícia e toda a narrativa são extremamente especiais, pois, foram pensadas nos mínimos detalhes. Fiquei impressionada com a destreza da autora para fazer com que o leitor mergulhasse na história e conseguisse ter uma imagem perfeita de uma cidade e uma personagem - que não participa do livro de forma muito direta - que sequer existem. Ela tem uma habilidade natural de colocar a imaginação no papel, que falta em muitos escritores modernos. Muitas vezes me sentia em São Palomene e imaginava Liz Salles como um ícone da música brasileira real, assim como Maria Gadu e Rita Lee. Confesso que até pesquisei no google para descobrir se ela existiu mesmo (sim, sou meio burrinha). As músicas, assim como os nomes e inícios do capítulo são a cereja do bolo e a aparição dela no final, no pedido de namoro de Clarissa, me fez chorar um pouquinho.
Ainda há muita coisa para dizer, mas preciso pontuar algo chave que também me deixou muito impressionada: a descrição da enchente me pegou de surpresa. Até então, nós sabíamos que o problema existia, pois, nos foi apresentado diversas vezes durante a narração, mas, não foi algo que ficou apenas no ar como pano de fundo da história - nossos protagonistas sofreram na pele com as consequências da má gestão do prefeito e aquele foi um clímax que me deixou bem tensa, como deveria ser. Aconteceu no tempo certo e retratado com destreza e perfeição.
Sobre Clarissa e Ária: o relacionamento, de inimigas para namoradas, cresceu de forma natural, sem forçar química e sem ser muito rápido. Adorei, mais uma vez, a leveza e o cuidado na hora de transformar o ódio em amor. Se tem algo que descreve a escrita de Englantine, é a palavra sutileza. Ela sabe muito bem como tornar tudo delicado.
A aparição da Era de Heras, por sua vez, foi inesperado, e eu amei cada segundo. Mas sou suspeita para falar, já que bandas femininas tem o meu coração. Majuri, inclusive, é uma das minhas personagens favoritas - juntamente com Vini - e eu adoraria ler um livro focado apenas nela (alô, Tine??). E, em relação aos outros personagens, me apaixonei por Vini (até torci para ele ter uma namoradinha no final, mas as amizades que fez também servem) e até a insuportável da Lilian ou a burguesa Natália tinham seus charmes.
Para finalizar, me identifiquei muito com a Ária e aposto que ela é de leão, modéstia à parte. Estava tão acostumada com protagonistas sem sal, que a personalidade forte e determinada de Ária me atraiu demais. Tinha um verdadeiro star quality.
Então, por que 4 estrelas? Acho que tinham muitas referências à cultura pop, termos em inglês e memes atuais. Não tem nada de errado nisso, é só questão de gosto pessoal, mesmo, porém, tenho a sensação de que um livro com muitas referências tem uma facilidade de envelhecer muito mal, porque os memes tem prazo de validade no mundo de hoje.
Entretanto, Boas Maneiras é um livro fofo, leve, que trata assuntos sérios como racismo e homofobia com leveza (e não deixa isso definir a vida dos personagens) e é um ótimo passa tempo. Não gosto muito de livros Y/A, mas esse me cativou e eu definitivamente recomendaria para todos, desde pessoas mais velhas até adolescentes. No mais, estou ansiosa para ler outras histórias da Englantine.