“A autobiografia de um poeta obscuro? Ou a invenção poética de uma biografia? Em Photomaton & vox, o ‘eu’ autoral não se distingue das alegorias, homenagens, montagens, imprecações e metáforas apocalípticas que o texto convoca. Em prosa ou em verso, ambos ritmados, vigorosos, magníficos, Herberto Helder fala da sua ilha natal, das experiências-limite, das deambulações europeias, dos seus companheiros de jornada (Hölderlin, Rimbaud, alguns surrealistas, alguns beats), mas fala sempre de outra coisa. Defensor de uma ´radicalização do discurso lírico´, o poeta contesta a realidade vista como documento, a cisão entre o interior e o exterior de uma cabeça, a legibilidade transparente. E por isso faz de cada imagem ´a chave de outra imagem´.” ―Pedro Mexia
Herberto Helder was born into a family of Jewish ancestry in the Portuguese Atlantic island of Madeira. In 1946 he traveled to Lisbon to complete his secondary studies and subsequently in 1948 moved to Coimbra to study Law at university. In 1949 he had changed to the Humanities University to study Romance Philology but dropped out after three years without completing the course. After returning to Lisbon he took up several temporal jobs, and got in contact with a circle of artists and writers such as Mário Cesariny, Luiz Pacheco, João Vieira and Hélder Macedo, known as the "café gelo" group . This group revolved around Surrealism which would inform his early writings. In 1958 his first book, O Amor em Visita, was published. In the following years he traveled and lived in France, Holland and Belgium taking menial and marginal jobs to survive. He returned to Portugal in 1960 and published some of his best books in the following years A Colher na Boca, Poemacto e Lugar, Os Passos em Volta and A máquina de emaranhar paisagens. In 1964 he participates in the organization of Experimental Poetry magazine. After the April Revolution he published Cobra, O Corpo, O Luxo, A Obra, Photomaton and Vox. The singularity of his poetry goes along with the personality of the poet: nowadays he abandoned public life, refusing prizes or interviews.
Estou há mais de uma hora a pensar na crítica estruturada que julgava ter para fazer a este livro. Que bonito e ingénuo pretensiosismo o meu, que ainda acredito ser capaz de remediar a sempre frustrada intenção de me exprimir convenientemente em relação àquilo que me comove... Mas jubilemos, pois acabei de me aperceber de que o que tinha para dizer é, na verdade, muito simples e sucinto:
F***-te, Herberto.
A minha sossegada loucura já se bastava a ela própria.
A book with two very distinct parts, in my opinion: The first part with the first word: Photomaton. A term that determines what the author transcribes for the work: people, objects, sensations and feelings; everything that he has transposed into the reality of everyday life. A second term with a second word: Vox. The words he uses designates what he affirms to be the people's voice—an intervention voice as a criterion of truth. One magnificent work with a stylistic sense of pure taste.
"O que está escrito no mundo está escrito de lado a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória, entra no meu coração como um braço vivo: o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande buraco selvagem — e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações dos membros abertos: e irrompe o sangue das imagens ferozes: as rótulas unidas aos dentes e, como um sexo trilhado: a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura de uma paisagem — uma paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas de luz que se despenharam: porque não há lembrança dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas fotostáticos levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço se entranha na água, e este atelier onde escrevo sobe"
Excerto do poema "vox", Herberto Helder. Cortar este poema, seja por onde for, é como desmembrar um ser vivo... mas não resisti ao impulso de colocar aqui um brevíssimo excerto para que outros leitores possam (re)entrar na poesia de Heberto Helder... por mais vezes que releia este "vox", sinto-me sempre arrebatada como se nunca o tivesse conhecido. É amor à primeira vista, insuflação de vida, despertar de sentidos que há muito pareciam estar adormecidos...
acabei isto há bocado e tive imediatamente de começar um novo, para fingir que este não acabou. vou andar com isto no fundo da mala durante meses, reler passagens como uma espécie de bíblia pessoal; consumir quantas vezes conseguir as palavras de um poeta com o qual, depois disto, me identifico tanto. deve ser qualquer coisa que anda misturada na água madeirense desde os anos 30. tenho um heterónimo que acabou de ganhar um novo ídolo, um ídolo imenso, e acho que nunca vou recuperar disso.
