A trilogia O tempo e o vento, que inicia a reedição da obra completa de Erico Verissimo pela Companhia das Letras, é a mais famosa saga da literatura brasileira. São cento e cinqüenta anos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil que o escritor compôs em três partes - O Continente, O Retrato e O arquipélago -, publicadas entre 1949 e 1962. Nos dois volumes de O Retrato, Rodrigo Terra Cambará constrói uma imagem de político popular e generoso, enfrentando as contradições de seus afetos privados e reafirmando sua inteireza ética e sua coragem. Homem sedutor, sobranceiro, torna-se líder populista, amante das causas populares - e da própria imagem. Seu projeto é modernizar tudo - da casa onde vive à cidade inteira - e proteger os pobres. Depois de aderir ao governo de Getulio Vargas, muda-se para o Rio de Janeiro durante o Estado Novo. Em 1945, porém, com a queda de Vargas e já muito doente, Rodrigo volta à cidade natal para um ajuste de contas com a família. No fim do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, a família Terra Cambará não se reconhece no país que ajudou a construir. Na galeria de personagens de O tempo e o vento há figuras fascinantes, comparáveis a grandes ícones da literatura nacional como Peri, Capitu e Macunaíma. A forte Ana Terra, o valente capitão Rodrigo Cambará, seu neto, a sedutora Luzia Silva e o curioso doutor Carl Winter são apenas alguns desses personagens, eternamente vivos na imaginação dos leitores. Desfilam no romance as disputas entre famílias pelo poder local, regional e nacional; as guerras de fronteira e as civis; a bravura dos homens e a tenacidade das mulheres; a pobreza de meios e a violência contra os desassistidos. Valores caros ao escritor entram em a sobriedade, a liberdade e a coragem - que muitas vezes não está nos campos de batalha, mas na simplicidade do cotidiano e na resistência capaz de sobreviver aos desmandos políticos. Este e-book não contém as imagens presentes na edição impressa.
Erico Verissimo (December 17, 1905 - November 28, 1975) is an important Brazilian writer, who was born in Rio Grande do Sul. His father, Sebastião Veríssimo da Fonseca, heir of a rich family in Cruz Alta, Rio Grande do Sul, met financial ruin during his son's youth. Veríssimo worked in a pharmacy before obtaining a job at Editora Globo, a book publisher, where he translated and released works of writers like Aldous Huxley. During the Second World War, he went to the United States. This period of his life was recorded in some of his books, including: Gato Preto em Campo de Neve ("Black Cat in a Snow Field"), A Volta do Gato Preto ("The Return of the Black Cat"), and História da Literatura Brasileira ("History of Brazilian Literature"), which contains some of his lectures at UCLA. His epic O Tempo e o Vento ("The Time and the Wind'") became one of the great masterpieces of the Brazilian novel, alongside Os Sertões by Euclides da Cunha, and Grande Sertão: Veredas by Guimarães Rosa. Four of Veríssimo's works, Time and the Wind, Night, Mexico, and His Excellency, the Ambassador, were translated into the English language by Linton Lomas Barrett. He was the father of another famous writer of Rio Grande do Sul, Luis Fernando Veríssimo.
" Em Solo de clarineta , seu livro de memórias, Erico diz que concebeu o personagem do dr. Rodrigo como uma pessoa que leva seu clã rústico ao destino da urbanização - sentimento brasileiro naquele fim de Segunda Guerra e de Estado Novo. O escritor revela que a inspiração de Rodrigo também lhe veio do pai - pelo que teve ("amor à vida, generosidade, vaidade à flor da pele "), e pelo que não teve ("beleza, ambição política "), mas neste caso atribuindo ao personagem as lacunas do pai."
Não sei em que parte das memórias do pai, encaixam as sacanices do dr. Rodrigo. Todavia essa faceta menos abonativa do seu carácter, é o que nos seduz e revolta nesta leitura, e nos faz agarrar avidamente o livro até ao final.
