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Comunidade

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À Comunidade, estendida na cama, vê-se-lhe o peito subir e descer, está viva. Seio nu, moleirinha latejante, Lina, Paulo Eduardo, são peças do mecanismo uno e orgânico. Cresce o texto, alimentado pela vida da Comunidade, alimentação recíproca. Brota a vida de dentro dos corpos, respira por cinco pulmões, quatro corações jovens, segura-a uma mão-âncora de carne. O corpo é uma coisa tão velha como a humanidade, não há que escondê-lo, começa aí a liberdade. A miúda deitada de punhos cerrados já a adivinhar ideais.

26 pages, Mass Market Paperback

First published January 1, 1964

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About the author

Luiz Pacheco

56 books59 followers
Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco foi escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura.
Nasceu em 1925, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, numa velha casa da Rua da Estefânia, filho único, no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão.

Desde cedo teve a biblioteca do seu pai à sua inteira disposição e depressa manifestou enorme talento para a escrita. Estudou no Liceu Camões e chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi um óptimo aluno, mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego.
Desde então teve uma vida atribulada, sem meios de subsistência regulares e seguros para sustentar a família crescente (oito filhos de três mães adolescentes), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues, indo à Sopa dos Pobres. Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto "Comunidade", considerado por muitos a sua obra-prima.

Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista. Denunciou, de igual modo, plágios, entre os quais o cometido por Fernando Namora em Domingo à Tarde e sobre o romance Aparição de Vergílio Ferreira.

A sua obra literária, constituída por pequenas narrativas e relatos (nunca se dedicou ao romance ou ao conto) tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamaria de corrente "neo-abjeccionista". Em "O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor" (escrito em 1961), texto emblemático dessa corrente e que muito escândalo causou na época da sua publicação (1970), narra um dia passado numa Braga fantasmática e lúbrica, e a sua libertinagem mais imaginária do que carnal, que termina de modo frustrantemente solitário.

Alto, magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas usadas (por vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho), hipersensível ao álcool (gostava de vinho tinto e de cerveja), hipocondríaco sempre à beira da morte (devido à asma e a um coração fraco), impenitentemente cínico e honesto, paradoxal e desconcertante, é sem dúvida, como Pícaro, personagem literário, um digno herdeiro de Luís de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.

Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado em 2006 para casa do seu filho João Miguel Pacheco, no Montijo e daí para um lar, na mesma cidade.

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2 (<1%)
Displaying 1 - 29 of 29 reviews
Profile Image for Carlos Natálio.
Author 5 books44 followers
November 14, 2018
Pergunto-me se será possível acabar de ler "Comunidade" e não ficar embasbacado, todo a tremer? Do murro na tromba, da felicidade por ter encontrado uma jóia como esta, uma obra-prima da literatura. De toda a literatura. Esqueçamos o batatal da nossa pequena existência e o à beira mar plantado. Ainda não sei o que me empolga mais. Por um lado, o sentir-me entrar naquela cama como uma entrada de rei no espaço de toda a humanidade - um livro que nos aproxima, a todos, um a um. Como se todo o espaço que nos liga fosse pouco, juntos, amontoados nas certezas daquilo que dá gozo na vida. Por outro lado, a forma como Pacheco nos mostra isso através do seu toque de Midas: convertendo o simples em opulento, a simplicidade em riqueza, o jacto de vómito, de merda, de mijo, nos líquidos literários da autenticidade, do que faz respirar, tremer, apreciar tudo isto. "C* estou vivo!" É isso que me apetece dizer depois de ler "A Comunidade".
Profile Image for Katya.
485 reviews2 followers
Read
February 21, 2022


Los pobres a orillas del mar, Pablo Ruiz Picasso, 1903



"...a literatura, a quem muito,
sofregamente lê, dá isto: comparações para tudo, referências
imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram
inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa de todos os
dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente
dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver;
antes a figurar-se. Permite, talvez, uma certa coerência (interior)."
7



Luíz Pacheco é a figura de culto portuguesa por excelência. Curiosamente, a sua obra está hoje maioritariamente esgotada e não parece sentir-se grande interesse por parte dos leitores - fora as restantes implicações de herdeiros - em fazê-la reanimar. Talvez porque o senhor já cá não anda para liderar o circo. O que não compromete o aproveitamento de uma imagem de maudit que, honestamente, já me seduziu mais do que hoje tem capacidade de fazer.

