Nome de Guerra
Nome, cada um tem o seu.
Guerra é todo o sentimento que o humano trava consigo próprio, numa busca incessante de se encontrar e de encontrar o seu lugar no mundo.
“Todos quantos intervém na vida dos outros, quer seja em seu favor ou contra, são afinal de uma cobardia que escapa à observação dos mais atentos. Cobardes por duas razões: a primeira, por serem incapazes de se reconhecer e darem a conhecer o seu próprio caos pessoal para a aceitação geral; a segunda, porque ao intervirem na vida dos outros, quer seja em seu favor ou contra, são também incapazes de abnegar da sua própria pessoa. Se alguém decide da sua vida para servir os outros e não renuncia a si mesmo, em que poderá então ser equânime e admirável, justo e elucidativo? Respeitemos os que a tanto se afoitaram e se decidiram, mas desprezemos os que fingem.
A condição para saber ver ao longe é, estarmos dentro de nós se se trata do próprio, ou de ter renunciado a si mesmo se se trata dos outros.” (p. 225)
Este romance escrito em 1925, por José Almada Negreiros, retrata a história de um homem trintão, culto, provinciano, rico, fruto de uma educação demasiado rígida, demasiado mimado e demasiado protegido. Antunes, decide vir para Lisboa, aconselhado pela família, afim de se encontrar e de encontrar o seu lugar no mundo. Conhece Judite (nome falso), uma jovem de 19 anos, a quem a vida nada fora simpática, com ascendentes pobres, maltratada pela sociedade, sem instrução, mas com um porte escultural e bonita. Sobrevive com o dinheiro que recebe dos homens pelos seus serviços. Criatura afável mas com grande conhecimento de si própria e dos outros, sabe bem o que quer da vida: Viver!. Judite dorme de dia e vive à noite, nos clubes noturnos.
Por “divertimento” de um amigo do pai de Antunes, e no final de uma noite de copofonia, trancaram Judite e Antunes, no quarto de hotel, mas "Entre ele e a mulher nua a sua educação punha uma distância que não era destruída pelo desejo da carne. A sua educação obriga-o a uma posição vertical, com os braços bem junto do corpo, a cabeça direita e os olhos em frente, para ser um homem diferente de um animal! O Antunes via que a sua educação e a realidade estavam em guerra. A realidade, por ironia tinha posto uma mulher nua nos braços da sua educação." Se para o homem foi embaraçoso para Judite foi novidade tal procedimento, de forma que, ao sentir admiração por ele e sabendo-o rico, pensara nele como um passaporte para uma vida mais afortunada. Antunes e Judite foram morar juntos.
Esta história, é igual a muitas outras, que versam sobre a temática do amor entre duas personagens de níveis sociais diferentes, gostos diferentes e vivências diferentes, dá-nos a entender que cada macaco deve estar no seu galho, quem teve a pouca sorte de nascer num meio miserável continuará a ser miserável, quem nasceu num meio abastado permanecerá nesse meio. O ser humano é fruto do seu meio sociocultural e alterar esse meio é por em causa tudo aquilo que nós somos e de onde provimos. Antunes entrou na vida de Judite para se encontrar, anulou-se a si próprio para chegar a ela e sentiu-se infeliz, Judite quis mudar-se a si própria para conquistar Antunes, mas não o conseguia compreender.
Moral da história:
Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar.