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Retalhos da Vida de um Médico - 1ª Série

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Retalhos da Vida de um Médico constitui um documento social da primeira metade do século XX, desenvolvendo-se em volta da vida de um médico de aldeia, por pequenas terras provincianas do Sul de Portugal. Mostra as dificuldades que o clínico (narrador [na] primeira pessoa) enfrenta para ser aceite pela população local, habituada a charlatães, crendices e superstições. O médico depara-se com a maneira simples de viver dos aldeões, subdesenvolvidos e subalimentados e com a sua desconfiança e avareza. A estas realidades, reage ora com ironia, ora com dúvida, ora com cansaço.

Retalhos da Vida de um Médico. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-02-01]. Disponível na www:

Publicado em 1949, este primeiro livro (Fernando Namora publicará um segundo livro em 1963) tem uma estrutura fragmentada (retalhos) onde o narrador e médico efectua um retracto social da primeira metade do séc. XX. Sem sequência cronológica, uma espécie de contos isolados sem qualquer ligação entre si, estas histórias (verídicas), desenvolvem-se sempre de uma forma dramática em simultâneo irónica e por vezes até surpreendida, em torno da vida de um médico recem formado que se vê colocado numa aldeia no interior do Alentejo, habitado por pessoas desconfiadas e supersticiosas, crentes nas antigas mezinhas medievais e que viam no jovem doutor uma charlatão da cidade com ares de importante.

«Iceman», 2010 03 14
http://nlivros.blogspot.com/2010/03/r...

Convém começar por dizer que Fernando Namora era um médico. Um médico daqueles que já não existem. O João-semana dessa outra grande história da literatura portuguesa. O Doutor de Coimbra. O Beirão que se apaixonou pelo Alentejo, mas acima de tudo a Pessoa que se apaixonou pelas «nossas gentes».

Todas as histórias nos são apresentadas de uma forma dramática e emotiva. O primeiro volume, mais clínico, de um médico mais jovem, mais enérgico e com gosto pelos desafios médicos. [...] Das histórias da faculdade às peripécias médicas, criando intimidade facilmente, desabafando as suas angústias e dúvidas e remetendo-nos para a vertente de vida pessoal que o médico também tem...

«Tripeiro», 2005 09 23
http://leiturasdomedico.blogspot.com/...

198 pages, Paperback

First published January 1, 1949

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About the author

Fernando Namora

50 books53 followers
FERNANDO NAMORA nasceu a 15 de Abril de 1919, em Condeixa-a-Nova. Licenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (1942), exerceu clínica na sua terra natal, na Beira Baixa e no Alentejo e foi assistente no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. Estreou-se nas letras com o vol. de poemas Relevos (1933); o seu terceiro livro de poesia (Terra, 1941) iniciou a colecção “Novo Cancioneiro”, órgão do Neo-Realismo, do qual fazia parte nomes como Carlos de Oliveira, Mário Dionísio e Rui Feijó. Além de poesia e romances publicou contos, novelas, memórias, narrativas de viagem e biografias romanceadas, tendo a sua obra sido traduzida em várias línguas: As Sete Partidas do Mundo (1938), Fogo na Noite Escura (1943), Casa da Malta (1945); Minas de São Francisco (1946); Retalhos da Vida de Um Médico (1949-63), em dois vols.; A Noite e a Madrugada (1950); O Trigo e o Joio (1954); O Homem Disfarçado (1957); Cidade Solitária (1959); Domingo à Tarde (1961, Prémio José Lins do Rego); Diálogo em Setembro (1966), Os Clandestinos (1972); Cavalgada Cinzenta (1977); Resposta a Matilde (1980); Rio Triste (1982, Prémio D. Dinis); Nome para Uma Casa (1982); Sentados na Relva (1986). Em 1981, foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura pelo PEN Clube e pela Academia das Ciências de Lisboa. Foi condecorado pela Presidência da República com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 1988. Faleceu a 31 de Janeiro de 1989, em Lisboa.