Se Rodrigo Cambará é a principal força de inovação que abre O Retrato - Volume I, e desemboca em conflitos com a política de Santa Fé e com os meios costumeiros da época, agora, menos insuflado com as guerras locais, em continuação, o herói de Veríssimo abre a todos um novo retrato: não basta mais praticar inovações, é preciso agir estado à dentro contra o partido republicano e romper com ele, ocasionando com isso o rompimento com muitos aspectos outrora assentados, como a monogamia.
Em mais uma obra e continuação exuberante, o escritor perpassa pelos principais eventos mundiais enquanto Santa Fé lida com o atrasado progresso: se o cometa Halley passa quase atingindo a cidade e para a tristeza do anarquista Pepe García, Deus ainda não aderiu ao anarquismo para destruir o mundo com bombas, se o Titanic acaba de submergir, se Hitler ascende na Alemanha, Santa Fé em contraponto lida com eventos estranhíssimos: a chegada do automóvel, do cinema, da energia elétrica e do telégrafo, gerando uma revolução na cidade que arma alguma tem o poder de deter.
Mais que isso, o amplo debate político nacional também é tema central de todo o romance, desde Hermes da Fonseca ao assassinato de Pinheiro Machado, os personagens se enredearam em debates acerca da evolução, do progresso, dos sistemas políticos, sempre corroborando que a tirania está à espreita para se travestir de democracia, ou melhor, como diz o Cel. Jairo, “uma ditadura republicana positivista”. No mais, a figura do herói é abalada, não havendo personagens perfeitos, eventos dos mais diversos acabam por compor uma nova sinfonia na vida de muitos personagens, seja de Rodrigo, Flora, Toni Weber e outros mais, em mais uma continuação brilhante, ocasionando mais uma excelente leitura a mim.
O segundo volume de O Retrato está dividido em duas partes:
A sombra do anjo - conta a história de Rodrigo depois que chegou a Santa Fé. Está casado, com Flora, e já tem dois filhos. Continua a exercer a profissão de médico e inclusivamente já tem uma espécie de hospital, nos fundos da farmácia. Como já tínhamos observado no volume anterior Rodrigo é amante da modernidade, do conforto e das artes, e continua a tentar trazer todas essas coisas para aquele vilarejo. A Primeira Guerra Mundial tem um grande impacto na vida brasileira e em particular na do estado do Rio Grande do Sul. A maioria dos seus habitantes apoiou os aliados, porém, os colonos de origem alemã e italiana ficaram do lado dos seus países de origem o que originou alguns arranca-rabos. A instabilidade política no Brasil, a candidatura ao senado do Marechal Hermes da Fonseca, as desavenças partidárias e discussões filosóficas “regadas” a bom vinho e boa música dão uma certa movimentação à história. A chegada da família Weber (músicos austríacos) a Santa Fé, a sua permanência na cidade e o romance entre Antônia Weber (Toni) e Rodrigo mostram-nos a alma do protagonista, com os seus questionamentos e contradições.
Uma vela para o Negrinho - damos um salto no tempo e chegamos a 1945. Floriano, o filho mais velho de Rodrigo, visita o cemitério de Santa Fé, depara-se com a campa de Toni. Encontra Pepe no bar da cidade e posteriormente assiste ao discurso inflamado, e comunista, do irmão Eduardo.
No segundo volume se completa a trajetória do Dr. Rodrigo Cambará, em uma das melhores explorações de personagens que já li. Veríssimo expõe completamente a alma do Dr. Rodrigo, com todas suas contradições, oferecendo questionamentos e evitando explicações, como em toda grande literatura.
Técnica narrativa impecável, e com direito a arroubos de fluxo de consciência à moda Joyciana (amei essa parte), personagens muito bem construídos e imprevisíveis, e um retrato explícito do patriarcalismo tradicional imerso na nossa história, é de chocar ver os processos mentais de Rodrigo a partir do contexto atual das relações entre homens e mulheres, e o que mais horroriza é ver que muitos dos preconceitos da época em relação à mulher continuam fortes e vivos nos dias de hoje.