Herberto Helder é hipnotizante. Tem uma prosa muito poética e caracteristicamente portuguesa. Particularmente preferi os contos dele, mas todos o conteúdo desse livro é bom, e, por óbvio, carrega características da escrita/estilo do autor. Admito, também, que não é uma leitura fácil, apesar de super interessante. Alguns temas ilustrados no livro, como o "eu" autoral e parcialmente alegórico, são naturalmente confusos e o autor consegue não só complicá-los, mas prolongá-los com destreza. Enfim, é uma leitura que exige atenção.
Uma interessante incursão pelo mundo de Herberto. Acima de tudo funciona como exercício sobre o artista, não necessariamente o poeta, e o exercício da sua arte. São visíveis as marcas de um Mundo em mudança, mudança essa que até na expressão se manifesta. A melhor recensão do livro é dada pelo próprio autor no texto antropofagias:
"Esses textos não são «poemas». As razões por que se não pretendem eles poemas encontram-se nas razões de pretenderem ser outra coisa. Decerto: pequenas paisagens polémicas, também. Uma intenção bravia de negar. Procuram encontrar «algo» mas talvez não encontrem. «Desencontram» contudo certas noções e sentidos. Põem-se a acompanhar, com modos seu quê desabridos, o ano de 1930, atravessado por uma frase (auto-complacente) de Borges: «A literatura é uma arte que sabe (...) enamorar-se da sua dissolução e encontrar o seu fim.» O fim estava encontrado talvez desde o começo. Felizmente. Agora ocupamo-nos nos apocalipses, e principia a perversa alegra de escrever mal, o gosto de coçar. Estamos a pôr não precisamente o problema do suicídio, a nivel de linguagem, mas a ver o suicídio de vários lados. Inventariamos o suicídio, a sua área total. São textos de crítica, claro. Mas, com licença, desarticulados. Mal se pode pegar neles. Caem aos pedaços. Outra coisa: isto não é bem sair do silêncio, encontrar-se «a escrever», não é bem o desejo de mau gosto e desorganização. Será já um pouco «o outro lado»? Também não se vai tornar «novo» evidentemente. De qualquer modo, fez-se um percurso que cabia fazer. O que afinal pouco importa. Chama-se apenas a atenção para certa festividade destrutiva. Abunda em tudo isso alguma alegria antropofágica. Esse canibalismo dançante não comporta (extensamente) legislação mas (que diabo!) tem o seu ritual. Enfin, «desestuda-se» o que se pode. Pode pouco? Também se fala das tiranias da liberdade, liberdades. Mas nem uma palavra sobre política. Estranho. Concluindo: o homem é uma linguagem, e o tema é a agonia da linguagem.. Estilo proximamente canibal. Péssimo. Formulações erráticas sobre linguagem para uso indeterminado, como aliás se deve dizer para que os outros digam ou também provavelmente contradigam. Dizê-lo é, claríssimo, uma maneira de dizer. Quanto a poemas, escrevi-os em prosa, noutro tempo, numa fugida paisagem. (Depois excluí-os). Escrevo agora, ali, prosa quebrada com aparências poemáticas. Por causa de um sentido «rítmico porque sim». Tomo a liberdade dessa licença. E não me creiam, pois o erro está no coração do acerto."
Se queres te encher de poesias cultura e sem dúvida o livro certo para ti. Com uma escrita fabulosa é um humor subversivo. Neste livro encontramos textos numa prosa poética e ensaísticos que só podemos encontrar no trabalho deste Poeta.
