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Os Dois Irmãos

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«A história que serve de suporte a esta estória aconteceu lá pelos anos de 1976, algures na ilha de Santiago. Como agente do Ministério Público fui responsável pela acusação de "André" pelo crime de fratricídio. Só muitos anos depois percebi que "André" nunca mais me tinha deixado em paz. Devo-lhe por isso este livro no qual a realidade se confunde com a ficção.»

E destas palavras do próprio autor surgiu um belíssimo texto sobre a lei, as convenções sociais, a tradição e os sentimentos pessoais mais íntimos.

240 pages, Paperback

First published January 1, 2005

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About the author

Germano Almeida

28 books61 followers
Germano de Almeida nasceu na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1945. Licenciou-se em Direito em Lisboa e exerce actualmente advocacia na cidade do Mindelo. Estreou-se como contista no início da década de 80, colaborando na revista Ponto & Vírgula. A sua obra de ficção representa uma nova etapa na rica história literária de Cabo Verde. Está publicada em Portugal pela Caminho e começa a despertar interesse no estrangeiro, nomeadamente o romance O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo, do qual vários países compraram os direitos, encontrando-se já publicado no Brasil, na Itália e França. O filme de baseado nesta obra (O Testamento do Senhor Napumoceno) foi recentemente galardoado com o 1º Prémio do Festival de Cinema Latino-Americano de Gramado, no Brasil; foi igualmente distinguido com os prémios para o melhor filme e melhor actor no 8º Festival Internacional Cinematográfico de Assunción, no Paraguai.

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Displaying 1 - 16 of 16 reviews
Profile Image for Carla.
183 reviews25 followers
December 31, 2018
Este foi o primeiro livro que li do escritor cabo-verdiano Germano Almeida, que nos narra com mestria um julgamento de um homem que se encontra acusado do homicídio do seu irmão mais novo, descrevendo-nos as posições distintas do juiz, do procurador e do advogado, e fazendo-o com uma certa ironia bem conseguida.

Mas mais importante que os factos e as provas que se vão trazendo e discutindo num tribunal que funcionou numa escola primária da aldeia onde ocorreu o crime, para a realização daquele julgamento, de modo a aproximar o sistema judicial dos cidadãos, foi o autor a conduzir-nos para fora da sala do tribunal improvisado e mostrar-nos como espectadores de uma primeira fila o ambiente social que esteve na origem do homicídio.

Um jovem cabo-verdiano que tinha emigrado para Portugal há cerca de três anos, tendo iniciado uma nova vida em Lisboa e mantido uma relação amorosa com outra mulher, quase esquecendo a esposa que tinha deixado em Cabo Verde, regressa à sua terra, quando recebe uma carta do pai a informá-lo que tinha encontrado o seu irmão mais novo a ter relações sexuais com a sua esposa, pelo que expulsou esta última da sua casa, onde vivia desde o seu casamento.

Quando reencontra o pai, a mãe e o irmão mais novo na casa paterna, é acolhido com muitas reservas pelo seu pai, com muita tristeza pela sua mãe e com grande alegria pelo seu irmão, que nega os acontecimentos relatados pelo pai de ambos.
Procura a sua esposa e volta a retomar o casamento com a mesma, mas fora da casa paterna, uma vez que ela daí tinha sido expulsa pelo sogro.

Para grande surpresa e tristeza sua, o pai, a restante família e toda a pequena comunidade da aldeia afastam-se dele, pois em vez de repor a honra da família, assassinando o seu irmão, o jovem continua a dar-se bem com o mesmo.

O desprezo com que é tratado pela família e pelos amigos, que o ignoram e agem como se ele já tivesse morrido, leva-o a desejar nunca ter regressado a Cabo Verde, onde se sente um estranho.

Mas a pouco e pouco, a conduta da comunidade à sua volta leva-o a uma situação de desespero e de sofrimento, que culmina em ele acreditar que o seu irmão o traiu com a sua esposa e em tomar a decisão de o matar para voltar a ser aceite pela própria família, amigos e vizinhos, já que era a única forma de provar ser um homem digno.

