João Barreiros nesta colectânea de contos de ficção Científica portuguesa descreve-nos lugares imaginários, que se aproximam muito dos reais, onde tudo é negativo. O seu imaginário é sempre fracturante, onde a maior parte das vezes o herói ou o próprio mundo estão condenados à partida. O herói tem sempre uma falha essencial: a cupidez; a cegueira pessoal, política ou está envolvido numa situação em que dificilmente ele sairá ganhador. A tentativa de chocar o leitor é deliberada e propositada. Em alguns dos contos encontra-se a desconstrução subversiva de todos os mitos de infância(Pai Natal). Num dos contos que fazem parte desta colectânea “O Teste” revela-nos toda a sintomatologia psicossomática característica de um professor quando de manhã acorda e tem pela frente um dia que teima em ser longo desde que se levanta até chegar à escola. Finalmente chega e entrega os testes aos alunos que o consideram difícil. Perante tal reacção, José Esteves fica aterrorizado por causa da taxa de insucesso gigantesca que irá revelar-se o que implica uma visita de Inspector ou um processo disciplinar e uma suspensão das actividades lectivas por provada crueldade mental. E como se isso não bastasse, uma espera feita pelos alunos, algures, fora dos terrenos da escola.
João Barreiros, licenciado em filosofia e professor do ensino Secundário, nasceu a 31 de Julho de 1952, numa humilde cidade que em breve iria cair na Sombra dos grandes Antigos.
Quando se refez do choque, devorou milhares de títulos em todas as línguas a que conseguiu deitar mão, participou na feitura do Grande Ciclo do Filme de FC de 1984 patrocinado pela Cinemateca Portuguesa e Fundação Gulbenkian, escreveu dois vastos artigos para a Enciclopédia (hoje esgotada e objecto de culto para quem a conseguiu comprar).
Dirigiu duas efémeras colecções para as Editoras Gradiva (Col. Contacto) e Clássica (Col. Limites) que o público português resolveu esquecer (pior para ele), publicou um vasto romance de quase 600 páginas com a discreta ajuda de Luis Filipe Silva (de seu nome "Terrarium"), precedido por uma colectânea de contos que chegou a perturbar algumas almas mais sensíveis (O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias).
Anos mais tarde dedicou-se à história alternativa (A Verdadeira Invasão dos Marcianos) que mereceu edição espanhola e simpáticas criticas no jornal El País.
Em 2006, a editora Livros de Areia dedicou-lhe um chapbook com a publicação de uma das suas novelas “malditas”: "Disney no Céu Entre os Dumbos".
João Barreiros é um dos poucos (pelo menos que eu conheça) autores portugueses que ao longo de mais de 20 anos tem públicado obras de Ficção Científica. Em Acordar Antes de Morrer estão reunidos grande parte dos seus contos.
Dotado de grande originalidade e genialidade, João Barreiros leva-nos a percorrer cenários nunca antes imaginados que nos levam a questionar, na maioria das vezes, até que ponto o avanço constante da tecnologia é benéfico para a humanidade. Nem sempre foi uma leitura fácil. Em alguns dos contos penso que o autor exagera nos termos tecnológicos levando a nossa leitura um pouco à exaustão. Mesmo em contos onde a ideia está fantástica, o excesso de utilização de termos técnicos, acaba por degradar um pouco a nossa opinião sobre o mesmo.
O primeiro conto intitulado "Brinca Comigo" foi um dos que mais gostei. Confesso que fiquei com imensa curiosidade de ler um conto anterior a este "Caçador de Brinquedos" pois o autor diz, na nota introdutória, que "Brinca Comigo" poderia ser a sua sequela. Pois bem, fiquei mesmo com curiosidade! Neste conto, em que os humanos não são mais nada que meras estátuas, a Horda, constítuida por 500 brinquedos, luta pela demanda de encontrar o único humano vivo ao cimo da Terra. Foi muito engraçado passar por aquelas páginas, imaginar como seria um mundo só de brinquedos que só querem alguém que brinque com eles. Mas com os humanos todos mortos, quem o poderia fazer?
Outro conto de que gostei bastante foi "Disney no céu entre os Dumbos". Um conto que foi escrito há mais de 20 anos, que foi publicado primeiro lá fora e só depois em Portugal e que, no entanto, é de uma "singularidade" genial. Todo o mundo descrito, a tecnologia existente, e as personagens estão extremamente bem construídos numa teia que nos conduz a um fim inevitável.
