9 extraordinarios cuentos muy bien contados, con el dominio pleno de la lengua portuguesa. Jorge de Sena, un excelente escritor portugués que debería de ser más conocido. Le hubiera dado el Nobel sin ninguna discusión. Esta colección de cuentos que evocan inevitablemente la realidad portuguesa, de ese Portugal todavía confinado a una dictadura castradora.6ª
Jorge de Sena is one of the most important Portuguese poets of the second half of the 20th century, but he was also an outstanding essayist, a fiction writer of indubitable talent, a significant playwright and a tireless translator of the poetry and prose of writers from a variety of languages and periods. His published works extend to more than a hundred titles. It is difficult to understand how a single person could accomplish so much in one lifetime, and not a long one at that, especially if we consider that he worked under the demands of a professional life and raised nine children. In 1959, fearing that he would be persecuted for his involvement in a failed coup attempt against the dictatorship of Salazar, Sena went into exile in Brazil, and later adopted Brazilian nationality. There he added a doctorate in the humanities to his degree in civil engineering. In 1965 he left Brazil with his large family for the United States, where he remained until his death. There is a Portuguese Studies Center named after him at the University of California at Santa Barbara, where he held his last teaching post.
The innovative character and the excellence of his vast body of work are broadly recognized today, but this was not always the case. Sena himself believed that he was under-appreciated in Portugal and, from the vantage of his American exile, he took his revenge in a series of acid attacks against the mediocrity and provincialism of the Portuguese cultural scene. It is no wonder that his poetry provoked a certain resistance. Though he was a ferociously critical poet, he would nevertheless dispense with the primer of social realism, and occasionally display the outer signs of surrealism. However, he was much too cerebral to submit himself to the dictates of the unconscious, or to practice automatic writing. And though he would give voice to personal circumstances, his practice as a poet of witness, both of his own life and the world around him, had nothing in common with the subjectivity and the immersion in psychology so typical of the generation of writers grouped around the influential literary magazine Presença, launched in the city of Coimbra in 1927.
With the appearance in Portugal, at the beginning of the 1960s, of a poetry dedicated to creating a new autonomy for poetic language, one which would favor control, prosodic rigor and metaphoric density, it was natural that certain characteristics of Sena’s poetry, such as his frequent use of registers more typical of prose, were seen as symptoms of weak technique. But it is curious to note that what tended to alienate him from the successive poetic currents of his times is exactly what the young and influential Portuguese poets of today find so attractive in him.
As an essayist, Sena is an important reference, both when it comes to Luís de Camões and to Fernando Pessoa. He also wrote a novella, dozens of short stories and one powerful novel, Signs of Fire, which presents at once a fresco of Portuguese society during the period of the Spanish Civil War and a detailed portrait of the education of a poet. He will also be remembered as the translator of hundreds of poems by a variety of poets, and of the novels and plays of such authors as Molière, Lautréamont, Poe, Chestov, Brecht, Faulkner, Hemingway, Graham Greene, Malraux and Eugene O’Neill, among many others.
==As Ites e o Regulamento== (4*) Uma noite de tempestade, pesadelo, sofrimento, na vida de um recruta do curso de oficiais milicianos de Penafiel, atormentado, entorpecido, enevoado, por uma faringite (ou sinutiste, otite ou outra ite qualquer) que termina surpreendentemente, em frente da porta do rígido capitão Carvalho, um adepto feroz do Regulamento.
==Capangala Não Responde== (4*) Durante a guerra colonial em Angola, três soldados ficam isolados na mata, rodeados pelo inimigo. O medo da morte, solta confissões e a agressividade masculina, que leva à provocação machista, de carácter fortemente sexual e homofóbico, e à violência física.
==O Bom Pastor== (3*) Um rapaz de uma família miserável de Gaia, vítima de violência doméstica e abuso sexual pelo padrasto, apresenta-se no quartel do Bom Pastor para o serviço militar. Mas até a tropa lhe é madrasta e, após uma altercação com outros recrutas, magro, débil e esfomeado, dá entrada na enfermaria para ser de seguida desmobilizado sem compaixão.
==Choro de Criança== (5*) Um homem cansado vagueia pela noite da cidade do Porto, escura e húmida, miserável, imunda e fétida. Chegam-lhe os ruídos da noite, propagando-se e ecoando pelas paredes e muros da cidade, nas margens do rio invisível: um choro de criança, um sem-abrigo que se ergue de um monte de trapos, o tchum-tá-tum-tum-tchá de um comboio que passa. Por detrás de um portão entreaberto de ferro enferrujado, ouve os sussurros abafados de duas vozes masculinas e, pouco depois, um homem e um rapaz saem cautelosamente, olhando à volta. O rapaz vê-o e pede-lhe lume… "Choro de Criança" é um admirável conto negro: os sons, os cheiros (os maus-cheiros), a miséria, o lixo, as dores, a sexualidade pulsante e desprovida de sentimento, a impotência, o desespero, são um cenário chocante para o deambular noturno do narrador pelas ruas mais escusas do Porto. O desenlace é, também ele, negro, mas o frescor da manhã que chega e o respirar tranquilo e ritmado do seu companheiro de quarto, acalma e serena o narrador (e o leitor!).
