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Patologia Social #1

O Barão de Lavos

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"Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vesgastadas do noroeste, impunham um tremilhar inquieto. Quinta-feira – noite de cabriolas com um sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento."

Texto segundo o Novo Acordo Ortográfico.

448 pages, Paperback

First published January 1, 1891

6 people are currently reading
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About the author

Abel Botelho

20 books6 followers
ABEL BOTELHO nasceu em Tabuaço, a 23 de Setembro de 1856. Oficial do Exército, deputado republicano, senador, académico e diplomata, romancista e dramaturgo, a sua obra literária situa-se na encruzilhada do naturalismo e decadentismo e pode, a esse título, considerar-se exemplar. Entre 1891 e 1910 publicou, sob a designação genérica de «Patologia Social» cinco romances – O Barão de Lavos, O Livro de Alda, Amanhã, Fatal Dilema e Próspero Fortuna –, que ainda hoje surpreendem pela ousadia dos temas abordados e pela solidez da construção. Por sua vez, nos contos de Mulheres da Beira (1898) encontram-se algumas das melhores páginas do naturalismo rural português. Usou, como poeta e dramaturgo, o pseudónimo de Abel Acácio. Faleceu a 24 de Abril de 1917.

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4 (10%)
Displaying 1 - 11 of 11 reviews
Profile Image for João Sá Nogueira Rodrigues.
151 reviews4 followers
September 25, 2020
Primeiro que tudo pensar que em 1891 foi publicado,em Portugal,um livro sobre homossexualidade já é algo de extraordinário e pensar que mais de cem anos depois continua a editar-se o livro, torna-o de leitura obrigatória!
Sinceramente fiquei fascinado com o livro!!!As personagens, principalmente a principal, conseguem ser asquerosas e quase odiosas,mas ao mesmo tempo acabam por entrar numa zona de herói/vilão que só mostra a capacidade de escrita do autor!
É uma crónica de época, é um estudo psicológico, acaba por ser um paralelismo entre a humanidade do século XIX e a do século XXI... Excelente livro que aconselho vivamente a qualquer leitor! Aconselho que o leiam de mente aberta, porque independentemente da figura de um pederasta (às vezes quase pedófilo) ser de todo execrável,o certo é que a história é realmente bem construída!5 estrelas sem a mínima dúvida!
Profile Image for Daniela Reis.
97 reviews8 followers
December 3, 2017
Em conjunto com outros quatro, O Barão de Lavos pertence a uma série escrita por Abel Botelho e denominada Patologia Social, a parte da sua obra que representa o Neo-realismo, ou seja, a observação fiel da realidade e caracterização de fenómenos sociais que eram comuns na época. Neste caso, o pano de fundo será Lisboa, a capital de Portugal e cidade de maior prestígio. Os temas predominantes neste conjunto de livros são a homossexualidade, a prostituição, luta da classe proletária, o adultério e a política.

Centra-se na história de Sebastião de Castro e Noronha, o nosso protagonista e Barão de Lavos. Excêntrico, nobre e descendente de duas das famílias mais influentes do país, tem a obsessão de encontrar o corpo perfeito e de o desenhar, procurando em zonas apinhadas de gente, como é o caso do circo.

