A poesia de João Luís Barreto Guimarães oscila, sempre, entre a contemplação da História, a ironia sobre as coisas comuns e quotidianas, a transformação dos sentimentos em meditação sobre a passagem do tempo, a construção de um universo próprio com as suas personagens, obsessões e descobertas. Ao mesmo tempo, o autor encetou há muito a busca de uma linguagem única e de uma forma singular no panorama da poesia portuguesa e europeia.
Publicada em várias línguas (do espanhol ao inglês, do croata ao polaco e ao italiano), a sua obra oscila, de um lado sobre a melancolia; do outro, com a ironia - como os grandes poetas da tradição europeia, de Cesário Verde a Philip Larkin, por exemplo, sem ficar preso às fronteiras de uma lírica confessional.
Neste livro evocam-se os dias «do fechamento», mas também, finalmente, aquilo que está «aberto todos os dias» - aberto o livro, aberto o mundo -, aquilo que permanece vivo apesar das pandemias, do esquecimento ou da banalidade. Um grande e auspicioso regresso.
DORMIR VESTIDO Despede-te todos os dias de cada coisa que amas (a vida é um veneno que só se toma uma vez). Descansa os olhos do mundo (a dor assinala o centro) há uma flecha em viagem com o nome de cada um. É como apanhar boleia no guarda-chuva de alguém (deves pagar a viagem exigindo segurá-lo). Ou como dormir vestido (estar sempre pronto a partir) levando em ti o que aprendeste na universidade do interior
************************* NOTA SOBRE O VISÍVEL Se amanhã vires um miúdo na calçada portuguesa (bicos dos pés no calcário tentando evitar basalto) impondo-se o desafio de não poder pisar cor preta já tens aí o poema.
O autor escreve com leveza, ironia e mirada aguçada poemas que nos levam desde o quotidiano a preocupações metafísicas. Um poema, em particular, intitulado: “Gostaria de partilhar comigo o resto da sua vida?” arrancou de mim longos sorrisos!
Doze livros depois de “Há Violinos na Tribo”, edição de autor de 1989, João Luís Barreto Guimarães volta a inquietar-nos com “aberto todos os dias”, a sua mais recente criação. O livro surge menos de um mês após a distinção com o Prémio Pessoa 2022 e nele o poeta regressa aos pequenos-nadas de que a vida é feita, olhando de forma atenta o seu (e nosso) quotidiano. A familiaridade que brota dos espaços, dos tempos, das situações, gera no leitor a maior das cumplicidades. Lúcido e preciso, sem dispensar a ironia, o olhar de João Luís Barreto Guimarães traz ao nosso encontro as imagens e os sons dos dias repartidos entre a prática médica, uma caminhada à beira-rio ou os momentos passados à mesa do café. A sua poesia convida-nos a ver a cidade que se afadiga para ir jantar a casa, os pequenos avanços que trazem sempre retrocessos, a maçã de Eva a pedir uma segunda dentada, o cheiro a peixe frito que sobe desde a cozinha, os enfermeiros exaustos que saem de mais um turno, um ministro que mentiu. A isto respondemos com um sorriso, certos de que o convite é tudo menos inocente.
Sorrimos quando o poema se faz termo de utilização do livro, a pedir que seja lido e aceite. Ou quando começa a construir-se a partir do momento em que a página se vira sobre si. Ou, ainda, quando se explica, com calma, numa introdução à poesia. Faz-nos bem, o poema. Este poema de um minuto que nos leva a olhar o céu e a ver num relâmpago um electrocardiograma de Deus, nas unhas roídas luas que nascem dos dedos, no sol que passa exactamente por entre os gargalos das garrafas que estivemos a beber o solstício da amizade. Não conseguimos olhar para a poesia de João Luís Barreto Guimarães sem ver nela a vitalidade de Miguel Torga na sua relação com a terra, a musicalidade de Eugénio de Andrade na sua relação com a alma, a luminosidade de Sophia na sua relação com a vida. A diferença estará nas linhas, não aquelas com que o poema se cose, mas as que se aproximam ou se afastam de uma baleia que deu à praia sem vida, de um quarto de hora numa fatia de pizza ou de uma torneira que administra 30 gotas por minuto na boca do lavatório. Alguém tem de amar o vulgar.
"Jamais te irá libertar. Agora que ela sabe como tu passas os dias (como chegar até ti como se insinuar) virá de dentro do nada (tal um ser mefistofélico) exigindo que a alimentes lhe dês a provar do teu medo. Não te vai abandonar. De pouco vale a luz acesa (a noite inteira na varanda) o volume da TV para bom agoiro num número par. Ela estudou-te à distância qual uma loba faminta que reconhece os seus trilhos (e reproduz os teus gestos) para se acercar de ti. Melhor é deixá-la entrar (sentá-la junto à fogueira) mitigá-la com palavras até lhe domares o nome: Anxietas familiaris."
O leitor (agora mesmo) acaba de virar a página e parece surpreendido elo facto de o poema descrever exatamente o que está a acontecer. Não é extraordinário? Não é desconcertante perceber como o poema vai desvelando a verdade (fluindo de cima para baixo agrilhoando o leitor) conquistando cada linha com versos essenciais esculpindo a mancha gráfica à direita e à esquerda até o leitor intuir (pela aproximação do branco) que o poema está no fim? Não é uma transparência notável?
Escrito com grande simplicidade, sobre o quotidiano, passagem do tempo e sobre coisas comuns que muitas vezes não damos por elas. Muito interessante