==Boa Noite== (5*) Boa noite é um conto em quatro atos, surpreendente pela sua densidade e pela profundidade da construção do seu personagem principal. No primeiro ato, os devaneios noturnos de um homem no seu quarto de umas águas-furtadas de Lisboa são interrompidos pela chegada do seu colega de quarto (e de divã) com uma prostituta que, estranhando a situação com que se depara, pergunta se está a mais. No segundo, descobrimos que o homem tem 32 anos e é, na verdade, um artista, um intelectual, um surrealista que cita Botto e Breton, que especula sobre as vantagens do sexo entre homens e discute o natural, o vício, a convenção social e a assunção do desejo (“A beleza não existe, e quando existe não dura. A beleza não é mais que o desejo premente que nos sacode… O resto, é literatura.”), tudo para impressionar um jovem e belo rapaz louro de 18 anos, que acaba por conseguir atrair ao seu quarto da mansarda. É outra vez de noite, no terceiro ato, quando o artista se gaba, exagerando, perante os amigos, à volta de uma mesa de café, das suas aventuras com o rapaz louro. Finalmente, no quarto ato, o rapaz, ainda mal refeito da experiência com o surrealista, mas sem conseguir deixar de pensar nele, deixa-se cair num banco da Avenida da Liberdade, onde é abordado por uma prostituta que o arrasta consigo com alguma dificuldade, sem lhe conseguir afastar as dúvidas sobre a natureza da sua sexualidade.
==A Grã-Canária== (4*) Os cadetes acordam nas camaratas, estremunhados, ao som do clarim. O navio vai dar entrada no porto de Las Palmas da Grã-Canária. O comandante quer apresentar-se impecável, em representação de Portugal, face a uma Espanha mergulhada em guerra civil, e na sua voz de falsete ordena: “A ordem é: lavar o navio, lavar as ventas e lavar a roupa.” Bem recebidos pelas autoridades locais, onde se misturam as sotainas negras dos padres e os “Arriba España” franquistas de braço erguido, os oficiais e cadetes são levados para um almoço demorado na encosta da montanha. Ao anoitecer, ainda enjoados do banquete mas por fim livres, procuram alívio para outra sede maior, a do desejo sexual acumulado pela longa travessia marítima. A passagem de Jorge de Sena pela Marinha, de onde foi excluído após uma viagem no navio-escola Sagres, parece ter servido ao autor de inspiração para este conto. As razões para a exclusão nunca foram divulgadas: Mécia de Sena considera que foram de natureza política, enquanto Arnaldo Saraiva indica a falta de destreza física e militar, embora referindo que em Lisboa corriam “boatos” que falavam da suposta homossexualidade do autor. Neste conto, curiosamente, surge relatado um episódio em que o narrador e dois dos seus melhores amigos cadetes são insultados como “paneleiros” e “comunistas”; o autor do insulto será, posteriormente e já a bordo do navio, alvo de violenta agressão pelo Bravo, um dos insultados, que o amarra e viola, só sendo dominado pelos amigos, “arquejante, com espuma nos lábios, de sexo em riste, (…) rugindo ainda entre os dentes cerrados: - Seu leproso, seu filho da puta, quem é que é comunista?”
9 extraordinarios cuentos muy bien contados, con el dominio pleno de la lengua portuguesa. Jorge de Sena, un excelente escritor portugués que debería de ser más conocido. Le hubiera dado el Nobel sin ninguna discusión. Esta colección de cuentos que evocan inevitablemente la realidad portuguesa, de ese Portugal todavía confinado a una dictadura castradora.
Uma colecção de 9 contos, que têm em comum a temática do confronto entre o rigor da vida militar e a perturbação da descoberta sexual, e o facto de serem mais ou menos autobiográficos (num dos prefácios desta edição, Sena tem uma frase notável que diz mais ou menos isto: só conta tudo quem tem pouco para contar). Do ponto de vista estilístico, impressiona a quantidade de recursos que o autor domina e a vocação literária com que o faz: Sena está a escrever literatura, e essa ambição é clara em cada linha. No entanto aborrece-me um pouco uma certa complexidade sintáctica, que já é habitual na poesia de Jorge de Sena; por vezes dá-me a impressão de que Sena complica sem necessidade. Em termos de conteúdo surpreendeu-me a ousadia dos temas e a da linguagem: estes contos foram escritos em princípios dos anos 60, já no Brasil, e referem-se a momentos narrativos que decorrem entre os anos 20 e os anos 50. Não admira, como se lê nos prefácios, que Sena tivesse plena consciência de que os contos de Os Grão-Capitães eram impublicáveis no Portugal de Salazar; não apenas pela crueza dos temas e da linguagem, mas também porque muitos dos contos têm um cunho político mais ou menos explícito, e sobretudo porque o sexo, mesmo nas circunstâncias mais sórdidas, parece ter sempre um elemento de subversão, de perturbação da ordem moral e política.