Continua em:
http://menteliteraria.blogs.sapo.pt/o...
Profile Image for João Roque.
345 reviews16 followers
March 7, 2015
Neste livro o maior interesse assenta na descrição de uma sociedade lisboeta do final do século XIX, e descreve-a bem tanto na classe alta, como também nalguns pormenores da classe pobre.
No entanto a escrita torna-se demasiado rebuscada numa autêntico delírio barroco de descrições quer de pessoas, locais ou simples situações.
De realçar que não é fácil na altura em que o livro foi escrito, anos 80 do século XIX, ver um autor falar de assuntos tão ousados para a época, mas sem nunca chegar, nem de perto nem de longe à pornografia.
Profile Image for Ricardo Alves.
99 reviews18 followers
December 12, 2017
Publicado em 1891, tem, naturalmente, uma abordagem datada da homossexualidade, entendida pelo modo naturalista da degenerescência biológica (consaguinidades e dissoluções várias) e comportamentos desviantes propiciados pelas obsolescências sociais (por exemplo, a educação ministrada em seminário jesuíta).
No entanto, para além do lugar-comum do preconceito e do estado da arte da sexologia, «O Barão de Lavos» é sem dúvida um notável exercício de perscrutação psicológica ensaiada na personagem D. Sebastião Pires de Castro e Noronha, o titular do romance.
Romance que tem um pouco d'«O Primo Basílio», embora esteja simultaneamente aquém e para além dele. Para o pior e para o melhor, Abel Botelho não é Eça de Queirós: Militão compete com Acácio, mas não lhe ganha em estupidez; Doroteia emula Juliana, mas não lhe alcança a malignidade; Elvira, a baronesa, menos cândida que Luísa, por isso mais desce e melhor se safa.
Nada no «Primo«, porém , bate a execração atingida pelo Barão. E se a amizade em alto grau também está presente no romance queirosiano (Sebastião, amigo de Jorge), no romance de Botelho atinge um alto significado ético, nas figuras de Paradela e do Marquês de Torredeita, não faltando ao Barão de Lavos, mesmo quando este chafurda na maior abjecção.
Quanto ao estilo, apesar da pecha de escola naturalista da hiperdescrição, o livro não é daqueles em que o autor mais abusa e, em compensação, exibe passagens de grande beleza estilística e conceptual.
Profile Image for Jose Garrido.
Author 2 books23 followers
September 19, 2023
Mesmo concedendo o desconto 'devido' à antiguidade da obra, O Barão de Lavos, é um livro maçador.
Não basta ser 'inovador', na temática, para conseguir um bom livro. Aliás, sem querer polemizar diria que a 'inovação' é muito relativa. A estória segue uma estrutura típica da época, previsível e monótona, moralista mesmo, numa espiral decadente.
Melhor, se recorrermos ao simplismo da análise de Vonnegut, aqui temos a narrativa que se pode representar como uma 'barra invertida'. O protagonista começa 'feliz e contente' e a partir daí a sua queda só termina com a morte, na última página.
Note-se que não são pecados próprios da época da publicação. Há excelentes obras escritas naquele período.
Não me convenceu.
Profile Image for tiago..
474 reviews131 followers
January 23, 2023
É verdade que O Barão de Lavos, largamente esquecido para os leitores do século XXI, tem alguns poucos leitores hoje em dia sobretudo por ser o primeiro livro em língua portuguesa a por a homossexualidade em primeiro plano; mas é também verdade que não o faz de forma simpática. Muito pelo contrário; ressuma desprezo. Vestindo a jaleca de médico e o discurso mais pomposo que lhe é humanamente possível, Abel Botelho dedica-se neste livro a analisar as causas de semelhante aberração (palavras do autor), estudar os processos pelos quais se desenvolve.

E o pior é que nem discordo do autor quando ele diz dos comportamentos do personagem serem aberrativos porque, e isto ele torna bem claro, homossexualidade e pedofilia são coisas que vão de mãos bem dadas. O nosso personagem principal é portanto, mais que pedófilo, pederasta. E como todos os personagens deste livro, é vilão mais unidimensional que o de um filme da Disney.

Mas isto, disse-se, é afinal um livro científico. Analisamos as origens da aberração: e as origens, sem falha, tem que ver - como não! - com o sangue, a raça, o antepassado de há trezentos anos que era bastardo e poluiu o sangue da família. Viva a eugenia!

Culpo um escritor do século XIX por uma homofobia que era então a norma, ou por discursar sobre teorias eugénicas que eram tidas por ciência fixa nesse século? Evidentemente que não. Mas isso não quer dizer que o livro seja saboroso de engolir.

Além disto, palavras não descrevem o tédio inenarrável que me produzem os parágrafos e parágrafos e parágrafos e parágrafos de descrição que de pouco ou nada serve. Ainda que isso dificilmente seja problema exclusivamente seu; sobretudo, neste século de calhamaços.

