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Mudança

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"Só. De fora, vinham remotos ruídos, como a vibração da franja de um sonho ou de febre. Na ponta do seu olhar cansado uma esfera. Homens de face torva abriam navalhas no escuro das algibeiras. Homens desvairados estoiravam no breve instante. Punhais, risos, sonhos, olhos de esperança e de lágrimas, ódio, amor - tudo rolava, largamente, para o silêncio sem tempo. Havia um mistério sombrio num destino assim. Os homens sonhavam-se deuses, porque só um signo de eternidade lhes justificava um passo, uma ideia. Cobertos de ignomínia, de punhos sangrentos, tinham sempre um brado para a distância ilimitada, um sonho que lhes aureolasse a lepra e o sangue. A morte vinha e cortava-os justamente pelo limite do seu brado."

235 pages, Paperback

First published January 1, 1949

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About the author

Vergílio Ferreira

65 books307 followers
VERGÍLIO FERREIRA nasceu em Gouveia, a 28 de Janeiro de 1916. Seminarista no Fundão, licenciou-se depois em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e foi prof. liceal em Faro, Bragança, Évora e Lisboa (desde 1959). Ficcionista e pensador, estreou-se com o romance O Caminho Fica Longe (1943) e o ensaio Sobre o Humanismo de Eça de Queirós (1943). Escritor dos mais representativos das letras portuguesas da segunda metade do séc. XX, a sua vivência fechou-se no labirinto do existencialismo sartreano. Entre as suas obras destacam-se: Manhã Submersa (1954), adaptado ao cinema por Lauro António e vencedor do Prémio Femina para o melhor livro traduzido em França em 1990, Aparição (1959, Prémio Camilo Castelo Branco), Cântico Final (1960), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa da Imprensa), Nítido Nulo (1971), Rápida a Sombra (1974), Signo Sinal (1979), Para Sempre (1983, Prémio Literário Município de Lisboa), Espaço do Invisível (1965-87), em quatro vols., Até ao Fim (1987, Grande Prémio de Novela e Romance da APE), Em Nome da Terra (1990), Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance da APE). De assinalar são também o diário publicado a partir de 1981 (Conta Corrente) e o vol. de ensaios Arte Tempo (1988). Em 1991 ganha o Prémio Europália, pelo conjunto da sua obra, e em 1992 é-lhe atribuído o Prémio Camões. Foi condecorado pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1979 e, em 1985, foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura. Faleceu em Lisboa, a 1 de Março de 1996.

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for Luís.
2,387 reviews1,382 followers
September 24, 2021
"Mudança" - a prophetic title like all those that fit the hour they designate - is a book that opens the way through its construction, a path that is the rupture or, in any case, distrust of the excessively bright light that bathed then our romanesque universe. He opened the doors of his author to ever more lonely and exalting places, as he opened the widening crevice never again healed, to our consolation, in the literature of early evidence, with little place for the united presence of the insufferable and inevitable. Thus, in a somewhat simplistic but significant way, was seen in this novel the passage from the neo-realist atmosphere, rarefied by the ideological obsession, to the existentialist literary adventure, rediscovering in the centre of each man an absence without cure and name. To speak of anguish would be to stay still from the lack that dampens us and sends us back to nothingness.

For those who closely follow the itinerary of Vergílio Ferreira, this increasingly important assumption of ambiguity, as the essence of the human situation and as the fatality of writing that aims at it without ever being able to fix it as it would wish, is not as surprising as it may seem. It has been little noticed, to some extent, that Vergílio Ferreira's unfamiliar démarche is or appears to be that of the pure poet, in short, to the supreme vocation that subordinates the real to the imperious will of the language that transfigures it.
(..)
The ideological plot of Mudança, for the most present it appears to us, comes, at last, with its authentic profile. It is now only almost foam in the flower of the dazzling and gloomy wave of Existence. The unique and obsessive character of Mudança, as the Camonian epigraph of the novel underlines it, is Time, that Death itself is abusive solidification. It was, therefore, with just intuition but a rather timid audacity that the empirical character of Change singled out as one of its particularities.
Profile Image for Isabel.
102 reviews23 followers
August 10, 2020
"Vamos na vida como um automóvel na noite. O que importa em cada momento é o que é batido nos faróis. Sei o que está até ao extremo do facho. Para lá, ignoro."


