O escritor estadunidense Rex Stout (1886/1975), realizou uma série de façanhas em tenra idade. Essas façanhas são algo inacreditáveis mas confirmadas por pessoas de sua família. Ele teria lido toda a Bíblia três vezes até os três anos além de esgotar a leitura dos 1200 volumes da biblioteca do pai até os dez anos. Polêmicas à parte é fato que ele desistiu de uma carreira como prodígio em matemática e contador de prestígio para arriscar-se por caminhos incertos. Trabalhou como escritor free-lance, guia turístico e contador itinerante. Chegou a inventar um sistema bancário específico para escolas que lhe rendeu um bom dinheiro. Com um pouco mais de segurança financeira, em 1927, retirou-se para Paris onde enveredou definitivamente pelos caminhos pedregosos e incertos da carreira de escritor. Além disso chama a atenção o seu ativismo que o levou a se destacar na luta contra o nazismo e contra a proliferação das armas nucleares após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Sua escolha pela literatura foi muito bem sucedida principalmente em função de sua criação mais famosa: o detetive obeso, glutão, arrogante, misantropo, algo misógino, gourmet, beberrão, orquidófilo e brilhante Nero Wolfe que protagonizou mais de 70 narrativas entre contos, romances e novelas com excelente repercussão entre público e crítica. Seus livros protagonizados por Nero Wolfe lhe renderam fama e fortuna. Chegaram a vender 100 milhões de exemplares em 22 idiomas inclusive o senegalês e o lapão. Stout morreu solitário e feliz, aos 88 anos, numa suntuosa Villa à beira do Mar Mediterrâneo.
Nero Wolfe é um detetive e gênio da criminalística bem peculiar. Ele, ao contrário de Sherlock Holmes, Dupin e outros, não gosta de se mover até por que é obeso. Resolve seus casos e ajuda a perplexa polícia em casos intrincados em sua confortável residência ao lado de suas orquídeas, livros, de seu fiel cozinheiro e mordomo Fritz e das quantidades pantagruélicas de comida, vinho, cognac e cerveja que consome diariamente. Quando necessário as provas, evidências, indícios, testemunhas e documentos vão até ele levados pela polícia e, ou por seu braço direito, “mão forte”, secretário, guarda-costas, gerente, assistente de detetive, “bode expiatório” e ex-policial Archie Goodwin.
No início desse divertido e empolgante “Clientes demais” as coisas não estão bem para os lados da confortável residência de Nero Wolfe localizada na rua 35, às margens do Rio Hudson, em Manhattan, cidade de New York. As despesas não diminuem e a receita está minguante. Nero Wolfe e Archie Goodwin precisam urgentemente de clientes. Bom... Cuidado com o que deseja!
Eis que subitamente o assassinato de um executivo de uma grande empresa estadunidense leva a diretoria da tal empresa a procurar Nero Wolfe para esclarecer o crime sem prejudicar a imagem da corporação. Ao mesmo tempo a viúva do executivo procura o melhor detetive de New York para encontrar o assassino sem comprometer a imagem da família. Enquanto isso outras pessoas ligadas ao executivo – uma espécie de “Don Juan” com apetite sexual insaciável -, principalmente mulheres, pressionam o “faz tudo” Archie Goodwin e oferecem dinheiro para que ele retire “discretamente” da cena do crime certos objetos comprometedores. E como se isso não fosse suficiente um outro assassinato, de uma pessoa ligada ao contexto em que ocorreu o primeiro assassinato, leva a família dessa pessoa a desejar contratar Nero Wolfe para elucidar o crime à revelia dos interesses da empresa e da família do executivo.
Clientes demais, interesses conflitantes, pressões das autoridades, Nero Wolfe e Archie Goodwin no limiar de serem acusados de suprimir provas e informações da polícia, revelações inquietantes sobre a vida sexual do executivo e muitas incertezas testam as habilidades de Wolfe e de seu braço direito.
A tradução do escritor e jornalista Eduardo Bueno garante linguagem fluida e leitura agradável. A trama é bem estruturada e a solução dos casos é convincente e realmente surpreende.
Não creio que os thrillers elaborados por Rex Stout tenham revolucionado a literatura mas são divertidos à beça e mais do que adequados para quem gosta de uma boa história de mistério e suspense.