Terceiro livro de Ruy Belo, «Boca Bilingue» foi publicado pela primeira vez em 1966. Nas palavras de Gastão Cruz, no prefácio a esta edição «Ao invocar, no poema de abertura do seu livro, a poesia como "palavra impossível", Ruy Belo passa-lhe o único atestado que pode certificá-la como poesia, um estremecimento da linguagem, ou, talvez mais precisamente, o estremecimento das mãos do poeta, recebendo, em tempos inaugurais, as folhas dactilografadas do livro, das mãos de quem, antes da publicação, ele quisera que as lesse.» […] Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento — que ao dominar-te deixa que domines — mora Estás e nunca estás e o vento vem e vergas e há também a chuva e por vezes molhas-te, aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali, animas-te, esmoreces, há os outros, morres Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te entre o fim do verão e a renda da casa Que fica dos teus passos dados e perdidos? Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta, o riso que resulta de seres vítima de olhares Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto? E assim e assado sofro tanto tempo gasto de «ÁCIDOS E ÓXIDOS»
RUY BELO nasceu a 27 de Fevereiro de 1933. Licenciado pela Faculdade de Direito de Lisboa, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade São Tomás de Aquino, em Roma. Abandona a Opus Dei em 1961 e licencia-se em Filologia Românica, dedicando-se ao ensino. Foi Director-Geral do Ministério da Educação Nacional (1967-69), crítico literário, jornalista, fez numerosas traduções (por exemplo de Cendrars, Saint-Exupéry, Lorca e Borges) e ocupou o lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-77). Publicou: Aquele Grande Rio Eufrates (1961), Boca Bilingue (1966) País Possível (1973), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). Entre outras obras destaca-se a colectânea de ensaios literários Na Senda da Poesia (1969). A sua obra poética encontra-se coligada em Todos os Poemas (2001). Foi condecorado pela Presidência da República, a título póstumo, com o Grande-Oficialato da Ordem de Sant’Iago da Espada, em 1991.
"Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento - que ao dominar-te deixa que domines - mora Estás e nunca estás e o vento vem e vergas e há também a chuva e por vezes molhas-te, aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali, animas-te, esmoreces, há os outros, morres Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te entre o fim do verão e a renda da casa Que fica dos teus passos dados e perdidos? Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta, o riso que resulta de seres vítima de olhares Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto? E assim e assado sofro tanto tempo gasto."