"Fantascom", um já famoso conto do autor (para mim era-me desconhecido até ter o livro, mas uma breve pesquisa no Google diz-nos imenso) é uma sátira em que o autor descreve o fim da Ficção Ciêntifica. No geral, captei a intenção do autor e a mensagem que ele quis transmitir quanto às dificuldades da FC, mas por outro não gostei muito dos elementos escolhidos para serem satirizados. Mas o que interessa é que a mensagem é bem transmitida.
No geral, todos os contos são únicos, embora alguns repitam um pouco as mesmas ideias. Uns foram mais fáceis de ler do que outros, mas este livro consegue mostrar bem a qualidade de João Barreiros enquanto autor de Ficção Científica. É no entanto de notar que é normal que há 20 ou 30 anos atrás a maioria dos editores de contos em revistas, não percebesse metade do que o autor escrevia, coisa que o autor se queixa em algumas notas introdutórias. Se hoje em dia, com a tecnologia que já vamos tendo, ainda acho difícil penetrar em toda aquela dimensão que o autor constrói, quanto mais há decadas atrás.
Quero ainda realçar mais dois contos: "O Teste" e "Um homem e o seu gato".
O primeiro porque mais parece que o autor teve um momento visionário ao escrevê-lo. O conto retrata o estado da educação portuguesa num futuro que é o nosso presente. Publicado no final dos anos oitenta, dá-nos a imagem exacta das escolas portuguesas de hoje em dia. Professores com medo de alunos, avaliações cada vez mais fáceis mas que mesmo assim para os alunos são sempre impossíveis e o medo de ser considerado pior que os outros. Claro que tem sempre a sua componente tecnológica avançada, mas sem dúvida imperdível. "Um homem e o seu gato" foi o desfecho perfeito do livro. Segundo o que o autor diz no posfácio, foi a sua mais recente criação e que bela criação. Já imaginaram gatos dotados de uma inteligência fora do normal com capacidades cognitivas quase humanas? Mas e se, afinal, fossem apenas meras armas de destruição maciça? Um conto deveras engraçado com pitadas de um horror viciante.
Para acabar, quero só dizer que tenho pena de a formatação do livro não estar um pouco melhor. Expressões que deviam estar a itálico que não estão, alguma pontuação em falta, enfim, acho que uma revisão mais apurada não lhe tinha feito mal nenhum.
Um autor que gostei de conhecer através do seu livro depois de uma breve troca de palavras na feira do livro. Agora compreendo o que tanto li na internet sobre a magnitude da escrita de Barreiros. Um livro a ser adquirido pelos amantes de FC.
Se Acordar Antes de Morrer junta, num só volume, os principais contos de João Barreiros, uma das poucas vozes da ficção científica “made in Portugal”. O livro conta com um total de 15 contos, a maioria já publicados anteriormente online ou noutras compilações. Todos eles têm uma introdução escrita pelo autor, que detalha as circunstâncias em que o conto em causa foi escrito/publicado e as premissas que serviram de base à sua escrita.
Este livro foi, de início, um duplo desafio para mim: por um lado, por ser composto por contos quando prefiro claramente ficção mais longa; por outro, por se inserir dentro de um género no qual reconheço ter lido muita pouca coisa e não ser aquele com o qual mais me identifico. Com o decorrer da leitura, deparei-me com outras “dificuldades”, como a escrita povoada de terminologia futurista, científica e tecnológica que exige uma leitura mais cuidada e atenciosa ou um conto em particular que me fez ter de respirar fundo, pousar o livro por uns dias, para poder voltar a pegar-lhe (já volto a isto, daqui a pouco).
Os vários contos, apesar de tratarem de temáticas diferentes e diferirem no seu objecto, têm dois aspectos semelhantes entre si (entre outros possíveis): – a inegável imaginação prodigiosa do autor, que cria cenários que, apesar de fictícios e por vezes distantes da nossa realidade, não conseguem deixar de ser palpáveis e verosímeis; – a tendência do autor para algum negativismo na criação de cenários futuros – e quando falo em negativismo refiro-me aos cenários dantescos e que revelam o pior do ser humano.
Como disse antes, tinha lido pouco dentro do género de ficção científica, nada escrito por portugueses. Depois de ler este livro, continuo a perceber que este género não é, definitivamente, a minha praia. Mas, como gosto sempre de variar e de ler, de facto, para poder emitir a minha opinião, não dei o meu tempo por mal empregue. Houve alguns contos de que gostei em particular: o meu preferido foi o primeiro, Brinca Comigo!, que fala de uma horda de brinquedos num mundo futurista, que ruma a uma Lisboa abandonada e quase desprovida de humanos em busca de um Alvo, que só no fim descobrimos o que é. Gostei também bastante do Efemérides, escrito para celebrar os 30 anos da chegada do Homem à Lua e que cria um cenário em que a Lua foi colonizada, e de O Teste, escrito no final dos anos 80 e que, retirando os devidos extremos, é um boa sátira ao estado actual da educação em Portugal.
