O que mais me tocou no livro foi perceber como ele, de certa forma, relata também histórias parecidas com as dos meus bisavós. Apesar de focar muito na realidade de Santo Antão, a fome acabou por marcar várias ilhas de Cabo Verde de maneiras semelhantes. Famílias perderam filhos, parentes, vizinhos. Pessoas inteiras foram atravessadas pela dor da escassez.
Os Flagelados do Vento Leste mostra a realidade nua e crua da fome: o que ela tira das pessoas, o que ela obriga a esconder, a suportar e, muitas vezes, a fazer apenas para conseguir algo para comer. É um livro que tira qualquer romantização da miséria. Mostra o desespero, a humilhação, a sobrevivência e o peso emocional carregado por quem viveu aquele período.
Talvez por isso eu tenha tido essa relação tão dividida com a leitura. Em certos momentos senti-me profundamente ligada à história, porque ela lembra memórias e relatos que fazem parte da nossa própria realidade cabo-verdiana. Em outros momentos, a leitura tornou-se pesada justamente por sentir essa dor tão próxima.