A história decorre uns anos após a independência de Cabo Verde e leva-nos a reflectir sobre até que ponto um homem é totalmente livre nas decisões que toma, se é condicionado pelo meio social e cultural em que vive e se o crime que pratica deve ou não ser julgado tendo em conta o contexto social da época ou antes a capacidade do ser humano à autodeterminação e de agir de forma livre e autónoma e unicamente de acordo com a sua consciência, sem ser condicionado nas suas atitudes por qualquer espécie de influência externa.
Profile Image for Marisa Martins.
307 reviews9 followers
April 23, 2010
Com apenas 19 anos e recém-casado, André abandona o seu país natal para aventurar-se numa nova vida em Lisboa. Aluga um quarto com amigos, arranja um emprego e, apesar da adaptação ter sido complicada, fácilmente habitua-se ao frio e às vivências locais.
Uma missiva do pai, a dar-lhe conta da traição da mulher com o próprio irmão, levaria André a deixar para trás uma Lisboa que começava a gostar e enfrentar uma aldeia à espera de ver-lhe lavar a sua honra e a da família com sangue.
Com um sentimento de desencantada vergonha o povoado verificava que, numa promiscuidade aviltante, André continuava tranquilamente a conviver com a própria desonra e a da sua família, quando o que dele se esperava era que soubesse enfrentar com dignidade de macho o irrecusável desfecho que todos sabiam inevitável.

Em Dois Irmãos, Germano Almeida retrata as pessoas e vivências de uma sociedade tradicionalista e assente sobre fortes valores morais, de que são exemplos, a honra das famílias ou o respeito aos mais velhos.
André, após ter vivido alguns anos na Europa, já não partilha os costumes e valores da aldeia, mas, para a aldeia, esta mudança não faz sentido e o jovem emigrante acaba sendo renegado e desprezado por todos.

O livro começa e acaba com o julgamento de André. Como testemunha, familiar ou meros espectadores, desfilam pelo tribunal os pontos de vista de cada um dos intervinientes na história.
Sendo um livro sobre julgamento e narrado por um advogado, está repleto de expressões de direito penal e, muitas vezes, torna-se cansativo e de difícil compreensão para desconhecedores da área.
Apesar de escrito em português, o livro contém muitas expressões caboverdeanas que não serão fácilmente ententidas por todos os leitores.

Apesar de já ter visto a adaptação para cinema de um dos mais conhecidos livros do autor (O Testamento do Sr. Napumoceno), este é o primeiro livro do Germano que leio (shame on me).
Aconselho-o, mas com cautela.
26 reviews2 followers
April 20, 2022
Nesta obra, o desejo de vingança – como protótipo de justiça – conduz a um acontecimento tremendo: André comete fratricídio, matando o irmão João. Fá-lo motivado por suspeitas – não da sua parte, mas dos seus amigos e, principalmente, do seu pai – de que ele tinha “ido para a cama com a sua mulher”. A narrativa de Caim e Abel é recriada e adaptada ao povo cabo-verdiano de 1975. O campo das transformações socioculturais desenha-se, a traço trágico, dividido entre o apelo de pertença comunitária e o desejo de viver livremente.

A obra começa aquando do início do julgamento – improvisado numa escola, em péssimas condições –, e a história é conhecida por analepses. André não estava convencido da traição de Maria Joana com o seu irmão. Assim, comporta-se normalmente com ele, durante 21 dias. Por não o condenar de imediato, é desaceite pela sua família e amigos. Acaba por o matar, brutalmente, com vinte e uma facadas.

A questão da honra motiva o crime, à semelhança do que acontece em Michael Kohlhaas. E, também como na obra de von Kleist, o processo de vingança exige movimentos de mais que uma pessoa – a família de quem se quer vingar; n´Os Dois Irmãos, o pai, acima de todos. A cultura da vergonha reina, como n´O Processo, de Franz Kafka.

Na verdade, André não queria matar João. Inicialmente, nem estava convencido de que ele era culpado. Logo, noutro sentido, quem mata João é a sociedade, com o pai à cabeça. A hermenêutica da suspeita reina. Não temos a certeza de que terá realmente ocorrido um adultério – apenas uma carta do pai nos dá esse parecer; é um ato linguístico que ativa todo o crime. Para além disso, o pai refere que apenas viu Maria Joana com uma pessoa por cima – acha (só acha, mesmo) que se tratava de João, o seu filho, em cima dela. A partir daí, move todas as suas energias em prol de um desejo de vingança sanguinária, comprovada multiplamente ao longo da obra. Assim, é-nos fácil concluir que o principal culpado disto tudo é o inconsciente do pai. E, como dizem Marx, Nietzsche e Freud, o inconsciente não é, de todo, fiável.