Essa segunda parte mergulha mais a fundo nas discussões filosóficas que parecem ser um dos pontos centrais de "O Retrato, como se fosse um "retrato" das correntes de pensamento do início do século XX. Facismo, anarquismo, comunismo, liberalismo, mentalidade pequeno-burguês, caudilhismo, são abordados e muitas vezes "encarnados" em diversos personagens".
E mais uma vez, o cuidado com a linguagem, a lapidação frase a frase, tudo isso faz de "O Retrato" um clássico da literatura. É uma pena que a maioria dos leitores de Tempo e o Vento parem no primeiro volume, O Continente. O Retrato é um livro muito diferente do Continente, mas é fantástico, merece ser lido e redescoberto. E para quem curte escrever, O Retrato é uma aula impressionante de como mergulhar e narrar as nuances da alma de um personagem contraditório e "vivo".
E agora vamos para Arquipélago, o último volume de O Tempo e o Vento e o último livro de ficção de Érico Veríssimo.
ANOTAÇÕES FEITAS DURANTE A LEITURA (CUIDADO, PODE CONTER SPOILERS!)
relação entre licurgo e rodrigo, relação católica entre o homem e o deus patriarca
machismo e orgulho, Rodrigo trata as mulheres como objetos para saciar seus desejos
personagens com vida interior intensa, pensamentos, emoções, dúvidas, vem e vão, como o vento dentro da alma, emoções complexas, justificações, racionalizações, egoísmo, e os momento dw confiança absoluta intercalados por dúvidas profundas.
Rodrigo é o Chantecler, da peça francesa, e Dorian Gray de Oscar Wilde.
Rodrigo se revolta quando descobre que o universo não gira em torno dele.
Rodrigo, o macho da elite no auge dos seus poderes em um contexto machista.
como é bom estar vivo - frase que se repete, o lema dos Rodrigos de Érico Veríssimo.
discussões sobre a morte, livro mais filosófico, grandw trabalho de carpintaria
Rubinho, a encarnação do nascente pensamento fascista
rodrigo cambará do romance o retrato é a reencarnação o capitão rodrigo do romance o continente o homem que ama a vida sem limites sensualismo sedutor energético mas em um contexto diferente ou seja o que aconteceria se o capitão rodrigo tivesse nascido dentro do contexto de rodrigo cambará a força do sangue a força da ancestralidade talvez uma metáfora para o espírito do rio grande do sul
o nascimento so facismo nas conversas dos amigos de rodrigo
morte de fandango, morte do sul tradicional
momentos pontuais de onisciencia, por meio de recortes
Pepe, o pintor anarquista : mais um estrangeiro em Santa Fé que não gosta do lugar mas que não sabe porque fica, como Carl Winters no vol. 1 de Tempo e o Vento
Mudança no estilo: narrador em terceira pessoa próxima subjetiva, refletindo as mudanças no estilo contemporâneo de narrativa. A narrativa é focada em Rodrigo apenas, quase sem mudança de ponto de vista narrativo.
rodrigo justifica sua infidelidade constantemente, de cima de sua posição poderosa de homem de elite
conflitos entre vida familiar amante é a mulher esposa problemas sexuais
técnica narrativa transição temporal em uma frase usando o ponto de vista profundo
tema: o ego masculino sempre leva a tragédia pessoal
técnica narrativa, ao fazer exposição, use uma metáfora para unificar a exposição inteira, fica elegante e de fácil entendimento para o leitor metáfora do leite para descrever a hieraquia social da cidade de santa fé rodrigo e o símbolo do cometa rodrigo como cometa
o livro explora a alma masculina ante aos avanços sociais do século XX
construção coletiva da verdade sobre uma pessoa
Cidadão Kane e O Retrato de Dorian Gray, referências.
a vinda apocalíptica do cometa marcando o novo século, junto com a volta de Rodrigo para Santa Fé.
o vento como símbolo novamente " a culpa é do vento"
Em geral, nas escolas gaúchas, Érico Veríssimo nos é apresentado como um escritor quase bairrista. Sua literatura seria comparável à sua aparência – embora simpática, tísica e envelhecida. Fala-se do gauchismo, do quanto Capitão Rodrigo representaria um ideal de bravura romantizado e assim por diante. “O Tempo e O Vento” assim seria um mero western provinciano.