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Displaying 1 - 23 of 23 reviews
Profile Image for Ana.
230 reviews93 followers
November 15, 2019
Estes "Retalhos" são uma colecção de cerca de três dezenas de crónicas que relatam episódios da actividade de Fernando Namora enquanto médico recém-licenciado a exercer primeiramente no Portugal profundo (Beira Interior e Alentejo) e mais tarde na cidade, respectivamente nas décadas de 40 e 60 do século XX, em pleno Estado Novo. Retalhos que retratam o ambiente social da época, marcado pela pobreza e pelo analfabetismo, e as limitações e a impotência, com que, tão frequentemente, se deparava o jovem médico na sua luta contra a doença e os mitos nascidos da ignorância. São histórias de conteúdo muito humanista, narradas numa prosa exemplar na forma como conjuga erudição, simplicidade e beleza. A contracapa desta edição não engana o leitor quando nos apresenta a obra como de "um autor exemplar da fusão, sempre almejada, entre a literatura e a vida". Lindo de ler.
Profile Image for Sara.
373 reviews16 followers
April 3, 2021
O vento quente do Alentejo e as cores profundas do campo das pequenas províncias do Sul de Portugal são o pano de fundo desta Obra-Prima do neo-realismo português! Adorei cada minuto deste clássico! Não tenho outra forma de começar esta opinião! Fernando Namora passou a estar no topo dos meus escritores portugueses preferidos, sem dúvida!
Opinião completa aqui: https://momentosdemagia.wordpress.com...
Profile Image for Maria João.
159 reviews6 followers
August 11, 2024
É um dos clássicos da Literatura Portuguesa que ainda me faltava ler. Lido a esta distância, é uma pequena janela que nos permite espreitar para uma nesga do interior Português dos anos 50. Apesar de serem episódios relatados na perspectiva de um médico exercendo por aquelas aldeias refundidas em montes e fragas, também nos permite vislumbrar quão fechadas, coesas e inflexíveis eram as mentalidades e atitudes da época, não só sobre a relação vida-doença-morte e as crendices a ela associadas, mas também sobre a vida em comunidade, a coscuvilhice, a desconfiança do que é diferente, a dureza da vida, a tradição arreigada. A escrita de Fernando Namora é envolvente e poética, sem uso excessivo de vocabulário local.
Profile Image for Sophia in BookLand .
55 reviews5 followers
November 19, 2024
⭐⭐⭐⭐⭐

Fernando Namora leva-nos numa jornada emocionante e realista pelo interior de Portugal, através dos olhos de um jovem médico. A obra, dividida em "retalhos", captura a essência da vida rural, com suas alegrias, desafios e crenças arraigadas.

O estilo de "Retalhos da vida de um Médico" é envolvente e poético, sem recorrer a um vocabulário excessivamente técnico ou regional. A obra apresenta uma linguagem clara e acessível, o que contribui para sua ampla popularidade.

▪️O que mais gosto:
* Realismo cru: A descrição vívida da vida dos aldeões e suas dificuldades cria uma conexão profunda com a história.
* Linguagem rica: A prosa de Namora é envolvente, transportando o leitor para o coração da ação.
* Reflexões sobre a vida: Além das experiências médicas, o livro aborda temas universais como a solidão, a esperança e a busca por significado.

▪️Para quem recomendo:
* Amantes da literatura portuguesa e do realismo.
* Quem se interessa pela vida rural e pelas histórias de vida.
* Leitores que buscam uma narrativa rica e emocionante.

▪️Contexto Histórico
* Pós-Guerra: A narrativa se desenvolve num período de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, com cicatrizes da guerra ainda presentes na sociedade portuguesa.
* Portugal Rural: O livro retrata a vida em pequenas aldeias, com costumes e crenças arraigadas, contrastando com a modernização que lentamente se instalava nas cidades.
* Medicina de Província: A prática médica era desafiadora, com recursos limitados e longas distâncias a percorrer. O médico era figura central nas comunidades, muitas vezes assumindo também um papel social.
* Sociedade Patriarcal: As relações de gênero eram marcadas pela submissão feminina e pelo papel tradicional do homem como provedor.
* Emigração: A emigração para outros países, principalmente para a França, era uma realidade para muitos portugueses em busca de melhores condições de vida.
Profile Image for Sara.
373 reviews16 followers
April 24, 2021
Este livro é a segunda parte da obra, Retalhos da Vida de Um Médico, do escritor português Fernando Namora. O primeiro livro decorre nas zonas do Alentejo e Beira Interior e este segundo livro centra-se na cidade, na primeira metade do século XX. São crónicas de episódios clínicos com que um médico recém-licenciado se depara num ambiente social marcado pela pobreza e analfabetismo da época. Neste segundo volume, os relatos apresentam uma característica psicológica mais profunda, quer nos casos clínicos apresentados, quer na própria resolução dos mesmos!