Os restantes contos têm todos vários pontos de interesse, até aquele de que menos gostei e que me fez ter de pausar a leitura: Fantascom. Em traços gerais, trata-se de uma sátira ao género fantástico, por oposição à ficção científica, em que a personagem principal, Gervásio Queiroga, é claramente uma caricatura do escritor português Filipe Faria. Ora, eu não li nenhum livro deste escritor e, sinceramente, não o pretendo fazer, mas achei que a sátira poderia ter sido feita, e até ganharia com isso, sem este tipo de abordagem. Não afirmo textualmente que a intenção do autor foi um ataque pessoal, mas sinceramente foi essa a sensação que tive. Mas o que me irritou mais neste conto nem foi isso: foi toda uma banalização do género fantástico, o colocar no mesmo saco o bom e o mau (mais mau do que bom, neste caso), como se nada se aproveitasse. Bem sei que, nas sátiras, as críticas implícitas são normalmente extremadas, mas não gostei de ver o meu género preferido retratado como o mau da fita. Custa-me ver as pessoas que gostam deste género pintadas como leitores que aceitam tudo o que lhes dão, sem espírito crítico, seja bom ou mau, porque não me identifico com este retrato. A preferência dos leitores pelo fantástico, não necessariamente em detrimento do resto da ficção especulativa, é um facto. Talvez fosse bom reflectirmos no porquê. No entanto, colocando de lado todas as questões pessoais que possa ter com o tema tratado, reconheço que o autor consegue aqui, com relativa eficácia, atingir o seu objectivo.
Resumindo, foi objectivamente uma leitura interessante, com textos de bastante qualidade. Pessoalmente, deixou-me dividida pelo que referi acima, mas recomendo a quem gosta de ficção científica ou a quem quer experimentar o género, e ainda a quem quiser conhecer um autor português que merece mais destaque do que o que tem tido.
Uma leitura que levou o seu tempo. Não que o tempo fosse escasso mas porque assim o preferi. Sendo uma antologia de contos não quis misturar as histórias todas ao lê-las de empreitada e sendo do João Barreiros é melhor ler devagar ou ainda corria o risco de me perder algures. Antes de cada conto temos uma nota introdutória a explicar um pouco do que levou à escrita daquelas páginas. É engraçado ler estas notas e não consegui deixar de imaginar um mini Barreiros à minha frente a falar sobre as suas peripécias. É bom ler FC decente em português principalmente depois dos banhos de água fria que levei com algumas antologias. Barreiros habitou-nos a uma escrita interessante e repleta de um humor negro que lhe é natural. Desde brinquedos que só querem brincar com criancinhas, a odisseias para encontrar e matar o Pai Natal, passando por um grupo de escritores que querem morrer e terminando em gatinhos maus... Podemos encontrar nesta antologia algo para todos os gostos ou então para nenhum. Precisava de uma revisão mas não é nada que atrapalhe a leitura ao ponto de arrancar cabelos. Se procuram FC portuguesa então está aqui um bom exemplo que recomendo vivamente.
12. A book of short stories (2015 reading challenge)
FC portuguesa! Tenho de admitir que superou as minhas expetativas. Contos longos e curtos que partilham um exagero de termos tecnológicos, uma leitura que nem sempre é fácil. Se há algo que me cativa num livro ou num conto é, sem dúvida, o final, aquilo que fica essencialmente na memória. Neste aspeto, admiro imenso João Barreiros. A descrição interminável e cheia de termos estranhos foi, na maior parte das vezes, compensada pela capacidade do autor em criar finais que me agradaram. Foi uma honra ouvir este autor em duas aulas de Ficção Científica e Fantasia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa!
Brinca comigo: 4/5 Disney no céu entre os Dumbos: 3/5 Efemérides: 3.5/5 Fantascom A catastrófica chegada: 5/5 Liscon 2060: 4.5/5 Noite de Paz: 3/5 A síndroma de Abrãao: 3.5/5 Os minino da noite: 3/5 Por amor à prole: 3/5 Por detrás da Luz: 2.5/5 Se acordar antes de morrer: 5/5 O teste: 3.5/5 Sincronicidade: 2.5/5 Uma noite na periferia do império: 4/5 Um homem e o seu gato ou O Céu dos gatos é o inferno dos pardais: 3.5/5
"João Barreiros nesta colectânea de contos de ficção Científica portuguesa descreve-nos lugares imaginários, que se aproximam muito dos reais, onde tudo é negativo."