Pela amostra, Pacheco é um escritor gutural, hiperbólico, corrosivo e maravilhosamente enternecedor. Confesso que A Comunidade não é um texto que me encha de admiração, mas o engraçado é que dei por mim a sorrir a cada parágrafo, a cada linha, a cada palavra... O retrato traçado é duro, seco, mas profundamente terno.

Luiz Pacheco não soa político como frequentes vezes o fazem parecer; não parece uma pessoa real; parece um personagem criado por uma qualquer mente um tanto quanto perturbada que gosta de fazer a sua criação passar uns maus bocados e sair deles com rótulo de doido.

Não é o meu tipo de literatura (e de personagem), mas tem momentos belíssimos.



"Tenho pena, ah como eu tenho pena!... dos que precisam de inventar coragem para um novo dia, certezas, certezinhas, obediência a religião ou rotinas, de inventar-se comodidades necessidades ou ilusórias vaidades de levar melhor vidinha (ceguetas todos eles aos limites da humana criatura para todos e de repente o coveiro), razões para estar e lutar além destas, tão simples afinal e misteriosas sempre, tão naturais e primitivas: uma rapariga nossa que amamenta o filho, duas crianças que pedem pão e olham para ti."
31
Profile Image for Marta Xambre.
252 reviews29 followers
July 9, 2021
Quando leio um livro que me toca na alma e me enche o coração desde a primeira palavra até à última, é pois, para mim, uma grande obra.
A forma como o autor escreve, o jeito com que expressa sentimentos e opiniões, a sua frontalidade, a sua família, a sua jangada... Tudo tem o seu encanto.
A mensagem deste livro é tão, mas tão forte, dotada de uma rutilância que se estranha, mas que se entranha, e de uma franqueza, por vezes tão acutilante....
A família... Ai a família...
A sociedade... Os outros...
Os filhos....
As mulheres....
O Eu .. A vida...
Com metáforas, hipérboles, eufemismos e tantos outros recursos expressivos o autor faz da prosa poesia.
Não sei o que escrever mais, pois não tenho mais palavras...
Por isso deixo aqui algumas do Luiz Pacheco
"Sei (e não me esqueço) que eles, fora de mim, pedaços de mim repartido, têm corda própria e seguirão seus rumos por esse mundo (...) É a Lei. A flor não pergunta à abelha para que lhe rouba o pólen.
(...)
E enquanto dormem a meu lado, eu olho-os e descrevo-os para os fazer mais meus, para que mos vejam como eu quero. Olho-os e estou vivo."
Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
June 20, 2016
Prosa ou Poesia?
Ficção ou Realidade?

Profundo e Belo!

”Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente variada nesta Viagem."
Luiz Pacheco, Comunidade
Profile Image for Nelson Zagalo.
Author 15 books466 followers
December 23, 2020
Um pequeno livro que é do mais intenso que podemos ler em português, pelo modo como fala rente à carne, à "máquina" humana como lhe chama Luiz Pacheco. É um exercício de forma, mas consegue elevar-se e transcender a mesma para nos tocar, nos fazer sentir o que é ser-se um ser feito de carne, pele, curvas, fluídos e estar-se vivo. O calor do toque, da proximidade, da carne humana é aqui o centro da peça.

[imagem: https://virtual-illusion.blogspot.com...]
Desenho de Teresa Dias Coelho, publicado no livro "Comunidade" (1964), sexta edição (1980:31)

Se o livro nos impressiona e as ilustrações ajudam na atmosfera, ler as palavras do filho de Luiz Pacheco, em entrevista com Anabela Mota Ribeiro para o Público em 2015, faz toda a obra ganhar uma densidade ainda maior:

"Estou lá, é o meu nascimento. Aquilo é a minha terra. Tive cinco famílias de acolhimento, dezenas de casas. Não tenho nenhum sentimento de pertença a uma terra. Quando pergunta onde é a minha terra, é aquilo. Naquele texto está tudo o que é relevante."
Paulo Pacheco, in Público 2015

Vale a pena ler o resto da entrevista para compreender melhor quem era Luiz Pacheco, de onde veio, como viveu, como passou pela vida.

Não se compreende como uma obra destas não se encontra à venda e em múltiplas edições de qualidade, ou não é mais discutido na cena nacional. Ainda que se perceba que o sentimento ali plasmado possa não agradar a uma certa elite, o texto tem um enorme alcance e merecia maior apreciação da nossa parte.