Por isso o juiz se mostra reticente, apesar da evidência das provas – não percebe tamanha mudança no comportamento de André. De um momento para o outro, passa de abraçar o irmão para o matar brutalmente. Fica estupefacto com os valores que regem a sociedade, os quais desconhecia: não imaginava o seu povo tão injusto, animalesco e sedento de vingança.

A história decorre uns anos após a independência de Cabo Verde e leva-nos a refletir sobre até que ponto um homem é totalmente livre nas decisões que toma. Se é condicionado pelo meio social e cultural em que vive e se o crime que pratica deve ou não ser julgado tendo em conta o contexto social da época; ou antes a (in)capacidade do ser humano à autodeterminação e de agir de forma livre e autónoma e unicamente de acordo com a sua consciência, sem ser condicionado nas suas atitudes por qualquer espécie de influência externa.

Os Dois Irmãos faz parte daquelas obras em que o intertexto bíblico funciona apenas como âncora cultural e simbólica, inteiramente dependente das intenções do autor, que pretende, fundamentalmente, dar a ver o seu país, num determinado momento histórico, após o processo do colonialismo e subsequente desarticulação pós-colonial iniciada em 1975. Assim, segundo os costumes culturais da época e daquele povo, se André não matou João, devia tê-lo feito.

A insistência do narrador na área semântica do trágico e do fatídico tem, pelo menos, três funções hermenêuticas de grande rendimento: permite ler o romance à luz dos protocolos ético-sociais da tragédia clássica; proporciona um abrandamento da culpabilização do réu; e, numa perspetiva de cariz antropológico, dá forma a um retrato psicossocial da população cabo-verdiana, mais afetada pelas mudanças comportamentais determinadas pela emigração e pelo turismo.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for João Teixeira.
2,300 reviews42 followers
October 21, 2020
«Cada homem é um pequeno mundo e você só poderá bem julgá-lo, se for capaz de entrar no seu mundo e o compreender como ser humano» diz o narrador quase no princípio da história.

Este é um livro que nos faz reflectir sobre a sociedade em geral e sobre o Direito em que a mesma se funda em particular. Nestas páginas somos confrontados com questões que não nos deixam indiferentes. Deparamo-nos aqui, por exemplo, com o facto de ser inevitável agirmos de acordo com o que os outros esperam de nós. É a sociedade que determina a nossa maneira de agir e, mais, é a sociedade em que nos inserimos que previamente nos julga e, se por acaso não agimos de acordo com o que se espera de nós, deixamos de ser aceites.



Não tinha qualquer expectativa em relação a este livro e talvez por isso tenha acabado por me surpreender pela positiva. Gostei da maneira de escrever de Germano Almeida e foi interessante notar que, ao longo da história, apenas temos acesso às informações que são dadas em tribunal (umas a favor de André, outras nem tanto) e ao juiz, para que nós próprios julguemos o caso e decidamos se o réu é culpado ou inocente.

Foi uma leitura interessante.
Profile Image for João Neves.
32 reviews2 followers
March 31, 2025
A justiça e a moralidade em Dois Irmãos, de Germano Almeida

Germano Almeida reafirma a sua mestria narrativa em Dois Irmãos, uma narrativa que, à semelhança de O Testamento do Senhor Napumoceno, se desenrola dentro de uma trama maior.

A história decorre durante um julgamento, no qual se desvendam, a pouco e pouco, as razões que levaram André a assassinar o seu irmão. Motivado pela maior e mais imperdoável quebra da confiança fraterna e cujo único desfecho esperado é o homicídio, o crime é analisado à luz da justiça e dos costumes, refletindo sobre a complexidade da moralidade e da própria Lei, que se quer cega, mesmo quando pouco vê ou compreende.

Germano Almeida viveu a história na primeira pessoa enquanto agente do Ministério Público e, com o seu estilo irónico, constrói um retrato da sociedade cabo-verdiana logo após a independência nacional, no qual a tradição centenária e legalidade se confrontam. Dois Irmãos é mais do que uma história de crime e castigo, é uma reflexão profunda sobre a natureza humana e as limitações da justiça.
Profile Image for Isabel.
168 reviews
June 18, 2022
André Pascoal e João.