Isto dito, quem quiser ler o livro diagonalmente e conseguir ignorar o preconceito enraizado consegue uma leitura entretida, ainda que dificilmente consiga, seja porque prisma for, ver neste livro uma obra-prima. Da minha parte, garanto que regressa à estante, de onde não devia ter saído, a ganhar pó. E que lá fique por muitos séculos.
Profile Image for Klissia.
854 reviews12 followers
January 17, 2022
Obra neorealista portuguesa da série "patologia social" escrita por Abel Botelho na década de 1891,que vai retratar a "degeneração " de um homem aristocrata homossexual, que tenta conciliar a dupla vida de um homem da sociedade respeitado com a de um homem que sente desejos ardentes por efebos . Bom se está livro fosse lançado hoje em dia seria fuzilado pelos críticos. Primeiro por tratar o amor de pessoas do mesmo sexo como doença e por sua visão "obscura " sobre estas pessoas. Bom eu sou uma leitora que analisa o contexto histórico e está obra é claramente um produto da visão da época sobre estes temas que eram pouco discutidos,dialogados abertamente. É corajoso para época mas literariamente é bem previsível e superficial, vide os trechos explanatorios sobre a origem deste: dos romanos gregos,da pederastia, das amizades masculinas ,ideias comumente usadas pela elite intelectual do período e etc... Também tem influencias claras de Eça de Queiroz e Emile zola, porém sem a fina ironia e estilo daquele e a crudeza realista psicológica deste.
É um livro regular que oferece uma janela para outros tempos e comparativo para o nosso hoje.

E também gosto de histórias gays com final feliz ☺
Profile Image for Tiago Aires.
322 reviews37 followers
April 20, 2021
"Faltava o fogo e o pão, as duas primeiras condições na existência de um lar." (p.43)

"Ele tinha por enquanto junto do efebo os mesmos apetites de penetração e de posse que o homem sente de ordinário para com a mulher. Todavia, em raros momentos de vertigem, ao contacto da sua carne com aqueloutra virilidade impetuosa e fresca, percorria-lhe os músculos, fugidio, breve, um movimento efeminado; faiscava-lhe no espírito uma pregustação de prazer que tivesse por base a passividade, o abandono; entrava de supurar-lhe da vontade uma solicitação em escorço de se entregar, de ser possuído, gozado, de ser femeado em suma. O que era, a um tempo, corolário do seu temperamento, e sinal patognómico do finalizar de uma raça inútil, do agonizar de uma família que vinha assim desfazer-se, podre das últimas aberrações e das últimas baixezas, na pessoa do seu representante derradeiro." (p.78)
Profile Image for Fábio Polónio.
21 reviews1 follower
October 17, 2025
“O Barão de Lavos" foi publicado pela primeira vez em 1891. O romance é pioneiro na literatura portuguesa por abordar abertamente a homossexualidade, retratada como doença moral e degeneração familiar, supostamente causada por fatores como origem ilegítima e corrupção social. O livro critica a elite lisboeta, a hipocrisia moral e o clericalismo opressor. Foi best‑seller, esgotou em 15 dias, mas foi também alvo de polêmicas, sendo banido pela Igreja, censurado pela crítica conservadora e alvo de grande escândalo público.
Profile Image for Filipe Seabra.
95 reviews1 follower
March 24, 2025
Realmente um corajoso clássico para os tempos conservadores em que foi escrito.
Profile Image for Filomena Vitorino.
73 reviews
July 31, 2018
Conta a história do Barão de Lavos (Sebastião), de origem nobre mas ramos "bastardos" (o que, a par de algumas outras características biográficas, "justificaria" as suas tendências homossexuais ou bissexuais), casado com Elvira (um casamento por conveniência: ele quer esconder as suas tendências sexuais, ela quer ascender na sociedade) e que se apaixona por Eugénio, um jovem efebo sem família, que aceita a sua "protecção" em troca de um tecto, dinheiro e outras mordomias.
Com o avançar da história o Barão vê-se cada vez mais "preso" a Eugénio, que aproveita-se disso em proveito próprio (exige cada vez mais dinheiro e bens materiais), acabando mesmo por se envolver sexualmente (e romanticamente?) com Elvira.

http://ideiasdeleitora.blogspot.com/2...
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