Publicado no VI: https://virtual-illusion.blogspot.com...
Profile Image for tiago..
465 reviews135 followers
April 12, 2022
Comunidade destoa um pouco daquilo a que Pacheco me tem vindo a habituar; que é, regra geral, um digressar sobre javardice pura e libertinagem (e que bem que ele o faz!) - na verdade, um pouco fino verniz sob o que se oculta uma solidão aguda e um profundo desejo de conexão com o mundo. Mas neste texto, como disse, outra cantiga se canta; e essa crise que subjaz obras como O Teodolito e O Libertino Passeia por Braga resolve-se aqui numa celebração da vida familiar, daquilo que nos liga uns aos outros. Porque, como também parecia dizer Pacheco nesses outros dois textos (ainda que, talvez, só aqui chegados o possamos compreender plenamente), só na louca impossibilidade de transvasarmos os nossos próprios limites é que podemos viver: só para os outros e nos outros podemos viver. E, para Pacheco, toda a sua eternidade se encontra contida nos limites de uma exígua cama, onde se apertam os corpos da mulher e dos seus filhos.
Sei (e não me esqueço) que eles, fora de mim, pedaços de mim repartido, têm corda própria e seguirão seus rumos por esse mundo, cada vez mais distantes e dispersos, indiferentes à origem, cada vez sabendo menos de mim, comigo vivo ou morto. É a Lei. (...) Sinto obscuramente porém com que certeza, que sou o elo duma cadeia eterna, a começar sabe-se lá onde ou quando, a findar talvez nunca mais, e que não a traí; submisso à Lei. Alegre e cheio de pavor. Tocando com as mãos, tão perto! a carne que me continua.

Pinta-se aqui um belíssimo quadro de felicidade, fazendo boa prova de que, tal como dizia Ursula K. Le Guin, nem só a dor é intelectual, só o mal interessante. E, como sempre, esta combinação de um lirismo sem excesso de ornato com uma franqueza absoluta dá um resultado deslumbrante. É verdade que Luiz Pacheco já não se edita. Mas possa a vida - contra toda a probabilidade! - continuar a a trazer-me mais e mais destes seus textos.
Profile Image for misael.
395 reviews33 followers
May 7, 2024
Nem eu me atreveria a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros — espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.
Profile Image for António.
121 reviews6 followers
November 22, 2023
Há coisas (na falta de melhor termo) na vida que temos dificuldade em colocar por palavras. Momentos, situações e até leituras. A experiência é de tal modo arrebatadora ou paralisante, que não conseguimos captar a sua essência de forma a transmitir a terceiros. Neste caso, temo não estar à altura de fazer justiça a este "Comunidade" de Luiz Pacheco.

Antes de mais, um ponto prévio. Luiz Pacheco deve ser uma das figuras mais interessantes e excêntricas da literatura portuguesa. Era assumidamente bissexual. Promovia a libertinagem e boémia, apesar de viver muitas vezes na miséria. Passou pela prisão, por envolvimento com raparigas menores. Temido critico Iliterário, fundou a Contraponto, publicando autores como Vergílio Ferreira, Natália Correia ou Herberto Helder. Acima de tudo, era um espírito livre, não se submetia a jugos, nem prestava vassalagem. Era ofensivamente frontal e desconcertante. Parece-me importante falar da figura ímpar porque este é um conto autobiográfico.

Há livros que parecem conter em si uma espécie de energia vital. Um pedaço de vida que fica agarrado às letras. "Comunidade" tem uma escrita crua, mas poética e incrivelmente bela. Toca-nos naquela ínfima parte do nosso ser. Tem o toque da carne, o sabor de lágrimas e o cheiro de suor. Uma narrativa que pode ser chocante porque é real, mas bela porque é humana. Um livro genuíno, da primeira à última letra.

Tudo se passa numa única noite, com uma família de cinco a partilhar a mesma cama. As horas vấo passando ao ritmo das reflexões sobre a vida, sobre a sua vida e sobre quem é. Quando chega a aurora, os primeiros raios de sol iluminam o que realmente importa com clarividência impressionante.

Leiam. Não vou pedir. Sou eu que vos estou a fazer um favor e sei que me vão agradecer no final. (Imagino que Luiz Pacheco pudesse dizer algo assim).
Profile Image for Valdemar Gomes.
334 reviews37 followers
June 11, 2015
Comunidade

Epá, belíssima obra, da maiúscula ao ponto. Prosa poética contingente ao meu estilo de escrita, ou para parecer mais modesto, ao meu gosto! Cada parágrafo defende uma ideia forte, cada frase tem um pensamento marcante, e cada palavra escreveu-se tal e qual como penélope teceu. Vagarosa mas ardentemente. Como um despertar. Como a vinda da Primavera, que lentamente incendeia o céu de madrugada.
Profile Image for Ricardo.
38 reviews13 followers
August 5, 2017
Sem a dignidade do sangue quente que gira pelas veias e artérias, ora escuro ora mais oxigenado,
mas com a gravidade do que esguicha, raivoso, ou escorre, devagar, delicado, das feridas, sangue que vem lá de dentro do corpo com uma força definida, uma coisa a dizer, um sintoma a revelar. Uma voz,
se preferem.

