Em algum momento ali pela crise do governo Dilma, durante uma bad (desempregado e revendo alguns conceitos), me vi dentro de um rabbit hole do YouTube. Até às madrugadas me via envolvido em assuntos como escalar o monte Fuji, cat cafés e festivais de dança japonesa (não danço nem forró). A fase passou, mas ainda me interessava por Kendo, a situação imobiliária no Japão e walk throughs por Shibuya e Osaka por exemplo. Eventualmente passei a ler alguns mangás. Depois de alguns anos os meus interesses pelo Japão continuaram sendo apenas uma distração.
Isso mudou depois de uma conversa com um conhecido da minha esposa. O rapaz tinha saído do ensino médio, fazia curso técnico em design e era fã incondicional de K-pop. (Urgh!) Deplorando mentalmente o estado da juventude brasileira, só restava lavar minhas mãos pois o considerava um caso perdido. Eu disse repentinamente, com todos os vícios da linguagem urbana e cotidiana, provavelmente o interrompendo, “Mas porque tu não estuda coreano a sério já que tu gosta dessas coisas? Acho até que combina com tua escolha de carreira”. Foi talvez um conselho insensível e não requisitado, não lembro mais a resposta nem mantive contato depois daquilo; mas quando cheguei em casa pensei:
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Nesse momento decidi que queria aprender japonês.
Foi uma decisão contudo que teve de competir com muitas outras no jardim da minha vida. A escolha do Genki como primeiro guia me pareceu fácil; a maioria dos que falam japonês como segunda ou terceira língua o citam. Mas já pela terceira lição minha filha nasceu, na quinta voltei a trabalhar. Estudo ademais grego, latim e alemão – todas essas línguas demandam atenção e uso. Na décima lição comecei um EaD. Isso para não citar outras ocorrências de uma vida que não me deixa parar. Logo, meu método de estudo é o pior: devagar e sempre. Nessas últimas lições do Genki 1 me forcei a apressar o passo, fiz uma lição por mês. Só para terminar esse livro (mais caderno de exercícios correspondente) demorei mais de um ano e meio.
Mas meu Anki está sempre em dia. Tenho dois baralhos para japonês, um de kanjis mais Building-block-ish que quero decorar a ordem dos traços, e outro onde guardo kanjis complexos e palavras. Dizem que o número de ouro é 2000 kanjis para se dizer minimamente fluente. Assim, baseado nos baralhos, coleciono entre 400 e 700 kanjis na memória. Uso "coleciono", pois, menciono Donald Keene que dizia que aprender kanjis é como colecionar selos raros. O charme do aprendizado é a dificuldade mesma, o trabalho quase de amanuense de usar os caracteres, ordená-los e reordená-los na memória ocasionalmente. Por isso, mesmo a passos de formiga estou muito satisfeito com meu desenvolvimento, que sacrifica um pouco da velocidade em nome da organização mental.
Mas como é o japonês de quem termina o Genki 1? Consigo pescar aqui e ali algumas palavras de anime e kanjis que aparecem nos manuais de equipamento do navio onde trabalho. Escrever, ou antes compor textos, é meu sofrimento existencial visto que reduzir meu jeito de ser, meus rodeios verbais e forma mentis a umas poucas centenas de vocabulários é como voltar a ter 2 anos. A leitura é o bálsamo que guardo e que me motiva a continuar. Minha pronúncia é a de vilão de anime que fala devagar para que o inimigo saboreie a ameaça enquanto pensa nas escolhas de vida. A diferença entre mim e o citado vilão é que falo devagar pois estou pensando nas palavras que saem da minha própria boca como que da de um terceiro. Em suma: abaixo do A1 no quadro de avaliação europeu.
Se a vida seguir como o planejado pretendo seguir com o Genki 2, mas estou muito feliz por ter terminado o primeiro. A sensação que sinto é aquela liberdade que só quem tem consciência da própria força, mesmo que incapaz de prova-la a outros, pode sentir. A sensação de que posso qualquer coisa desde que me aplique um pouco por dia.