Publicado em 1969, O Encoberto conta a história de Bonami-rei que se faz passar pelo rei D. Sebastião, com o cognome de O Encoberto ou O Desejado. A história depreende-se em várias críticas a um povo crente, iludido, que não quer ver a realidade e, ao mesmo tempo, a uma falsa nobreza, interesseira, que só pensa em dinheiro. Mas mais. Segundo o relatório da censura, de 1970, “trata-se do desenvolvimento em estilo ‘paródia’ de assunto histórico, com não poucas pinceladas pornográficas, à maneira de ‘Natália Correia’, com alusões ao povo português ou a figuras históricas com expressões de chacota e uma clara intenção de ridicularizar”.
Natália de Oliveira Correia foi uma escritora e poeta portuguesa. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago (Prémio Nobel de Literatura, 1998), Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). Tem uma biblioteca com o seu nome em Lisboa em Carnide.
In the dramaturgical play, the author deliberately opts for the hybridism of the borders between world theatre and representation. This fact will be one of the most prominent marks in work since it not only puts the social at the heart of literary creation but, concomitantly, it expands its social content from literature, transforming the work into a tool for reflecting on the world. Thus, the action is expressive of what goes beyond the stage, contemplating it. This last word will have a double meaning here: the work thinks about what goes beyond the stage while mirroring it.
Mais um da saga dos cursos de inverno da USP, novamente o teatro português de Natália Correia, dessa vez abordando o sebastianismo no século XX. O sebastianismo no conceito da ditadura de Salazar era uma esperança da esquerda de haver um D. Sebastião simbólico que os livraria do fascismo, então obviamente a peça da Natália foi censurada por apresentar o último dos pretensos Sebastião que surgira depois de "morto" e que aqui é igualmente ressuscitado tal como um Jesus messiânico que vai por séculos reiterar sua presença no imaginário popular português. A lenda do sebastianismo começou quando na batalha de Alcaçar Kibir o corpo de D. Sebastião jamais foi encontrado, vindo parar até no Brasil com Antonio Conselheiro. São séculos de um messianismo que Natália Correia utiliza para alegorizar a Portugal dos anos 60, quando o Salazarismo estava em vias de extinção.
SKOOB,Sinopse - O Encoberto - Natália Correia "Esta peça foi escrita sob o pesadume do regime fascista que a proibiu de subir à cena e mesmo de circular em livro. Não logrou porém a interdição impedir que, pelos canais da divulgação clandestina “O Encoberto” fosse ganhando foros de clássico da dramaturgia moderna. Estudantes estrangeiros dedicam-lhe teses e passagens do seu texto epigrafam estudos sebásticos. Em “O Encoberto” a autora desvia-se do enfoque habitual do mito de D. Sebastião, desdenhando a circunscrição histórica que o aperta numa data. O reinado filipino é só uma camada da estrutura dramática que se dilui na intemporalidade do mito de que é apoio antitético. A composição enevoada do mito, configurada na manhã de nevoeiro que será rasgada pela visão reluzente do Salvador é a densidade psicológica de um povo em situação omissa. Nesta se funda a acção da peça, na qual todas as personificações gravitantes de D. Sebastião são fantasmas por alucinante arrastamento. Neste campo de apetência subjectiva do povo português Natália Correia imprimiu uma “actualidade contínua” ao seu Encoberto. Seja qual for a época em que expluda a crise de omissão nacional, esta plasma-se no sonho espectante da vinda do Desejado. Para acalentar a ressurgência do mito estava particularmente destinado este nosso tempo de hecatombe histórica. O afundamento de séculos de vida nacional, acutilada por uma cadeia de desestabilizações, algumas delas visando o colapso da independência nacional, viria repor no horizonte da persistente vocação sebástica a estrela absurda do Rei Fantasma. É de facto impressionante que num texto de resistência à “ocupação fascista” a autora tenha visionado uma situação de fim que viria a produzir-se na sequência de uma revolução conduzida por forças adversas aos imperativos nacionais e na qual dramaticamente se aclimata a fisionomia que imprimiu a D. Sebastião. Merece também um curioso destaque ter Natália Correia intencionado no desfecho da sua peça a mundialização do mito sebástico. Dir-se-ia que a autora vaticinava há nove anos vir a converter-se Portugal num ponto de agudização da crise ocidental promotora de um sentimento escatológico que vai buscar esperanças à reserva messiânica nomeadamente no culto dos ovnis."
Hoje comemora-se o centenário do nascimento de Natália Correia, uma grande mulher! Em homenagem a ela li este "O encoberto", livro escrito em texto dramático que conta uma divertida e satírica história acerca de um falso D. Sebastião surgido do nevoeiro. Dona de um sentido de crítica mordaz, Natália enfrentou a censura e brindou-nos com estas pérolas intemporais, que fazem dela imortal!
A alma lusitana traz com ela incrustada um saudosismo eterno pelos gloriosos tempos áureos de outrora. Esse sentimento, tão nosso, assume o seu expoente máximo na inabalável crença do Quinto Império, a ser erigido aquando do regresso d’”O Desejado”.
Reacendendo essa chama imensa que acalenta o coração português, Natália Correia retoma esse mito, com uma interpretação peculiar. Na peça, um ator maltrapilho de um trupe itinerante autoproclama-se El-Rei D. Sebastião e uma dúvida se impõe: será deposto o domínio espanhol ou tudo não passará de mais uma farsa comediante? A sede de poder alastra-se porque nunca ninguém o quer perder…
Prova viva da audácia da autora que, contra um regime ditatorial, escreveu uma crítica hilariante aos podres da soberania, expondo as intrigas e as mentiras que a sustentam. Sem qualquer medo, usa uma linguagem corriqueira e até mordaz, valendo a censura do lápis azul. Ainda assim, as letras ficaram vincadas e perduram até hoje, vencendo qualquer manto do esquecimento.
Sabem quando dois espelhos estão frente a frente e de repente parece que se abriu um portal para outras milhentas dimensões? É esta peça. (Declaração de amor à mui ilustre Natália Correia.)
Não é o meu estilo. Nem foi o ser peça de teatro que me desagradou. Foi mesmo a escrita, que achei confusa, nomeadamente o facto de ser uma peça de teatro que sobre uma peça de teatro, em que há confusão/mistura entre o actor que faz de actor e que passa a acreditar que é rei. Enfim...