Livro XII
Certos Outros Sinais
"Navegamos por águas longe e pelo nevoeiro. A bordo do nosso navio fantasma SOMOS O QUE SOMOS e ao nosso redor apenas o chapinhar das águas misteriosamente calmas de encontro ao casco nos impressiona e informa. Acreditamos que jamais o homem será escravo enquanto houver um só Poeta, isolado e ignorado que seja, a reclamar a si mesmo a decisão ou indecisão magníficas."
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António Maria Lisboa condensa em si a epítome do surrealismo português. Companheiro de trabalho de Mário Cesariny, Carlos Eurico da Costa, Henrique Risques Pereira, Pedro Oom ou Fernando Alves dos Santos, o poeta apresenta também, talvez de forma algo inesperada, uma faceta muito próxima de Fernando Pessoa.
Nascido em 1928, e vivendo uma curta vida de apenas 25 anos (viria a morrer de tuberculose depois de muitas entradas e saídas de hospitais), nunca deixou de acreditar que a poesia e o surrealismo são a plataforma para a liberdade plena. Isso mesmo, uma crença quase mística na arte, leva a uma abordagem esotérica e ocultista que recupera temas caros a Pessoa, lembrando muitas vezes poemas como Iniciação: "Não dormes sob os ciprestes,/Pois não há sono no mundo/O corpo é a sombra das vestes/Que encobrem teu ser profundo./Vem a noite, que é a morte/E a sombra acabou sem ser./Vais na noite só recorte,/Igual a ti sem querer.(...)/A sombra das tuas vestes/Ficou entre nós na Sorte./Não estás morto, entre ciprestes./Neófito, não há morte."
Assim também, para António Maria Lisboa, não há morte que represente verdadeiro perigo, a morte é metafísica (novamente recordarmos o Guardador de Rebanhos:" Há metafísica bastante em não pensar em nada"):
A poesia feita por todos
Livro I
Mistérios Medida e Mais Coisas
"(...) o perigo não nos vem da morte mas da vida. A morte é uma consequência de viver, ou do viver demasiado. A força da morte é metafisica, a da vida é real. Não é a morte que mata a vida, mas esta que vai morrendo. A vida somos nós e nós vamos caindo de cansaço. A vida é a única força. A morte é consequência da sua quebra."
[Com Henrique Risques Pereira]
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Os seus seis poemas (poemas visuais) apresentados neste volume são obras grandiosas do automatismo psíquico que o surrealismo consagrou - poucas exceções se podem fazer aqui, a não ser talvez a da abordagem intelectual de Magritte nas belas artes.
E se o facto de a sua vida ser de curtíssima duração neste mundo em muito contribui para a aura de misticismo que rodeia A.M.L, saber que perdemos parte da sua obra (quão grande não se sabe) às mãos de pai e irmã, fixados em a destruir, só pode servir para lamentar tudo de que não sabemos este autor ainda capaz. Este volume - de cerca de 400 p. - compreende toda a sua obra sobrevivente o que, por si só, é um facto assustador.
No total, António Maria Lisboa não figura nas minhas listas de imperdíveis. Eu, no que a poesia diz respeito, vou mais por outro tipo de trágico. Fico para já pelo eterno Mário de Sá-Carneiro e por Miguel Rovisco - outro grande desconhecido! - cujos temas me dizem mais.
No entanto, A.M.L é um marco incontornável das letras a ser redescoberto com urgência.
O mercado editorial nacional, pejado de "bestsellers" contemporâneos internacionais, é completamente cego e insensível para a verdadeira arte das Letras que urge recuperar com estes e outros grandes nomes injustamente obliterados dos nossos programas.
Se tiverem oportunidade não deixem de ver Palavras Vivas, o programa de outro GIGANTE, Mário Viegas, sobre A.M.L e todos os outros poetas por ele merecidamente reconhecidos (curiosamente, Viegas era um grande amigo de Rovisco a quem este último deixou um cartão de despedida antes de se suicidar. Mas esta é história para outro espaço).