Nélida Piñon revisita os labirintos da memória e da identidade nos dezesseis contos marcantes de Sala de armas , obra essencial da literatura brasileira, agora em nova edição.
Sala de armas , de Nélida Piñon, não é um paiol ou depósito que abriga baionetas, fuzis, metralhadoras, granadas ou qualquer outro armamento de guerra. O poder bélico de Nélida é a palavra, e nesta Sala está sua artilharia pesada, que envolve o amor, o poder, a crueldade, a violência, a tristeza, a poesia, o grotesco, o triunfo da mulher, a ternura, a alegria, o erótico, os conflitos humanos.
É nesse ambiente de força centrípeta que a escritora convoca o leitor a dialogar e duelar consigo. Nas dezesseis histórias aqui reunidas, Nélida utiliza com maestria sua linguagem perturbadora de condensada beleza que atinge com rara precisão o coração de quem enfrenta suas linhas.
Nesses contos que fascinam, temos a promiscuidade e a redenção reunidas; o sultão que, diante da escravidão do poder, se debate com a insuportável liberdade do pássaro; as metamorfoses de Eleusis, que “tinha o hábito de morrer”; a filha única que rasteja como cobra. E Nélida impacta o leitor quando o texto busca subverter valores, tradições, convenções, e não obedece às pautas sociais, como no conto “Cortejo do Divino”, em que a exaltação do amor desafia a ira de toda a cidade e o homem termina por arrancar os próprios olhos com um garfo.
O conto “A colheita”, por sua vez, é considerado por Miguel Sanches Neto “uma das obras-primas da literatura de língua portuguesa”. E temos ainda a poética de “Luz”: “Luz era de bronze. Derretia quando eu lhe dizia minha Luz. Minhas palavras eram seu encanto, ela sempre confirmava. E eu lhe disse, amo-te, estou perdido em tuas cavernas.”
Nélida Piñon é a encarnação do verbo com inesgotável poder de criação.
Nélida Piñon is a Brazilian writer born May 3, 1937 in Rio de Janeiro of Spanish immigrants. Her first novel was Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo (The Guidebook of Gabriel Arcanjo), written in 1961 which concerns a protagonist discussing Christian doctrine with her guardian angel. In the 1970s she became noted for erotic novels A casa de paixão (The House of Passion) and A força do destino (The Force of Destiny), written in 1977. In 1984 she perhaps had her greatest success with A Republica dos Sonhos, English translation The Republic of Dreams. The work involves generations of a family from Galicia who emigrated to Brazil. This relates to her own family's experience. She is a former President of Academia Brasileira de Letras and on a personal note she is said to be fond of American television.
E quando se descobriu grávida, como se não partilhasse a fecundação com ele, mas com o vento que sempre transitou pela casa, enviou-lhe bilhete: perdemos a casa a um só tempo, não é sua nem minha. (...) E quando a barriga veio até as montanhas da cidade e não se duvidava mais, o primo compreendeu a casa então é do herdeiro. - A Sagrada Família
Ler Nélida Piñon foi um verdadeiro desafio do qual pensei inicialmente em desistir, mas havia algo nestas frases intrincadas que me fascinavam e me levaram a ler duas vezes os primeiros contos, para me acostumar a este estilo que considero obscuramente original. A escrita desta autora brasileira é complexa, quase arcaica, parecendo às vezes que lhe faltavam palavras e a mim, concentração e capacidade para lhes dar sentido.
Seu desaparecimento foi observado muito depois. O pai ainda tentou aos gritos: venha, coisa feia, mais parece cobra rastejando no chão. Comprazia-se em revelar-lhe a feiúra, sua lerdeza condenava. Ele vasculhou por toda parte. Como que a imaginava estática, copiando árvore e pedra, sua afinação secreta. - O novo reino
“Sala de Armas” é uma colectânea de contos povoados por gente bizarra e situações insólitas, a transbordar de realismo mágico, que me fizeram lembrar constantemente Julio Cortázar, de quem Nélida foi amiga, mas sem me deixar a mesma sensação de vazio e de frustração que a obra do autor argentino. Não tendo havido nenhum conto perfeito, houve vários que andaram lá perto, como “A Sagrada Família”, “Cortejo do Divino”, “Oriente Próximo”, “Sala de Armas”, “O Novo Reino”, “Ilustração da Graça” e o mais famoso, “Colheita”.
Quero morrer com os olhos abertos, contemplando o teto, seus escudos mágicos, a aristocracia da madeira. Ali plantou-se minha história, uma concentração de sumos, cor de açafrão, tintura real. Todos os capítulos sempre que a memória consentiu, desde o meu nascimento até a decisão de imobilizar-me aqui e construir castelos, açudes. - Sala de Armas
Creio que é um livro que merece nova leitura de futuro, para melhor apreender a imaginação fértil e a linguagem barroca de Nélida Piñon.
A denúncia havia surgido quando se descobriu aquela veemência. O fato do homem e da mulher terem adotado hábitos amorosos que contrariavam tudo que se inventara até então, ao menos era esta a suspeita geral. (...) Evidências confirmaram que não haviam abandonado o quarto em que se estavam amando por um período acima de 400 dias, sem suas peles perderem o colorido das maçãs. - Cortejo do divino