A prosa de Fernando Namora é exemplar e erudita. Apesar de o médico ser o mesmo em ambos os livros, o ambiente onde exerce é marcadamente diferente neste segundo livro, o que permite ver uma faceta diferente deste médico e do próprio escritor! Uma obra maravilhosa que adorei ler, sem dúvida!
https://momentosdemagia.wordpress.com...
Profile Image for Virgilio Machado.
235 reviews16 followers
February 1, 2012
A estrutura da obra é feita por «retalhos», ou seja, de forma fragmentária, sem preocupação de sequência cronológica. É considerada uma obra mista, a nível de géneros literários, pois apresenta vários: a autobiografia, o conto, o diário, o apontamento breve do quotidiano, as memórias.

Retalhos da Vida de um Médico. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-02-01]. Disponível na www:

Sobressai em toda a obra uma espécie de cansaço e desilusão sobre a lorpice do povo e as dificuldades que ele sente em ser aceite e até mesmo a sua adaptação a uma dimensão diferente daquela que está habituado. Por vezes e isso sente-se nas suas palavras, parece que ainda se vive na era medieval e tudo o que é moderno está proibido de entrar. Fernando Namora é assim uma espécie de João Semana que se desloca de burro de terra em terra, socorrendo pessoas que só o chamam em última circunstância e, na maioria das vezes, quando nada há a fazer. Pessoalmente o que me apaixonou foi a narração daquele Portugal que existia (e ainda existe) escondido, uma espécie de 5ª dimensão, perdido da civilização, onde se vivia de uma forma agreste, com honradez, mas agreste. Uma grande obra da nossa literatura.

«Iceman», 2010 03 14
http://nlivros.blogspot.com/2010/03/r...

A ler por todos os que se interessam pelas pessoas e acima de tudo por todos os que não querem ficar presos aos «preconceitos» do médico aldrabão e dos «doentes coitadinhos»... Um bom relato da miséria humana que se vivia (vive) no Portugal de então...

«Tripeiro», 2005 09 23
http://leiturasdomedico.blogspot.com/...

143 reviews3 followers
June 11, 2020
Não sei se li ou se reli este livro, mas seguramente o encanto foi como se o lesse pela primeira vez. Apesar de ser uma edição de 1979, trata-se da 22.ª edição (142.º milhar). Como é uma obra que está no Plano Nacional de Leitura, presumo que neste momento já haja mais do dobro de edições e exemplares publicados. Lembrava-me de algumas das histórias, mas, mais uma vez, não sabia se de as ler ou se de as ver na sua adaptação à televisão. Atrás destas memórias fui procurar os episódios e estão todos disponíveis no arquivo da RTP.
Vale a pena revê-los. O actor José Peixoto representa o médico. Trata-se de uma adaptação de Artur Ramos, Bernardo Santareno, Carlos Coutinho, Olga Gonçalves, Urbano Tavares Rodrigues e Dinis Machado e música de Fernando Lopes Graça. Quase inacreditável o envolvimento destes escritores na elaboração dos diálogos.
São pequenas histórias, de partos, doenças, mortes, sempre contadas na primeira pessoa. Dúvidas de um jovem médico em pequenas aldeias - primeiro no norte e depois no Alentejo -, confrontado com a desconfiança dos aldeões e, nalguns casos, de ciganos, a suspeição dos curandeiros e com o paternalismo e arrogância dos médicos mais velhos. Algumas histórias são comoventes outras divertidíssimas, como a "História de uma pneumonia". Um dia um homem com as rugas da nuca e da face preenchidas por décadas de sujidade chegou ao hospital. Como teria de ficar internado, era obrigado a tomar um banho prévio, o que suscitou grande reação da parte dele porque apenas tinha tomado banho antes das sortes e do casamento. (...) Está um homem sujeito a apanhar um catarral ou um resfriamento. E o receio dele confirmou-se, teve uma pneumonia.
Mas se as histórias nos prendem, a escrita, sobretudo as descrições das paisagens e o início de cada conto são extraordinários:
"O vento reunia-se ali, na praça quieta, com o asfalto liso, negro, a espelhar a melancolia ensonada das pessoas e das casas. Da minha mesa de café eu olhava esse Inverno degredado e sentia-me fustigado e ausente. O dia era só bruma e nela escondia o meu sonho: nela refugiava a memória, a distância, a paisagem clara e movimentada da minha terra. Eu, o temporal e a gente vária que viera de longe atraída pelo esplendor do volfrâmio tínhamos certamente o aspeto de estar ali por acaso ou por condenação, à espera de uma oportunidade de regresso. O vento gania de saudade de outros lugares, molhava-se de chuva e tristeza, e tudo isso, prisão e desespero, escorria também da minha face." - Cardos, cardos na floresta.
Apesar de serem histórias de uma época não muito distantes, falam de uma realidade que, creio, já pouco tem a ver com as nossas aldeias e também com o exercício da profissão de médico:
"Uma reforma na fachada da igreja leva uma geração a ser estimada pelos olhos; um médico, por seu lado, tem de salvar uma pessoa da família antes que conquiste a intimidade e a confiança de um lar."
Mas isso em nada interfere com o interesse e qualidade das histórias que conta.
Profile Image for Paulo Teixeira.
922 reviews14 followers
March 11, 2021
(PT) Relato de diversos episódios vividos pelo autor no exercício da sua profissão, durante as décadas de 40 e 50 do século XX, um pouco pela Beira Baixa e Alentejo.