Contudo, nada poderia estar mais longe da verdade. É bem verdade que a parte “O Continente” chega a parecer quase boba perto da segunda, O Retrato, mas isso pela densidade com que O Retrato conta. No palco apertado da fictícia Santa Fé, o gênio Érico Veríssimo é capaz de apresentar o mundo.
Não seria nada perto de um exagero ou hipérbole alçar Érico Veríssimo ao posto que verdadeiramente merece, de autor de uma obra universal. Habilmente, personagens provincianos e espantosamente verossímeis tornam-se porta-vozes de debates que dividiram o mundo na época retratada. Assim, pela genialidade de nosso patrício, podemos assistir a um debate entre um romântico de direita, irracionalista, nietszcheano, representado por Rubim, e um romântico de esquerda, o liberal doutor Rodrigo, cuja contradição entre a educação eurófila e as raízes crioulas não poderia ser mais representativa. Outros debates aparecem cristalinamente representados, a teologia, a psicanálise, a Primeira Guerra Mundial, a relação com o outro, o pensamento positivistas… Este são alguns dos temas abordados por um gênio literário capaz de combinar profundidade e fluidez como poucas vezes foi visto na história.
O Tempo e O Vento é uma série de livros que exploram o universal no particular. A obra, conjugando o melhor de cada tendência que a compõe é capaz de explorar dualidades barrocas sem contudo tornar-se enfadonha ou pesada. Fosse talvez Veríssimo filho de outra pátria, seria visto na dimensão que verdadeiramente tem. Érico Veríssimo é antes de tudo um forte, um Hércules franzino, um gigante gentil, um mestre paciencioso, que ensina a ler o mundo como poucos são capazes. Capaz de conjugar as virtudes literárias aparentemente mais contraditórias, Érico Veríssimo é muito mais do que um escritor, sua obra é um ato de heroísmo, uma representação fidedigna e, contudo, humanista, compassiva da humanidade. Érico Veríssimo não perde para Hemingway, nem para Twain, nem para Dostoiévski, nem para Kafka, nem para Tolstói. “O Tempo e O Vento” é colossal.
This is the second part of the second book of the trilogy O Tempo e o Vento.
The series tells the story of two families - Terra and Cambará -, and how they evolve through 200 years of history, from 1745 to 1945.
The two volumes of O Retrato was written in 1951 and describes the life of the doctor, Rodrigo Cambará in the city of Santa Fé, Rio Grande do Sul in the beginning of the 20th century.
The plot decries how the life of the inhabitants becoming changing by the advent of the electrical light, the first automobiles, the gramophone, the cinema and even the appearance of Halley's comet is commented by the characters. However, all historical news, such as the World War I and World War II, arrive into the city by the telegraph and the newspapers.
The portray which give the title of this second part of this trilogy, was painted by an Argentinian painter who was able to show the real soul of Rodrigo Cambará.
The saga continues with the there volumes of O Arquipélago.
Dificilmente alguém chega ao final do segundo tomo morrendo de amores pelo Doutor Rodrigo.
O que me chama a atenção é o gap entre o desejo dele de ser melhor e no fundo continuar sendo aquele canastrão, mulherengo, devorado por suas paixões...
Resolveu algumas menções que o volume 01 havia deixado no ar, como o próprio título e o nome daquele capítulo gigante ("Chantecler")...
Com certeza meu volume preferido da trilogia até agora, que faz entender porque se tornou um clássico da literatura, com a escrita tão verossímil.
Aquele tipo de livro suculento que te dá vontade de reler logo após de terminar (Legal, agora estou com vontade de comer fruta hehe).