O que está escrito no mundo está escrito de lado a lado do corpo – e tu, pura alucinação da memória, entra no meu corpo como um braço vivo: o dia traz as paisagens dentro delas, a noite é um grande buraco selvagem – e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações dos membros abertos: e irrompe o sangue das imagens ferozes: as rótulas unidas aos dentes e, como um sexo trilhado: a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura de uma paisagem - uma paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas de luz que se despenharam: porque não há lembrança dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas fotostáticos levitando - a loucura está tão próxima que o meu braço se entranha na água, e este atelier onde escrevo sobe dos precipícios curvos, forte desde o fundo: aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela à púrpura das madeiras, aos lençóis ofuscantes cheios de sangue, de água magnetizada - e esta sala brilhando apoia-se às espáduas, e em baixo a queimadura dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto plantado em sua estaca de sangue como uma grande veia animal - eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se no remoinho da garganta - e levanto a mão e explode cinematograficamente a imagem da própria mão afogada - porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra do corpo cerra-se sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre como uma chama por toda a casa - ceifem-me os cabelos à luz panorâmica: e nas raízes sangrentas a cabeça queima-se como a lua queima as roupas levantadas - o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra aumenta exposta às mãos como outra mão de carne larga - esse osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam como se corta a noite com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz, na terra, num incêndio completo, enquanto ceifam: porque há uma cabeça no centro do choque do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias sem fracturas: a cabeça que vê e cheira e que se abre e fecha e ouve e refulge e morde e come depressa e respira para dentro e para fora - e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas - a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade entre as unhas, labaredas, um puro génio mundial - tudo como uma forma límpida, sutura do coração, uma leveza tremenda no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida - as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam na queimadura da paisagem: uma visão cerrada pela força: e um cometa desentranha-se da branca carnagem das memórias, fervendo entre axilas e falangetas como um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras - o que se lembra e pulsa: fibras vivas de uma vara embrenhada no meio da água, e à volta os planetas oscilam como folhas cantando desde o abismo - os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem profundamente o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose o coração aos pedaços de carne, entre orifícios negros, ressacas fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
Walpurgisnacht
Eu não durmo, respiro apenas como a raiz sombria dos astros: raia a laceração sangrenta, estancada entre o sexo e a garganta. Eu nunca durmo, com a ferida do meu próprio sono. Às vezes movo as mãos para suster a luz que salta da boca. Ou a veia negra que irrompe dessa estrela selvagem implantada no meio da carne, como no fundo da noite o buraco forte do sangue. A veia que me corta de ponta a ponta, que arrasta todo o escuro do mundo para a cabeça. Às vezes mexo os dedos como se as unhas se alumiassem. Mas nunca durmo entre os meus braços pulsando como grandes carótidas que alimentem a beleza e rapidez do rosto sobre músculos fechados. Enquanto o sol rompe as membranas dos espelhos: não danço, não durmo, não respiro mais que a terra esquartejada pelas chamas lunares. Não trabalho tanto como no verão o sangue sob o pelo baixo dos animais, a elegância violenta, o alimento. Há dias em que as mãos se movimentam por si, mal tocando nas fendas o tremor hirsuto de um cometa cravado desde as costas aos lençóis. Nunca sei onde é a noite: uma sala como uma pálpebra negra Separa a barragem da luz que suporta a terra. - Agora, a fundura de uma lavoura área, o folego, uma pedra com o meu tamanho coberto de poros, de tendões a ligar arquipélagos límpidos na penumbra. Estes, os obscuros fulcros da loucura. Alguém devia tocar-me para sentir que estou vivo, que sou uma estaca atravessada pelo sangue, e dela rebentam por exemplo: áscuas. Isto é uma fabrica de demência: palavras onde se manobra a purpura, onde o aroma que mata ascende de jardins construídos levemente na escuridão. E uma imagem fecha tudo o que se fecha: quartos, dias sobre si mesmos, as frutas redondas por força da doçura interna. Quando as vozes ferozes se desengolfam, a terra move-se como um músculo encharcado entre a boca e o coração que não dorme nunca. – E todas as minhas vísceras são inocentes.
Uma obra poética diferente da norma, onde o surreal e as perturbações do Homem se encontram num jogo político de palavras e referências a outros pensamentos da Humanidade.
I've read lively and wild passages from this writer, but here, I'll probably be averse to this kind of language, most of the time I felt like I was reading a technical book.
Livro muito bom para quem gosta de explorar a mente de quem o escreve. Ao ler o livro Herberto usa uma espécie de ironia metafórica que nos leva a momentos de comicidade que contribuem ainda mais para a individualidade do livro.