"Como é que certos tipos têm belas frases à hora da morte? O «tudo está bem» de Kant, ou o «mais luz» de Goethe, ou o «amanhã o que virá» de Pessoa, ou até mesmo, à maneira de Sócrates, o «levem daqui as mulheres» de Herculano? À hora da morte devia-se era estar calado. E à medida que se lá vai chegando, era o que se devia apetecer. E daí que talvez o não se perder a fala, mesmo em lamúria, é o sinal que resta de que ainda se está vivo. Mas se a coisa é a doer, fica-se quieto e calado, à espera. A grande verdade da vida é a morte. E um morto está sossegado. Como é que certos tipos à hora da morte têm o desplante de ter frases?"
VERGÍLIO FERREIRA nasceu em Gouveia, a 28 de Janeiro de 1916. Seminarista no Fundão, licenciou-se depois em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e foi prof. liceal em Faro, Bragança, Évora e Lisboa (desde 1959). Ficcionista e pensador, estreou-se com o romance O Caminho Fica Longe (1943) e o ensaio Sobre o Humanismo de Eça de Queirós (1943). Escritor dos mais representativos das letras portuguesas da segunda metade do séc. XX, a sua vivência fechou-se no labirinto do existencialismo sartreano. Entre as suas obras destacam-se: Manhã Submersa (1954), adaptado ao cinema por Lauro António e vencedor do Prémio Femina para o melhor livro traduzido em França em 1990, Aparição (1959, Prémio Camilo Castelo Branco), Cântico Final (1960), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa da Imprensa), Nítido Nulo (1971), Rápida a Sombra (1974), Signo Sinal (1979), Para Sempre (1983, Prémio Literário Município de Lisboa), Espaço do Invisível (1965-87), em quatro vols., Até ao Fim (1987, Grande Prémio de Novela e Romance da APE), Em Nome da Terra (1990), Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance da APE). De assinalar são também o diário publicado a partir de 1981 (Conta Corrente) e o vol. de ensaios Arte Tempo (1988). Em 1991 ganha o Prémio Europália, pelo conjunto da sua obra, e em 1992 é-lhe atribuído o Prémio Camões. Foi condecorado pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1979 e, em 1985, foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura. Faleceu em Lisboa, a 1 de Março de 1996.
In the succession of any explanations, the limit is in the unthinkable. It refers to all thinking and feeling of an era, however different they may be in manifestation and all opposition. Because to say yes or no to whatever it is meant to consider its positiveness. Who says yes or no to witches? But if thought implies feeling, art is the herald of the unthinkable or the place where the face is seen, as the philosopher who explains it to her in theory. Art inscribes in man's heart what life has revealed to him without him knowing how, and the philosopher transposes the news to the brain in the obsessive and sweet mania of wanting to be correct. And it is because he realized this that the philosopher generically ceased to "demonstrate" or "explain" to affirm (Nietzsche). Or make truth nomadic as luck would have it (Deleuze) or make it a game of language (Nietzsche still, Wittgenstein, logical positivists ). Or a questioning of the questioning (M. Meyer), merely saying "goodbye to reason" (Feyerabend), or only saying that philosophy is "dead" (Heidegger).
"Entre uma infinidade de hipóteses de não teres nascido, saiu-te a sorte de teres nascido. Se te tivesse saído a «sorte grande», haveria gente que se admiraria de isso te ter acontecido. Tu mesmo dirias talvez que parecia um «sonho», que era inacreditável, que ainda não tinhas caído em ti do assombro. Mas essa sorte foi a de um número entre dezenas de milhares ou mesmo centenas. Mas teres nascido é ter-te saído a sorte entre biliões e biliões e biliões de hipóteses negativas. Saiu-te o número inscrito numa areia do universo. Tens pois o privilégio incrível de veres o Sol, as flores, os animais. De ouvires as aves e o vento. De. E todavia, como esqueces isso tão facilmente. Breve tudo se te apagará em silêncio. Breve a oportunidade de estares vivo cessou. Provavelmente ninguém mais saberá que exististe. E mesmo dos que o souberem, não se saberá um dia. Num momento não muito longínquo morrerá o último homem sobre a face da Terra. Esse é, aliás, o momento da tua própria morte, porque tu és o primeiro e o último homem que nasceu. Tudo é rápido e contingente e miraculoso. Tudo é rápido e sem consequências. A única consequência és tu e a vida que viveres. Não a desperdices. Não inutilizes a fabulosa sorte que te calhou. Vê. Ouve. Pára, escuta e olha, que a morte vai passar. E terás cumprido ao menos, para com o universo, um pouco do teu dever de gratidão."
Nunca um título esteve tão correcto. Foi talvez dos livros que mais me fez pensar - sobre a vida, morte, relações, política, história, filosofia, literatura, o mundo. Típico de Vergílio Ferreira escrever um livro que se nos apresenta como um romance-problema. De uma forma muito simples este é um livro que se respira e que se pensa em cada fragmento pensado pelo autor. Apesar de não concordar sempre com as visões dele, gostei especialmente da "metafísica racional e pragmática" que existe ao longo do livro. Excelente. Brilhante.
"Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se -, porque temes então a morte, se já estás morto?"
Sinto-me privilegiado por ter tido a oportunidade de ler alguns dos pensamentos de um dos grandes autores Portugueses.
O que mais mexeu comigo foi a ideia (várias vezes transmitida) de que há perguntas que não têm necessariamente de ter resposta: tal como o porquê de existirmos - não bastará existirmos e aproveitarmos a vida, estando gratos por isso mesmo?
Para abrir o apetite, deixo aqui um excerto bastante especial: "Vivemos no tempo do fragmento. Nada é inteiro, consciente, estruturado nos seus elementos. Nada dá de si uma garantia no suporte do que lhe aguente a segurança. Nada tem razão de ser. Um vento de desolação tudo arrancou, ficaram os restos dispersos do seu passar. E temos imensa pressa para irmos onde não sabemos, para virmos de novo a donde não tínhamos partido, não podemos perder tempo como quem o perdeu para nos realizar uma obra. Comemos ao balcão do nosso frenesim, corremos no alvoroço do nosso ser em febre, dormimos nos intervalos de estar sentado no autocarro da nossa velocidade. E lemos então no intervalo de dormir. Mas toda a nossa vida é feita de farrapos, de bocados, de duas sandes comidas no snack. Ou lemos durante, para mais depressa. Não lemos por inteiro, não pensamos por inteiro, não somos em nada tudo. Assim em tudo nos falta o que não houve tempo de sermos e isso que nos falta é que era tudo. Assim nem a morte nos será inteira pelo muito que não vivemos e que portanto não podemos morrer. Vale-nos que o coveiro o não saiba. E que morramos de todo para ele."
“As religiões respondem ao que não tem resposta nenhuma. Mas a necessidade de responder implica- -se na necessidade de perguntar. Assim se prefere uma resposta que nada responda, ao nada responder. É o método já provado com as respostas às crianças, quando crianças por inteiro, e que é de utilizar quando elas são a nossa fracção até à morte. Se uma criança pergunta “o que é “, não é decente responder-lhe “cala-te” ou “ são línguas de perguntador “. Porque é talvez mais humano dizer- -lhe com doçura uma mentira, se a pergunta é de mais. Mas não sejas em adulto a doçura e a mentira com a criança que ficou em ti. E nem a mandes calar. Dá apenas à criança que em ti ficou a resposta do adulto que já és. Mesmo que digas não sei.”
"134. Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima." (p.90)
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"279. Aproveita a vida enquanto ela é vida dentro de ti. Aproveita o teu corpo enquanto és tu que lá moras. Aproveita. Primeiro tens mais espírito do que corpo e há dentro de ti uma convulsão de ideias, uma agitação insofrida de projectos, resoluções, descobertas. Depois a convulsão abranda e começas a viver das ideias amealhadas. Depois, pouco a pouco, vais perdendo essas ideias ou vai-las esquecendo no sótão de ti. Depois resta só uma ou duas com que te vais governando. E por fim ficará ó com a carcaça do teu corpo, sem interior nenhum, e que as leis municipais estão à espera que se despache para atirarem à fossa. Aproveita o teu corpo enquanto estás dentro dele. Aproveita enquanto estás." (p.159-160)
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"552. Uma estrela espera-te desde toda a eternidade. Procura-a. E vê se a não perdes depois para durante a vida inteira, se acaso é possível encontrá-la.
553. Mas a tua estrela pode não estar no céu. Põe-na lá." (p.267-268)
Um quatro bem redondo. Vergílio Ferreira apresenta-nos pensamentos radicais sobre a vida e sobre a existência. Ficaram gravadas frases como "Só a distância nos garante que não cheirem mal da boca.". Em Pensar, Vergílio faz-nos, precisamente, pensar. De várias formas. Em vários mundos.
A verdade é amor — escrevi um dia. Porque toda a relação com o mundo se funda na sensibilidade, como se aprendeu na infância e não mais se pôde esquecer. É esse equilíbrio interno que diz ao pintor que tal azul ou vermelho estão certos na composição de um quadro. É o mesmo equilíbrio indizível que ao filósofo impõe a verdade para a sua filosofia. Porque a filosofia é um excesso da arte. Ela acrescenta em razões ou explicações o que lhe impôs esse equilíbrio, resolvido noutros num poema, num quadro ou noutra forma de se ser artista. Assim o que exprime o nosso equilíbrio interior, gerado no impensável ou impensado de nós, é um sentimento estético, um modo de sermos em sensibilidade, antes de o sermos em. razão ou mesmo em inteligência. Porque só se entende o que se entende connosco, ou seja, como no amor, quando se está «feito um para o outro». Só entra em harmonia connosco o que o nosso equilíbrio consente. E só o consente, se o amar. Porque mesmo a verdade dos outros — a política, por exemplo — se temos improvavelmente de a reconhecer, reconhecemo-la talvez no ódio, que é a outra face do amor e se organiza ainda na sensibilidade".