102 reviews17 followers
November 17, 2021
Uma ode à família, escrita de forma "crua" e intensa:

É um bebé, apenas um bebé. Um igual a tantos, ao que já fomos, e chora e borra e mija e mama como todos os bebés. Mama como quem está a puxar a vida do corpo da mãe, vida quente e docinha, tão fácil! tão gulosa!, para dentro dele. Caga e mija como quem ri do mundo, do muito que nele há pra a gente rir, misérias e tristezas, aleluias e horas de prazer, que tudo vale o mesmo e tudo é o mesmo fumo e tem o mesmo fim. Chora como quem já sabe isso.

Tenho a certeza que se um dia vier a ter uma família (entenda-se mulher e filhos), irei ler este livro com ainda maior apreço.
É uma pena que uma obra como esta seja de tão difícil acesso. Conhecer este livro foi também ficar a conhecer uma personagem muito particular e icónica do panorama literário português, sobre a qual deixo um link para os curiosos: https://www.youtube.com/watch?v=rBoh6...
Profile Image for João Pedro.
4 reviews
March 29, 2021
Se é para ler o homem das edições piratas, que seja ela mesma uma edição pirata. Das coisas mais bonitas que já li.
Profile Image for Helena Sardinha.
94 reviews4 followers
October 5, 2021
“Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.”
Profile Image for Sonia Almeida Dias (Peixinho de Prata).
682 reviews30 followers
January 28, 2018
Um livro provocatório e ao mesmo tempo muito interessante, a que não se consegue ficar indiferente. Cada frase nos dá motivos para pensar e as ilustrações de Cruzeiro Seixas que o acompanham são também belíssimas.
Pequeno mas poderoso.
Profile Image for Andreia Santos.
84 reviews
June 18, 2021
“Tenho pena, ah como eu tenho pena! dos que precisam de inventar coragem para um novo dia, certezas certezinhas, obediência a religião ou partido ou rotinas, de inventar-se comodidades necessidades ilusórias vaidades de levar melhor vidinha”
Profile Image for Betty Blue.
4 reviews4 followers
July 7, 2021
The most incredible and beautiful text ever written in Portuguese.
Profile Image for Miguel.
66 reviews16 followers
Read
August 22, 2023
Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. Às vezes, muitas vezes, beijos e abraços. Às vezes, palavras duras, definitivas, a luta dos indivíduos (a morte ou a vida), e chacotas pelos fracassos de cada um, e arremessos de mau génio, e vampirismo, pois então. Somos puros. E que falta nos fazem lençóis, fronhas, almofadas? Os cobertores, quando os há, estão enegrecidos e com manchas, cheiram ao chichi das criancinhas, quando não a coisas que eu não digo. Mas abrindo a janela, que contraste de perfumes com o ar lavado que vem dos montes da Serra de São Luís! com a florescência das árvores da Avenida!