"Retalhos da Vida de Um Médico" é um dos mais conhecidos livros de Fernando Namora (1919-89), autor de "Fogo na Noite Escura", um dos melhores livros realistas do meio do século XX português. Médico de profissão, os relatos reais das suas histórias, num meio pequeno, duro, onde as suas sabedorias médicas combatiam contra a crendice e a charlatanice, num tempo onde os hospitais eram raros, e morrer era fácil (e morria-se cedo), há não só relatos de ilusão e desilusão, mas também de realidade e humanidade, bem como a mesquinhez, tão típicos do ser humano, em toda e qualquer parte. Ao ler os relatos algo amargos - mais reais - das resistências das pessoas às novidades, as desconfianças daqueles que vinham da cidade e contrariavam o saber popular, que muitos achavam "inquebrável" e "infalível", é um relato de como se vivia, adoecia e morria naqueles tempos.

Ao ler aqueles relatos, custa a acreditar que isso existia não há muito tempo, meras três gerações, e como as coisas mudaram tanto nesse espaço de tempo. Mais do que um mundo já desaparecido, o tempo que durou entre ali e agora, tem algo que anda entre a magia e o milagre, mas na realidade, foi uma revolução.
856 reviews
September 11, 2019
Desde que li um livro de contos de Fernando Namora que desejava ler este volume, misto de contos, memórias e autobiografia. Seguimos um jovem médico na sua aprendizagem enquanto profissional e enquanto homem, por entre o mundo rural português das Beiras e do Alentejo nos anos 40 do século XX, e a cidade de Lisboa dos bairros de lata e dos senhores burgueses. Este médico vê-se sempre dividido entre a lealdade à sua origem camponesa e ao que poderia ganhar com a sua profissão, mas o que vence nele é o respeito pela dignidade do seu semelhante, que é sempre um indivíduo com um rosto, uma história, que não é necessariamente bom nem mau mas que tem os seus motivos para agir como age.
E o médico, mais do que curar o físico (como em O Filho, História de umas Mãos Pequenas, O Crime, A Mulher que Engolia Alfinetes) tem que conhecer as almas e as provações materiais que as atingem, para depois conseguir chegar à sua humanidade.
E mais do que autores como Soeiro Pereira Gomes, Fernando Namora é mais poético e reflexivo: "Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos." (p.447).
27 reviews
September 15, 2025
Gostei deste livro. É notável que o autor incorporou muitas das suas vivências pessoais, o que resulta num livro com muito conteudo e diferentes histórias. Através deste livro, e como estudante de medicina, consegui ter acesso a um tempo diferente da prática médica e de acessibilidade da população a estes serviços, o tempo do "médico á periferia". A atmosfera geral das histórias é sempre um pouco soturna e melancólica, algo que eu pessoalmente aprecio, e o livro contêm algumas passagens que pintam descrições vívidas e impactantes.
Este livro é assim uma coletânea de histórias que juntas completam o puzzle, ilustrando a vida de um médico do século passado em Portugal.
Sem dúvida, uma mais valia.
Profile Image for João.
35 reviews
July 31, 2017
Livro bastante interessante sobre as peripécias de um jovem médico. As dificuldades que encontra no início da sua prática clínica perante a desconfiança dos aldeões, o abuso de poder por parte de médicos mais velhos, os curandeiros que supervisionavam o trabalho dos médicos e invariavelmente os acusavam de más práticas para, graças à simplicidade dos camponeses, de seguida darem a sua opinião e enriquecerem
Profile Image for Silvia Cardoso.
78 reviews1 follower
January 12, 2024
Um excelente retrato das condições da vida de um médico em aldeias do interior de Portugal. Permite-nos ver a figura do médico como agente social. As histórias que conta revelam o humanismo presente nas suas intervenções clínicas e no seu pensamento com escritor.
Interessante também reflectir sobre a evolução do trabalho clínico, hoje praticamente remetido aos ambientes hospitalares e estereotipados.
Recomendo a leitura.
Profile Image for André.
42 reviews
August 23, 2023
"Dantes, entrava ali com ar afogado e breve dos mestres, o cenário satisfazia a nossa fatuidade profissional. Mas tudo isso, agora, tinha um significado humano; eram dores e chagas que atormentavam homens como eu e não curiosas entidades clínicas."
Profile Image for Iceman.
357 reviews26 followers
December 30, 2012
Fernando Namora nasceu em 1919, licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, tendo exercido nas regiões da Beira Baixa e Alentejo.

