A Virgem dá-nos conta do Portugal moribundo no tempo do Estado Novo, mais precisamente na década de trinta. Um país suspenso no tempo, deslumbrado com o estrangeiro, pobre em recursos e ideias. Centrado numa família privilegiada, outras famílias se lhe juntam. Assistimos aos seus ódios, amores, perdas e cumplicidades num enredo em que o trágico e o absurdo se cruzam. Numa intriga cheia de humor, através do olhar lúcido do narrador, são desmascaradas situações gritantes de injustiça e de exploração em que o abuso de poder de alguns grupos privilegiados se passeia livremente por um país sonâmbulo e decadente com a cumplicidade silenciosa da Igreja.
So, you want to know more about Luis? Well, he was born in Oporto, northern Portugal, in 1976. It was a sunny winter's day of February... at least that's what his mother says... Luis spent his childhood in Viana do Castelo, a small town north of Oporto. He devoted himself exclusively to writing while trying to be a citizen of the world. He was the author of The Last Pope, The Holy Bullet and The Pope's Assassin.
Luís Miguel Rocha é o meu escritor favorito. Quando me pedem para sugerir livros de mistério, os livros deste autor estão sempre no topo da lista. Por vários motivos: pela escrita, pela forma como o enredo é apresentado e pelas personagens. Tudo junto, faz com que o leitor se prenda ao livro e fique sempre com grande curiosidade em saber o que vem a seguir. Por tudo isto, quando comecei a ler "A Virgem", as expectativas eram bastante altas. E, honestamente, fiquei um pouco desiludida. Vamos por partes:
➙ Este livro é um romance, ao contrário dos outros do autor, que se enquadram nos géneros thriller, mistério e suspense;
➙ A ação acontece por volta de 1933, o que significa que existe todo um vocabulário desconhecido, mas que não dificulta a compreensão do texto;
➙ As personagens são bastante reais. Ou seja, o escritor não se preocupou em torná-las “perfeitas” nos atos e nas palavras. Antes, utiliza expressões do quotidiano, para além de lhes atribuir virtudes e defeitos que são bem percetíveis;
➙ Tendo em conta a época que é retratada, existem cenas que hoje em dia não seriam aceites pela maioria de nós. Nesta altura, e considerando também o contexto político que se vivia, a mulher tinha duas funções: reproduzir e tratar da casa. Ao longo do livro surgem episódios de desrespeito para com as mulheres, como maridos infiéis, homens que se aproveitam das empregadas e maridos que agridem as esposas pelo sexo da criança a que dão à luz;
➙ Em contrapartida, também nos são apresentadas mulheres fortes, que não se deixam dominar pelo patriarcado nem pelas normas sociais;
➙ O final do livro dá a sensação de obra inacabada. Do início ao final da obra, há momentos que focam na filha mais nova do coronel, no entanto, ela só nasce perto do final e o leitor fica sem perceber a real importância dela para a história ou o porquê de o escritor lhe dar vida.
Comparando os livros que já li de Luís Miguel Rocha, “A Virgem” dá a ideia de que o autor estava a experimentar um género literário diferente ou, então, ainda estava à procura da sua identidade enquanto escritor. No final do livro, há uma nota do escritor a confessar que tinha começado a escrever “A Virgem” quando andava no secundário, para fazer “concorrência” ao “Memorial do Convento”, de José Saramago. Isso explica o género e a escrita. Em relação ao final, num comentário que li sobre esta obra, alguém dizia que este seria o primeiro livro de uma trilogia que o autor pretendia escrever. Talvez os próximos livros ajudariam a explicar algumas dúvidas que ficam da leitura deste.
O que mais gostei foi a forma como a história foi narrada, com o narrador a assumir o papel de uma personagem extra, aproximando o leitor à narrativa.
Para os amantes de Luís Miguel Rocha, fica desde já o aviso que esta obra não é, de todo, aquilo a que ele nos habituou. Recomendo o livro se gostarem de romances de época ou de história, uma vez que surgem personagens que marcaram a história de Portugal, como Salazar, o cardeal Cerejeira ou o soldado Milhões, por exemplo.
Num registo completamente diferente do que conhecia do Luís Miguel Rocha (já li "Bala Santa" e "O Último Papa"), que foi iniciado aos 16 anos, sentindo-se inspirado por José Saramago. Passado na altura do Estado Novo, acompanhamos a história dos Silveira e de quem se cruza com esta família, bem como alguns pequenos detalhes sobre a forma como monárquicos e republicanos se relacionaram e a implantação da República. Senti que teriam sido dispensáveis as cenas de sexo, não se trata de ser púdica ou não (afinal já li vários livros com cenas de sexo e normalmente não acho que estejam a mais), mas a sua introdução na história pareceram-me algo forçadas; bem como a cena do Conde no toilet (era mesmo necessário aquela descrição??) A escrita é diferente, mais "floreada" com o uso de um vocabulário mais antigo, mas comum da forma oral. Gostei particularmente do período retratado na história, pois não é muito habitual termos livros passados durante o Estado Novo e é interessante saber mais sobre as diferenças sociais. A história é envolvente e chegados ao fim, queremos mais. Afinal, Luís Miguel Rocha planeava fazer 3 livros e este é apenas o primeiro.
O Autor brinda-nos com um registo totalmente diverso do que nos tem habituado na sua série de livros sobre o Vaticano, tanto a nível de linguagem como de construção e descrição das personagens. O texto é marcadamente mais fluido, com a utilização de uma linguagem menos usual e mais arcaica; o humor e uma ironia fina perpassam pelo texto deixando muitas vezes o leitor a sorrir. A história desenrola-se com algumas analepses e de forma intricada, até ao ponto final deste volume que nos deixa em suspenso. Qual o papel da Virgem nesta história? Gostei imenso deste registo do Luis Miguel Rocha e espero que o Autor considere retomar esta história em breve.
Estive algo indecisa quanto à classificação a dar a este livro.... a história é boa, tem momentos de alta tensão, tem um bom enredo, tem bons momentos de humor - a cena do Conde na casa de banho é hilariante - mas a forma de escrita não é das mais fáceis de ser lida. Tenho todos os livros de Luis Miguel Rocha em casa e este foi o primeiro que li... gostei, mas teria gostado mais se tivesse um estilo de escrita mais acessível, sendo essa a única razão que não o classifico com 4 estrelas, mas apenas com 3. Mas confesso que fiquei curiosa em continuar a seguir a vida da família Silveira!
Sem dúvida muito Saramaguiano, mas com um estilo muito próprio, irónico, bem disposto e cativante. Deixa tudo em aberto, dá vontade de saber ainda mais sobre esta família e, sobretudo, sobre "a virgem" :) É esperar pelo segundo!