"Cada homem é um pequeno mundo e você só poderá bem julgá-lo , se for capaz de entrar no seu mundo e o compreender como ser humano."

"...os homens que eram encontrados em fornicacão com as mulheres dos outros...em muitos povos africanos esta ofensa só pode ser lavada com sangue e o homem ofendido que não assume essa vingança fica para todo o sempre desonrado junto dos seus , não lhe restando outra alternativa senão abandonar a sua comunidade."
Profile Image for Patricia Posse.
248 reviews2 followers
October 10, 2023
Um enredo que nos leva a mergulhar ostensivamente, nos costumes das comunidades cabo-verdianas e na profunda transformação que sofrem os que dela partem.
Profile Image for Octavio Villalpando.
530 reviews29 followers
May 30, 2016
Bueno, no puedo negar que se trate de una obra entretenida, sin embargo no es una joya. A partir de una anécdota muy básica, por el hecho de que desde el inicio ya sabemos de que va toda la obra, así como su desenlace, el autor logra como sea mantener el interés del lector por toda la extensión de la novela. Hagan de cuenta que es una especie de "Crónica de una muerte anunciada", pero con la trama ubicada en una isla de Portugal. Se trata de la historia de un hermano que se ha ido a trabajar lejos, y mientras tanto, en su pueblo natal, su hermano pequeño seduce a su esposa; cuando este regresa, todos en el pueblo, incluida su propia familia, esperan que lave su honor, de la única forma posible. Así, a lo largo de todos los capítulos, siempre vamos gravitando hacía ese final ya plenamente anunciado, aderezado acaso por una riqueza de detalles que en algunos casos funciona bien pero en otros se sienten como algo innecesario.

Hay que apuntar que, habiendo trabajado el autor como juez, la trama gira en muchas partes acerca de las reflexiones de los abogados que intervienen en la obra, el defensor, el juez y el propio fiscal, sin embargo esos detalles a veces son un poco cansados para un lector más interesado en las motivaciones primarias de los protagonistas principales. Acaso lo más interesante sea la descripción que se hace de las costumbres de los lugareños, su código de honor y sus costumbres, pero son tratadas desde un punto de vista ajeno al lugar, por lo tanto, mostradas ya digeridas y asimiladas, desprovistas del choque que podrían producir si fuera en modo contrario.

No diría que es una entera pérdida de tiempo, pero lo cierto es que no aporta demasiado a un lector en busca de placeres más exóticos o refinados.
Profile Image for Vitor Frazão.
Author 39 books59 followers
March 25, 2012
2,6 a 2,7 estrelas.

Embora uma parte de mim continue a achar que uma história tão simples não carece de tantas páginas para ser contada, reconheço que as nuances desta narrativa sobre leis, tradições, convenções sociais e emoções, fornecem mais profundidade ao conjunto do que inicialmente aparentava.

O timbre da narrativa, misto de jargão legal com linguagem coloquial, não me agradou, porém, também não foi totalmente desprovido de beleza, em secções pontuais.
Profile Image for Terpsicore.
80 reviews13 followers
October 18, 2011
Não foi dos livros de Germano Almeida que gostei mais. Penso que ele estava demasiado envolvido pessoalmente, sentimentos de culpa e tal... Houve momentos longos.
O que me manteve presa ao livro foi a descrição da pressão social sobre André.
Profile Image for Carla Crespo.
35 reviews5 followers
March 31, 2014
Primeiro livro que leio do autor.
Com uma escrita muito própria, cheia de pormenores e palavreado especifico de direito, perdi-me algumas vezes na história. Aliás, nunca demorei tanto tempo a ler 200 e poucas páginas.
A história em si até era interessante, mas não gostei muito do livro.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews85 followers
April 2, 2015
Sobre a injustiça da justiça* em cabo Verde...
Tradição,honra,povo,colonialismo,ética,leis,normas sociais,condicionalismos culturais e injustiça*
Profile Image for Helena Prata.
71 reviews10 followers
November 19, 2024
Um pouco diferente dos livros de Germano Almeida. Uma descrição muito realista da forma de viver e das leis próprias que regiam as pessoas nos meios rurais.
Displaying 1 - 16 of 16 reviews

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