E pronto, isso bastou-me para me apanhar (sou um peixinho mesmo fácil de apanhar, não é?)
Então, ora juntem-se cá neste pensamento.
3 RAZÕES PARA LER ESTE LIVRO:
1. João Barreiros é um autor português (Ou tuga, como preferirem. É matéria nacional, 100% português, temos de apoiar os nossos! *pronto, chega de nacionalismo por agora*)
2. É ficção científica (Blec!, dizem uns, Que raio é isso?, dizem outros, É uma obra prima, digo eu!)
E... deixem-me pensar um pouco na terceira razão (sim, por que não há dois sem três! *e três sem quatro, e quatro sem cinco e blá blá sem blá*)
3. E são contos mórbidos! (Credo, Sara, desde quando histórias mórbidas são boas para um mundo já tão deprimido e self-centered?)
Ora aí está uma boa pergunta de tal maneira que não lhe sei responder (e como eu não sou - ainda - nenhuma alminha dos Apanhados TVI Porto, deixai-me responder-vos, caríssimos)
Descobrir estes contos de João Barreiros foi uma surpresa para mim. São contos que requerem uma leitura atenta e que apelam à reflexão. Remetem para variadas problemáticas, como a simplificação do ensino, a integração de migrantes e a mortalidade humana. Destaco aqui o conto Fantascom, que segue um autor de fantasia num mundo onde toda a literatura passou a ser de "escape", destinado ao consumo em massa por parte da população e à fatalidade das séries/sagas intermináveis.
Ler João Barreiros é estar disposto, goste-se ou não do estilo, linguagem e conteúdo, a conhecer o melhor da ficção científica escrita na língua de Camões. Se Acordar Antes de Morrer foi publicado pela Edições Gailivro em 2010, incluindo vários contos do autor nacional. A coletânea faz parte da coleção 1001 Mundos, que colige os mais variados livros de Ficção Especulativa publicados pela editora.
Co-fundador da Simetria e da Épica, João Barreiros destacou-se como escritor, editor e crítico de ficção científica. Professor de filosofia, venceu por mais de uma vez o prémio Nova, que reconhece os melhores contos publicados na América do Sul.
Não é novidade que sou admirador do trabalho de João Barreiros. Acho que, para qualquer autor de Ficção Especulativa nacional ele é uma referência, quanto mais não seja pela luta constante que trava, não só para a expansão da FC cá dentro, como para a promoção da escrita nacional no estrangeiro. A sua carreira literária passa sobretudo por histórias curtas, contos e noveletas, e posso dizer que já li uma boa parte do seu trabalho.
Terrarium, o romance em mosaicos que escreveu com Luís Filipe Silva, foi lançado numa versão melhorada em 2016, resultando na minha melhor leitura do ano passado escrita por autores nacionais. Mas é de Se Acordar Antes de Morrer que estamos a falar. Senti-me bastante atraído por este livro sobretudo por dois contos: “Brinca Comigo” e “Disney no Céu entre os Dumbos”. Surpreendentemente, as notas introdutórias de cada conto acabaram por ser experiências de leitura quase mais interessantes que os próprios contos. Quase.
Infelizmente, as minhas expectativas traíram-me. O livro abria com os dois contos que tinha mais interesse em ler, e acabei por não gostar muito deles. Não que lhes falte qualidade, mas achei-os arrastados e sem qualquer novidade. “Brinca Comigo” mostra um mundo futurista em que o Noddy, as Barbies e os Kens têm de se “aguentar à bronca” numa era em que a raça humana abandonou a superfície da Terra. Divertido e irreverente, achei-o um conto ótimo para quem não conheça o autor. Pessoalmente, já li bem melhor dele.
Algo comum na escrita de João Barreiros é a aliança entre a sátira, o horror e a ficção científica, sempre de forma coesa e hilariante. São estas três componentes a marca literária do escritor, sempre dotado de um entusiasmo jovial que, tanto encanta como por vezes, pode fazer cansar. “Disney no Céu entre os Dumbos” é um conto muito bem escrito, divertido na medida em que exorciza a figura Disney e satiriza o mainstream. Mas, para quem leu o seu conto “Mais do Mesmo” e o livro Terrarium primeiro, pode achá-lo um tanto ou quanto… repetitivo. As minhas expectativas não ajudaram.
