“Foi Ele?” é um livro peculiar em vários sentidos, mais próximo do frenesim de “Amok” do que das minhas novelas preferidas, que se desenrolam de uma forma mais pausada.
Escrito já no exílio, na temporada que Stefan Zweig passou em Inglaterra, sabemos logo no início que houve um crime e que a narradora tem um suspeito.
Tenho de me forçar violentamente, por me faltar esta prova derradeira, a reprimir a minha suspeita ante todos os outros. Mas sempre que deparo com ele e este avança respeitável e amistoso na minha direção, o meu coração para. E uma voz interior diz-me: foi ele, e apenas ele, o assassino.
Betsy e o marido instalam-se na zona rural de Inglaterra, tendo por vizinhos mais próximos o casal Limpley. John é um homem bonacheirão e extrovertido, enquanto a mulher é reservada e melancólica.
“Para o diabo com a sua alegria”, retorqui amargamente. “É indecente ser-se feliz tão ostensivamente e andar a licitar os seus sentimentos tão despudoradamente. Eu enlouqueceria com um tão grande excesso, com um tão grande abcesso de decoro. Não consegues ver que ele, com a sua bravata de felicidade e a sua vitalidade assassina, faz esta mulher muito infeliz?”
Para tentar diminuir um pouco a solidão de Mrs. Limpley, Betsy oferece-lhe um cachorro. O resultado, no entanto, não só não é o previsto, como desencadeia a tragédia.
A minha intenção tinha sido dar à mulher silenciosa, um bocado solitária durante o dia, um companheiro na casa vazia. Mas foi o próprio Limpley que, com a sua inesgotável necessidade de carinho, se atirou ao cão. O seu entusiasmo com o pequeno animal engraçado era sem limites e, como sempre com Limpley, hiperbólico e um pouco risível.
O posfácio (posfácio e não prefácio, editoras, é assim que se faz) que acompanha este pequeno livro deixou-me um certo amargo de boca. Se por um lado é extremamente útil por contextualizar o local e a altura em que foi escrito, por outro, aponta para uma interpretação que transcende a narrativa que li de forma literal, que para mim era uma lição de vida sobre as consequências de uma atitude demasiado branda e incauta, quando não impomos limites às outras pessoas ou aos animais. Não deixa de ser essa a moral da história, mas, na verdade, trata-se de uma alegoria, e as alegorias cansam-me.