De estilo neo-realista, tem uma obra literária vasta, marcada, quase toda ela, por observações fiéis da realidade (naturalismo) e da sua experiência, e soube explorar algo que me fascina e que está ligado à corrente neo-realista: o indivíduo age conforme o meio que habita e as tradições intrínsecos a esse meio.

Publicado em 1949, este primeiro livro (Fernando Namora publicará um segundo livro em 1963) tem uma estrutura fragmentada (retalhos) onde o narrador e médico efectua um retracto social da primeira metade do séc. XX.

Sem sequência cronológica, uma espécie de contos isolados sem qualquer ligação entre si, estas histórias (verídicas), desenvolvem-se sempre de uma forma dramática em simultâneo irónica e por vezes até surpreendida, em torno da vida de um médico recem formado que se vê colocado numa aldeia no interior do Alentejo, habitado por pessoas desconfiadas e supersticiosas, crentes nas antigas mezinhas medievais e que viam no jovem doutor uma charlatão da cidade com ares de importante.

Sobressai em toda a obra uma espécie de cansaço e desilusão sobre a lorpice do povo e as dificuldades que ele sente em ser aceite e até mesmo a sua adaptação a uma dimensão diferente daquela que está habituado. Por vezes e isso sente-se nas suas palavras, parece que ainda se vive na era medieval e tudo o que é moderno está proibido de entrar. Fernando Namora é assim uma espécie de João Semana que se desloca de burro de terra em terra, socorrendo pessoas que só o chamam em última circunstância e, na maioria das vezes, quando nada há a fazer.

Pessoalmente o que me apaixonou foi a narração daquele Portugal que existia (e ainda existe) escondido, uma espécie de 5ª dimensão, perdido da civilização, onde se vivia de uma forma agreste, com honradez, mas agreste.

Uma grande obra da nossa literatura.
Profile Image for Virgilio Machado.
235 reviews16 followers
April 5, 2012
A estrutura da obra é feita por «retalhos», ou seja, de forma fragmentária, sem preocupação de sequência cronológica. É considerada uma obra mista, a nível de géneros literários, pois apresenta vários: a autobiografia, o conto, o diário, o apontamento breve do quotidiano, as memórias.

Retalhos da Vida de um Médico. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-04-05]. Disponível na www:

Retalhos da Vida de um Médico é talvez um dos livros de Fernando Namora mais emblemáticos, aquele «em que os leitores mais imediatamente captaram o intenso pulsar de humanidade e o sentimento fraterno que percorrem toda a obra de Namora, identificando autor e narrador num mesmo médico que vive as dores, misérias e frustrações de uma população rural do interior esquecido de Portugal na década de quarenta». [...] Em Retalhos da Vida de um Médico, que conheceria uma segunda série em 1963, Namora denuncia, por exemplo, a miséria de um povo que para conseguir pagar ao médico, recorrendo ao sistema das avenças, tem praticamente de deixar de comer. E o contacto com o sofrimento desse povo acaba por imprimir à obra um humanismo e uma consciência cívica e fraterna difícil de encontrar na literatura nacional [...] Se é verdade que há escritores que retratam a alma de um povo, ler Namora é reencontrar o Portugal do Estado Novo.

