Em Die (a forma singular de Dice), Kieron Gillen e Stephanie Hans criaram uma obra-prima que combina fantasia sombria, trauma adolescente e uma homenagem épica ao mundo dos RPGs.
Em 1991, seis adolescentes desaparecem misteriosamente durante um jogo de RPG. Dois anos depois, apenas cinco regressam, marcados por segredos obscuros e cicatrizes, tanto físicas como emocionais, que nunca chegam a sarar. Agora, 25 anos mais tarde, atormentados pelos fantasmas do passado, decidem regressar ao mundo de Die: um universo sombrio e fascinante, inspirado na literatura fantástica anglófona e encapsulado num icosaedro, um dado de 20 lados.
Gillen constrói um enredo que é uma verdadeira carta de amor aos RPGs, explorando as suas raízes históricas. Desde os tabuleiros do século XIX, passando pelas influências literárias de Tolkien, H.G. Wells e Lovecraft, pelo Dungeons & Dragons (D&D) e chegando aos jogos de consola da atualidade. As alusões às irmãs Brontë são um toque brilhante e genuinamente inesperado, especialmente porque desconhecia por completo os mundos imaginários criados por Charlotte e Emily na infância, Angria e Gandol, dos quais apenas sobreviveram alguns poemas.
E depois, há a arte. A arte de Stephanie Hans é simplesmente deslumbrante. Cada página é uma pintura de tirar o fôlego, repleta de emoções intensas e detalhes arrebatadores, digna de ser emoldurada.
Outro aspeto fascinante é a alegoria queer que permeia a obra. Gillen, que já nos brindou com inúmeros personagens LGBTQ+ no seu repertório, explora aqui a identidade de género de forma inicialmente subtil, mas que culmina num final profundamente emocional e poderoso.
Die relembrou-me a importância dos jogos e das histórias: porque nos envolvemos tão profundamente nelas, como podem moldar quem somos e como nos oferecem um refúgio nos momentos em que mais precisamos. Acima de tudo, é uma história sobre aceitação pessoal e perdão, tanto para os outros como para as versões passadas de nós mesmos, aquelas que, embora distantes, permanecem inescapavelmente parte de quem somos.