O pequeno conto “Efemérides” mostrou-se interessante, uma visita guiada a um evento, num mundo paralelo onde Kennedy não morreu. “Fantascom – A Catastrófica Chegada” só pecou por extenso. O conto apresenta-nos o escritor Gervásio Quiroga, numa convenção de fantástico onde ele é o único escritor vivo, obrigado a engolir as diretrizes do regime. Foi também o primeiro conto que li com o alter-ego de João, José de Barros, como personagem.
Continuando em onda de convenções literárias, “Liscon 2060” apresenta-nos Álvaro de Sousa e a terrível viagem do Porto para Lisboa, para um evento que termina muito mal para o herói. Um conto bem divertido e de leitura fácil. A partir daqui, os contos tornaram-se, para mim, mais interessante. “Noite de Paz” traz-nos um exército armado até aos confins do mundo para abater o temível e maquiavélico Pai Natal. Na sequência de “Efemérides”, embora tenha sido escrito dez anos depois, “A Síndroma de Abraão” revisita a chegada do homem à lua de um jeito bem engraçado.
“Os Minino da Noite” foi um dos meus contos preferidos da coletânea. A Fortaleza Europa trouxe novas regras ao nosso mundo e uma série de acontecimentos obrigou os não-europeus a regressar aos países de origem. O que aconteceu? Onde estão as crianças? Protagonizado pela personagem Olga, “Por Amor à Prole” fala de maternidade, de um jeito que só João Barreiros podia escrever. Absolutamente delicioso.
Já tinha lido “Por Detrás da Luz” na antologia da Saída de Emergência A Sombra Sobre Lisboa. O conto é uma homenagem a Lovecraft, uma história com cabeça, tronco e membros, de que sempre me irei recordar pela positiva. O conto “Se Acordar Antes de Morrer” traz a história que dá título e capa ao livro. Numa homenagem a Georges Romero, o conto mostra-nos um robot vestido de Pai Natal que faz os mortos- vivos que o mordem perguntar-se por que raio não tem carne.
Os contos “O Teste” e “Sincronidade” conduzem-nos numa visita peculiar a uma Lisboa futurista, enquanto “Uma Noite na Periferia do Império” apresenta-nos as aventuras e desventuras do Embaixador Cultural dos Croap’tic, Sua Senhoria Canto-Franco (qualquer semelhança com o Poupas da Rua Sésamo não é coincidência) e do seu companheiro símio, o servo Chirptic. Um dos contos mais excêntricos de Se Acordar Antes de Morrer.
Por fim, “Um Homem e o Seu Gato” faz referência à obra original de Harlan Hellison, “A Boy and his Dog”, um conto que fala de IA’s, conflitos de interesses… e de amor. O amor profundo de Sequeira pelo seu gato, o Senhor Luvas. Em suma, Se Acordar Antes de Morrer acabou por ser mais uma excelente leitura com o nome João Barreiros estampado na capa.
Acabei há uns minutos de ler o posfácio e juro que levei um minuto para perceber o que estava de errado nele. É que, percebem, não existe nenhum Harlan Hellison que tenha escrito A Boy and His Dog. E este tipo de gralhas com o avançar do livro foi-se tornando cada vez mais frequente ao ponto de tornarem a leitura penosa. Bem, nada a fazer, é uma edição nacional.
Quanto à coletânea para quem já segue a carreira de Barreiros e do seu alter ego Barros desde há, quê?, uns 30 anos? não tem aqui novidade alguma exceto a última noveleta "Um homem e o seu gato", precisamente uma "resposta" ao tal A Boy and His Dog.
Os restantes contos e noveletas também são de leitura obrigatória ou não estivéssemos na presença do melhor autor vivo de FC nacional. Recomendo a quem pensa que a literatura fantástica nacional começa e acaba em Rafaeles Loureiros, Madalenas Santos, Filipes Farias, Sandras Carvalhos e outros que tais.
Brinca Comigo: brinquedos biotecnológicos que em horda atingem uma espécie de consciência atravessam as paisagens arruinadas dos subúrbios pós-apocalípticos. Enfrentando a desagregação entrópica, tanques com inteligência artificial e enxames de moscas robóticas, atingem o seu objectivo: localizar um último humano, senil sobrevivente das catástrofes, acabando atomizados por um satélite vigilante de aquisição de consciências artificiais enquanto cumprem a sua programação original... brincar. Paisagens devastadas, singularidades e um sublinhar do lado arrepiante dos brinquedos antropomórficos escrito com uma veia de sarcasmo amargo. O futuro não é um local aprazível na ficção de Barreiros.