Que alegria foi ler essa belíssima biografia de Cícero Romão Batista, vulgo "Padim Pade Ciço".
O livro está dividido em duas partes: "A cruz" e "A espada". O mote da primeira parte é certamente a querela sobre os milagres supostamente realizados pela beata Maria de Araújo. Teria tido Maria de Araújo a capacidade de sangrar o sangue de Cristo ao ingerir uma hóstia? Ou isso não passava de um mero truque? A minha inclinação humeana certamente me tornará descrente, mas o fato é que os supostos milagres atraíram duas coisas: a fúria da igreja católica contra o Padre Cícero e um mar de romeiros que peregrinariam para Juazeiro do Norte para ser abençoados pelo mesmo Padim.
A segunda parte do livro retrata um Cícero politicamente mais poderoso (mesmo que tardiamente na sua vida), chegando a participar, junto com a figura emblemática de Floro Bartolomeu, do processo de independência de Juazeiro em relação ao Crato. Cícero, inclusive, foi o primeiro prefeito da cidade de Juazeiro do Norte e chegou a ser deputado federal por um curto período, após a morte de Floro. As indisposições políticas de Cícero, que chegou até mesmo a contactar Lampião para unir forças contra a Coluna Prestes, mostram um período sangrento e conturbado da história do Ceará.
Esta não é apenas uma excelente biografia do Padre Cícero, mas também uma narrativa envolvente sobre a cidade de Juazeiro do Norte, da região do Cariri e do sertão nordestino.