"(...) era sobre uma aldeia cheia de gente pobre que era explorada por um senhor feudal. Mostrava um rapazinho a atirar uma pedra à mansão do zamindor (senhor feudal), partindo uma janela. (...) As grandes revoluções começam com uma pequena faísca."
A introdução do livro "Seis Suspeitos" é provocadoramente deliciosa. O livro apresenta-nos sete personagens principais, ainda que uma delas permaneça nos bastidores e seja apenas retratada através do relacionamento, contacto e experiências com as restantes. Estas sete personalidades não podiam ter uma educação e valores mais diferente e, no entanto, sou incapaz de escolher a que mais me atrai.
Todas elas são amorais, tantos os seis suspeitos como a própria vitima, todas possuem traços obscuros e duvidosos. E aqui reside todo o seu encanto. Durante as quatrocentas e oitenta e seis páginas senti-me mais do que deslumbrada, fui hipnotizada pela escrita mágica de Vikas Swarup. Se pensarmos bem, o que é que a inocência, a pureza e a honestidade têm de tão aliciante? Tais conceitos não são adequados para títulos de jornal. A provocação reside nos seus opostos.
Todos os comportamentos, pensamentos e atitudes dos implicados neste enredo poderoso me seduziram: o temperamento complexo e imprevisível do burocrata, o poder e influência quase sem limites do politico, a ingenuidade e estupidez do americano, a curiosidade e admiração pelo brilho da civilização do indígena, a autoconfiança e sensatez da actriz de Bollywood e a vivacidade contagiante do ladrão.
Ao abrir o livro o leitor empreende numa viagem memorável a um país distante, Somos confrontados com a cultura, os costumes, o povo e as realidades tão distantes que coexistem na Índia. Vikas Swarup não se coíbe de expor a corrupção, a pobreza, a crueldade e a violência presentes no dia-a-dia de muitos indianos. Por outro lado, aponta a honestidade, a justiça, a riqueza e o sentimento caloroso provocado por esta sociedade tão diferente da nossa. Senti-me verdadeiramente como uma parte deste vasto mundo, que apesar de todos as suas imperfeições, é magnífico.
Foi nas páginas deste livro que procurei e encontrei o conforto desta sensação de familiaridade nos últimos dias. Foi a sua história comovente e marcante que me submeteu a horas de leitura que, infelizmente, me pareceram demasiado breves.
A estrutura da narrativa é perspicaz e extremamente tentadora. Este livro começa por nos reportar um crime. E é apenas isto que a obra tem em comum como os outros romances do seu género. São-nos apresentados seis suspeitos e seis motivos. Seis pessoas, seis estilos de vida e inúmeras ligações. É traçado o perfil de um vítima e as consequências dos seus actos. Segue-se a exposição das provas e dos factos, as deduções e a solução e, por fim, a confissão.
As ligações entre as personagens, que têm vidas tão contrastantes, são assustadoramente brilhantes. O que pode ligar uma das mais famosas estrelas de Bollywood a um operador de empilhadoras do Walmart? Bem, a resposta e esta questão reside neste livro.
Os diálogos são soberbos e ajudam-nos a ter um conhecimento e uma visão aprofundada das personagens. Seja na primeira ou terceira pessoa, através de cartas, telefonemas, gravações, excertos de artigos jornalísticos ou noticiários televisivos, a narrativa não podia ser exposta de uma forma melhor. As palavras fluem na nossa mente com uma naturalidade desconcertante, envolvendo-nos no seu mundo que, apesar de ser cenário da ficção, não deixa de ser real.
Os vários termos indianos presentes ao longo da história e as inúmeras referências à cultura do país foram dois fortes impulsionadores do meu entusiasmos, que já se encontrava no seu auge após a leitura da primeira página. Correcção: do primeiro parágrafo. Mais do que um retrato da sociedade indiana, este livro é uma fonte preciosa de conhecimento sobre a natureza humana.
"Durante quanto tempo somos capazes de assisti ao que se passa à nossa volta sem nos deixarmos afectar?"
Um final inesquecível. Um livro memorável. Um autor incomparável.