Duzentas e poucas páginas em que, através do quotidiano das suas personagens, Vergílio Ferreira fala-nos de (quase) todas as formas de mudança: a solidão, as dívidas, o amor, e sobretudo, a morte. Ultimamente ando com uma certa obsessão pela ideia da morte. Às vezes é medo, outras vezes é admiração. Chega mesmo a ser curiosidade. Por isso me tem dado tanto gosto ler Vergílio Ferreira: em cada página vejo morte e através dela - vida. O autor está constantemente a falar na morte. Porque só enfrentando a morte se consegue valorizar a vida. Tudo neste livro é morte - a morte física, a morte de momentos, a morte de relações, de património, de sentimentos. A morte é a protagonista. Como não poderia deixar de ser num livro chamado "Mudança".


"E como isto é ridículo dito assim, mecanicamente, como se eu próprio o não tivesse reinventado desde o sangue. Mas pouco importa. Sei é que a tua vida é tua, ficará marcada com o que fizeres. Enquanto vives podes lá julgar-te, vendo-te do tempo em que já estiveres morto. Podes desprezar o julgamento dos outros, quando estiveres morto, precisamente porque estás morto. Mas não sei como vais desprezar o teu juízo sobre ti, para depois de morto, agora enquanto estás vivo."

Esta ideia não me sai da cabeça: no fundo o que dizia o Ivan Ilitch, do Tolstói, "E se tudo o que fiz foi errado?". Vergílio repete-o. Na hora da morte, naqueles últimos segundos, e se tudo o que fiz estava errado? Conseguiremos nós lidar com o fracasso do nosso ser nos momentos próximos da morte? E o que é fracasso?

É esta constante procura de ser mais e melhor que me leva a ler mais Vergílio, pois enquanto descubro o que ele ia descobrindo da vida, eu vou sabendo mais sobre a minha, para que este desespero de não saber como será a hora da minha morte se torne mais suportável até lá chegar.
Profile Image for André.
114 reviews75 followers
January 19, 2019
Qualquer tentativa de tecer um elogio justo à grandiosidade de Vergílio Ferreira resultaria falhada. Se Manhã Submersa me plantou no íntimo uma semente de admiração pela sua notória habilidade discursiva, Mudança fê-la brotar sob a forma do mais profundo e desesperado fascínio. Não tenho como pô-lo de outra forma: é fascinado que me sinto por este mundo donde tento agora emergir, amarrado ainda ao apelo da sua irresistível e assombrosa espontaneidade, do seu tão sublime, ainda que inquietante, despojamento.

Mudança é, como o título sugere, um livro de confrontos. Cada fim é um começo, cada ínfima acção um meio para um novo fim. As intelectualidades contrapõem-se ao sentido prático da vida, o existencialismo esbarra na parede dura do realismo, o absoluto quer-se, aos olhos de alguém, achado no relativo, o casamento debate-se para não ser engolido pelo orgulho. Pensar ou agir? Procurar uma verdade definitiva ou aceitá-la como irremediavelmente temporária? A força de uma ideia ou a sua manifesta utilidade? O amor ou a vida, e «que vida?»

– Não me custa, hoje e neste quarto parado, confessar que não vim no meu tempo. As injustiças humanas doem-me. Mas não tenho coragem de trabalhar para remediá-las, precisamente porque não renuncio ao prazer de me comover com elas, o que é um prazer egoísta. Eu devia ter nascido no tempo em que esses problemas se tratavam numa lira e de lágrima no olho – disse Rui.

Pois, digo-vos: é um livro extraordinário. Pequeno por fora, decerto, mas de uma densidade interior que não se pode medir em palavras. Soubesse eu a minha compreensão escondida na minha própria língua e nunca teria procurado tanto ao redor. Afinal, estava tudo aqui. E que maravilhosa sensação de descoberta, esta!
Profile Image for Raquel.
166 reviews51 followers
September 23, 2014
Cada vez me apaixono mais por Vergílio Ferreira. Li ontem algo sobre a escrita ser o espelho da alma de um autor, ainda que esta possa estar fragmentada, como as diversas 'personalidades' de Fernando Pessoa. Vergílio Ferreira também tem esse hibridismo fascinante - e este 'Mudança' representa o maior espelho desta ambiguidade, entre o neorealismo da sua primeira fase literária e um pensamento algo existencialista que começa a adoptar nos seus 30 anos. Como marco desta mudança muito própria, é um romance maravilhoso!

Crítica em
http://leiturasmarginais.blogspot.pt/...
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