Mikhail Bakhtin atrai não só pela riqueza de informações que delineia um retrato biográfico e uma mise au point histórica de uma figura até há pouco envolta nos mistérios do dogmatismo ideológico político e dos desterros estalinistas, como pela revelação na obra de Bakhtin de uma raiz e um embasamento filosófico que vão além da semiótica antropológica, sociológica, lingüística e estética com que se configurava o dialogismo bakhtiniano.
Katerina Clark is B. E. Bensinger Professor of Comparative Literature and Slavic Languages and Literatures at Yale University. Her books include Moscow, the Fourth Rome; Petersburg: Crucible of Cultural Revolution; and, with Michael Holquist, Mikhail Bakhtin.
more a biography than anything else, used to advance holquist's ideas from the Dialogism Bakhtin and His World, which autobiographical criticism is not entirely consistent with holquist's argument therein.
Embora seu início seja algo maçante, esta biografia intelectual de Mikhail Bakhtin, escrita por Katerina Clark e Michael Holquist, revela-se, ao final, uma leitura bastante gratificante. É possível aprender um bocado com eles. Talvez por não ser especialista em história cultural soviética, ou mesmo em teoria da literatura, mas o fato é que, se não é indispensável, o livro de Clark e Holquist presenteia o leitor com questões interessantes. Li-o com o fito de preparar melhor minha aula sobre Burckhardt e Bakhtin do curso de Historiografia Contemporânea da graduação à distância de minha universidade. A primeira delas diz respeito ao próprio fascínio de Bakhtin por Dostoiévski, fascínio muito bem descrito pelos autores. Ressalte-se que Bakhtin conseguiu mostrar que, por detrás do eslavófilo comunitário escritor residia alguém que era, acima de tudo, um grande individualista. E um individualista no melhor sentido da palavra, ou seja, alguém que vê, na leitura do texto, uma experiência de indefinição. Por se saber indefinido, por saber que não há autenticidade e que ser humano é estar em desacordo consigo mesmo, não se pode aceitar definições delegadas por terceiros. Mas isto se lê melhor no próprio livro de Bakthin sobre Dostoiévski. O interessante é ver o comentário dos autores sobre o fato de Bakhtin ter visto, em Dostoiveksi, um autor que fez a revolução copernicana na literatura, ao tirar o autor do romance do centro (p.263), algo que pode me ajudar tremendamente a desenvolver meu insight dado a partir do texto de Freud sobre as feridas narcísicas. De alguma maneira, para que se verifique a ferida narcísica na historiografia, não teria o autor que sair do centro, ao invés do fato, ou do processo histórico? Neste sentido, Gógol é, mais uma vez, precursor de Dostoíevski. O “Diário de um Louco” não deixa de ser um prenúncio para tais problemas. Enfim: sai de cena o discurso monológico, mas, em seu lugar, não entra o discurso da psicologia do leitor (algo que seria feito mais pelos formalistas), mas uma tríade formada pelo autor, pelo texto e por sua recepção. A propósito dos formalistas, foi ótimo ver também a inserção contextual deles. De alguma maneira, os jdanovistas, os formalistas e Bakhtin formam a tríade que o próprio crítico vê nas teorias das obras literárias. Fundamental também foi descobrir que em Bakhtin surge, pela primeira vez, a palavra cronótopo, que hoje todos acham que é invenção do Gumbrecht e do Hartog. Não é. É do Bakthin. Enfim, um livro correto, erudito, interessante. Valeu.