Adão e Eva no Mundo Socialista
O escritor Ingo Schulze passou boa parte da vida na Alemanha Oriental pré-queda do muro de Berlim. Fez dos traumas e das arestas da reunificação das duas Alemanhas tema central de seu livro mais reconhecido internacionalmente, o caudaloso romance Vidas Novas. Neste livro mais curto, Adam e Evelyn (Tradução de Sergio Tellaroli, 380 páginas, R$ 63), que a Cosac Naify está publicando agora, Schulze também se vale do fim dos regimes comunistas na Europa como pano de fundo, mas usa a história de um jovem casal de amantes como estrutura especular à crise que varreu os países comunistas e provocou a queda das autocracias socialistas.
Adam e Evelyn vivem em uma cidade do interior da Alemanha Oriental, em 1989. Ele é design de roupas, ela trabalha na imensa e já insustentável máquina burocrática do Estado. Até que Evelyn descobre que o namorado mantém com suas clientes relações além do simples corte e costura, e rompe a relação. Se antes havia problemas para que ambos conseguissem fazer coincidir suas férias (e as autorizações de viagem necessárias em um país em que o trânsito de pessoas é controlado pelo governo) para partir em uma planejada viagem à Hungria, após a briga Evelyn parte sozinha, de carona com uma amiga e o primo desta, vindo da Alemanha Ocidental. Um atormentado Adam a segue pela mesma estrada, no próprio carro. No meio do caminho, a viagem de Evelyn transforma-se em uma tentativa de fuga do comunismo no exato momento em que o próprio comunismo parece entrar em colapso.
Assim como Vidas Novas era uma forma de reler o Fausto no contexto da reunificação, por meio da biografia de um homem que, de artista e aspirante a escritor, se torna um bem-sucedido industrial aproveitando as oportunidades criadas pela reunificação, aqui o próprio título já denuncia um novo modelo mítico: Adão e Eva. As transformações históricas que se realizam à volta do casal, envolvido com seus próprios problemas amorosos, assemelham-se a um contemporâneo fim da inocência edênica, saídos de um regime não apenas centralizador e totalitário, mas também tutelar, para o enganoso paraíso capitalista, em que a regra do desperdício consumista parece demasiado agressiva e o dinheiro e onde obtê-lo é uma preocupação com muito mais peso do que na pobre sociedade comunista em que viviam. É algo que voltaria em Vidas Novas, um mergulho muito mais detalhado na psique de um homem que aprende não apenas a viver no capitalismo já na vida adulta, mas que aprende a negociar com a própria consciência para aceitar sem culpa, gradativamente, a própria ganância, central no sistema capitalista.