http://www.correiodabeiraserra.com/in...
Profile Image for Joaquim Cinzento.
2 reviews7 followers
August 13, 2014
Absolutamente magnânimo. Esta segunda série, bem melhor que a primeira, traz-nos novas narrativas, mais longas, num Portugal em meados do século XX. O médico-escritor Fernando Namora, esse, está mais maduro, mais arguto, e, por isso, mais ciente das suas próprias (in)capacidades e da dificuldade da medicina e dos seus agentes se entrosarem com a vontade das pessoas - dos enfermos que, muitas vezes, não querem mais que uma palavra que lhes conforte a dor ou que apazigue a efabulação dum espírito que não compreende as maleitas do seu corpo. São os retalhos da profissão, mas, na mesma medida, do plano social, num país onde, muitas vezes, é mais difícil, se não mesmo impossível, curar a miséria.
Um Bordão de Esculápio que ilumina o caminho e que não hesita em se questionar, pondo o médico constantemente à prova, entre a sua realidade e a do outro, no meio do ruído.
Vale certamente mais do que alguns semestres passados no abstraccionismo da faculdade. Arredados da nossa vulnerabilidade, a máscara do aluno é subitamente substituída pela do médico. Há que lidar com a desordem da vida, quando ainda há pouco se praticava no amparo harmonioso dos nossos mestres. E a aprendizagem continua, não cessa nunca. Como termina Eduardo Lourenço no prefácio, o constante ofício de «um homem vibrando em uníssono com as dores do mundo».
Profile Image for Nuno Martins.
111 reviews13 followers
May 12, 2017
Um excelente livro, em que Fernando Namora, médico escritor, nos apresenta pequenas histórias por ele passadas durante a sua vida de clínico, primeiramente na zona de Monsanto na Beira baixa e depois no baixo Alentejo.
Namora mostra-nos num tom por vezes irónico, por vezes sarcástico o Portugal profundo durante as décadas de 40 e 50 do século passado. Um Portugal pobre, analfabeto, preso a tradições e costumes antigos e religiosos, um Portugal oprimido onde os pobres são muito pobres e os ricos muito ricos... É neste portugal que o jovem médico vai aos poucos (com muitos dissabores à mistura) crescendo, aprendendo e sobretudo fazer-se respeitar, mas ao mesmo tempo observar e transpor no papel com a mestria da sua escrita todo esse mundo social que o rodeava.
Profile Image for Gonçalo Ferreira.
289 reviews11 followers
January 16, 2019
Livro de narrativas primeiramente publicado em dois volumes (1949 e 1963)
(1949):
História de um parto
A mulher afogada
A prima Cláudia
Dias de Vento
Reputação
A visita
Cardos, cardos na floresta!
Um homem do Norte
Meia dúzia de histórias pitorescas (I-A primeira consulta, II-História de uma pneumonia, III-A voz do sangue, IV-Ciganos e o mais que se lerá, V-Curandeiros, VI-Mais curandeiros)
Malandro
História quase policial
Um conde na Ilha Fria
Outra história de um parto
A Tuberculosa
O Canudo e a estátua
(1963)
O influente
O homem que queria morrer
Os sapatos
História de umas mãos pequenas
Um começo de vida
O filho
O crime
O rufia
A mulher que engolia alfinetes
O Cão
Apenas uma laranja
Profile Image for Vasco Ribeiro.
408 reviews5 followers
January 1, 2016
Gostei mais dos da 1ª série (1949) - que são mais campesinos que dos da 2ª série (1963).
Nota-se um tom corporativista da classe médica: É recorrente a queixa de que são incomodados a horas impróprias por coisas de nada. E são mal pagos, e alvo de muita maledicência
18 reviews1 follower
June 21, 2016
Trata-se de um livro de contos de cariz, diria, "autobiográfico" o qual fala da fase inicial da carreira clínica do autor. O livro revela uma grande sensibilidade social e está escrito numa belíssima linguagem. Afigura-se-me poder designá-la por prosa poética.
Profile Image for Nance.
5 reviews7 followers
January 2, 2014
À altura de um clássico da literatura universal.
Displaying 1 - 23 of 23 reviews

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