Mas a minha força é grande. Respiro ao mesmo tempo por cinco pulmões; quatro corações jovens (certeiros e cheios) com muitos anos de corda para badalar, batem ao lado do meu dão-lhe ânimo e companhia, eia! sus! avante! para mais uma jornada. Um grito, um riso, um gemido, um bafo abafado na roupa, uma conversa entaramelada que tento perce-
ber do Luís José que se julga (calculo) a brincar na rua com a malta, felizardo ou infeliz, o pátio de recreio dele é uma cidade inteira - eu olho, comparo, medito, aflijo-me, respiro pior tomo aminofilina respiro melhor, duvido, estremeço, dão-me arrepios e aposto: no futuro, amigos, no futuro! que são eles. E deito contas, arrelio-me, barafusto, dou bofetões, pontapés (de que logo me arrependo, mas a biqueira do sapato já encontrou um rabo), procuro criar um tanto de ordem na desordem, porque não se pode viver no caos, sem uma saída para o transcendente, o Supremo Bem que me preocupa são eles, os bambinos, a minha imortalidade, frágil, incerta, tão precisada por ora de mim e eu tão atormentado e cansado, gasto, velho por dentro e por fora (um velhote), mas orgulhoso dela, mas apostando neles tudo quanto posso, tudo quanto tenho, a minha imortalidade serão talvez eles e mais nada, talvez estes, aqui apertados nesta cama gingona, encalorados ou friorentos mas felizes, pedindo pão a rir, inocentes mas felizes porque a miséria ainda os não roeu na alma, a minha imortalidade tão pequenina e discreta, serena dormindo agora, - três setas apontadas: aonde? e até quando? e contra mim ou não, e porquê? mistérios estes que nem o Filósofo Maldonado Gonelha, de Setúbal, será capaz de explicar. Alvo incerto como a nossa trajectória, e tudo estremecente de vida, ondulante e diversa.
Profile Image for João Picanço.
25 reviews2 followers
August 2, 2023
A sério, eu tenho andado a ler tanta coisa, que já nem sei bem o que li desde a última publicação aqui. Mas isto aqui eu sei que li pela segunda vez, e pela primeira num livro a sério. O meu exemplar é de uma colecção - que receio até ser uma colecção pirata - com várias obras, numa encadernação de papel muito simples e com belas ilustrações aqui e ali. Acho que soube melhor agora do que há dez anos, quando li pela primeira vez. É dos melhores textos escritos em português desde, sei lá, o Eça ou o António Nobre ou o Júlio Diniz. Ou Torga, ou Pessoa ou Sá Carneiro, vá. Para não parecer assim um snobe que acha que o Mundo literário perdeu o interesse depois do século 19. Detesto essas pessoas. Este livro é bom e lê-se muito rápido. É um texto mesmo muito lindo. Tentem arranjar umas colecções piratas ou então, se forem pessoas sem coração nem dinheiro, leiam num PDF. É que o livro já não se publica e se o quiserem fazer custa 1250 euros. Um livro. 40 e tal páginas. 1250 euros. Eu também não acreditei quando me disseram.
Profile Image for Joel.
111 reviews3 followers
June 18, 2025
`` Tenho pena, ah como eu tenho pena!... dos que precisam de inventar coragem para um novo dia, certezas certezinhas, obediência a religião ou partido ou rotinas, de inventar-se comodidades necessidades ou ilusórias vaidades de levar melhor vidinha (ceguetas todos eles aos limites da humana criatura que é para todos e de repente o coveiro), razões para estar e lutar além destas, tão simples afinal e misteriosas sempre, tão naturais e primitivas: uma rapariga nossa que amamenta o filho, duas crianças que pedem pão e olham para ti.''

Um pequeno texto que pode (e devia) ser lido na íntegra, por exemplo, aqui: Comunidade
Profile Image for Vítor Leal Leal.
Author 1 book3 followers
January 17, 2025
“E enquanto dormem ao meu lado, eu olho-os e descrevo-os para os fazer mais meus, para que mos vejam como eu quero. Olho-os e estou vivo.”

Comunidade, é o melhor conto que li (o Tchékov que me perdoe apesar da idolatria). A vida toda condensada numa cama, e da miséria faz-se esplendor. Está tudo lá: “Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem.”. Um texto de génio. Universal.
Profile Image for Inês :).
23 reviews
April 26, 2025
Very short and introspective. The writing is good, but very vague. It’s so vague that I think it would take a very specific kind of person to truly like this book. The illustrations in the edition that I read were beautiful, tho. And I can recognise that maybe I’m just not mature enough to fully understand and enjoy this book.
Overall, just not for me.
Profile Image for Miguel Pereira.
22 reviews1 follower
July 4, 2025
gosto destes livros fininhos que não exigem muito de mim, mas que nos marcam imensamente. obrigado luiz pacheco
Profile Image for Pedro Areal.
11 reviews5 followers
March 8, 2016
Um livro que não celebra a miséria, mas demonstra que mesmo aí a felicidade é possível, intensa. Uma obra prima.
Profile Image for Bárbara Sofia .
86 reviews
November 6, 2025
Gostei tantoooooo.
É extremamente poético.
Estou há 10h presa neste pequeno livro (só de dimensão). É por isto que estudo literatura, é por isto que amo ler.
Profile Image for Esforçonulo.
142 reviews5 followers
December 3, 2024
fez muito bem o herberto em ir-lhes às trombas.

EDIT: tentei reler e era ainda pior do que me lembrava. escrevia bem para cegos.
Displaying 1 - 29 of 29 reviews

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