Minhas linguinhas acabaram, então as citações ficaram prejudicadas, mas: - Captação do personagem de maneira visual no retrato;
- Exemplo de pessoa sanguínea: Rodrigo após pedir Flora em namoro;
- A ideia de que a primavera é bonita é uma lenda europeia, mantida artificialmente por poetas e artistas, que no sul do Brasil na verdade é céu nublado e clima instável (Paráfrase);
- Origem da gíria "Fita";
- Intolerância à intolerância (Rodrigo sobre o eixo na primeira guerra);
- " Sim, aquele era o destino dos intelectuais que queriam conservar a independência, a lucidez e o senso de humor. Eram eternos marginais, olhados com desconfiança e desamor pelos reacionários e com desdenhosa má vontade pelos revolucionários".
This entire review has been hidden because of spoilers.
Dos livros de O Tempo e O Vento que li, este foi o que menos gostei. O livro inteiro (O Retrato vol 1 e vol 2) falou sobre a vida do personagem Rodrigo Terra Cambará, achei que ficou muito cansativo e não aguentava mais ler o nome da Toni na história… Não teria ficado tão cansativo se o Rodrigo fosse um personagem interessante e cativante, mas ele não é. Achei interessante o porquê do livro se chamar O Retrato e a sua semelhança (meio invertida) com a obra de Oscar Wilde. E a última parte “Uma Vela para o Negrinho” foi muito, muito boa (melhor até que o restante do livro) e parece que a história de O Arquipélago promete.
Vai no cabeleireiro, no esteticista, malha o dia inteiro...
Infelizmente há pouco a falar sobre O Retrato como um todo. Se O Continente foi um épico que transitou ao longo do tempo através dos arquétipos e dicotomias de homem/mulher, religião/secularidade e paz/guerra ao longo dos tempos, O Retrato é tão somente uma pintura feita por um artista deslumbrado com as últimas inovações técnicas da Europa. Isso me parece tão ridículo quanto o protagonista, o Dr. Rodrigo, profundamente iludido com a ideia de ser um livre pensador, ao mesmo tempo em que é apenas uma marionete da sua condição de novo burguês terceiro-mundista, um vira-lata das tendências da Europa. Acho que é isso que tem pra discutir sobre esse livro - nunca tivemos uma elite intelectual, somente econômica, e por isso mesmo nossa burguesia é profundamente vira-lata.
Vários dos artifícios do Verissimo continuam aqui, ele é um autor que trabalha em torno do detalhe, da epifania e da moldura e isso se mantém, mas com uma ordem invertida. A tônica d'O Continente era o encadeamento das histórias num fio maior, e aqui esse fio maior está submetido à história de um personagem que é ele sim maior do que todos os outros na obra. O Chantecler que se posiciona à sombra do anjo é um personagem tal que tudo que ele tem de bom advém exatamente do que há de ruim nele. É um homem generoso que dá aos pobres porque é um homem rico que gosta de se sentir uma boa pessoa, e é um amante da vida que se entrega a várias amantes, mulheres da mesma vida, se esforçando pra manter a figura de bom marido. O Dr. Rodrigo é o Cap. Rodrigo d'O Continente, mas agora não há mais espaço pro heroísmo bélico individual, agora a eminência é política. E infelizmente um herói político tende a ser mais *chato* do que um herói de guerra, principalmente quando é um burguês.
Em resumo, eu teria apreciado mais a antropofagia que o Verissimo faz de obras como Chantecler e O Retrato de Dorian Gray se eu não tivesse que acompanhar aquele que é o personagem - até aqui - mais insuportável da saga bem de perto por dois volumes inteiros. Porque o Verissimo continua sendo um bom escritor. Mas eu teria apreciado mais essa antropofagia ainda se se tratasse de uma antropofagia de fato. Os gêneros e artifícios que ele mobilizou n'O Continente serviram pra uma obra coesa e abrangente, mas aqui ele vira tudo do avesso e parece que só emula uma certa tradição europeia amorfa.
O que me leva ao mais interessante do livro que são as últimas 20 páginas, que servem de prelúdio a O Arquipélago. Elas seguem Floriano, filho do Dr. Rodrigo, escritor de três romances que a crítica considerou como formalmente excelentes mas pobres de conteúdo, sem dramas humanos essenciais que façam dessas obras mais do que meramente bem escritas, mas memoráveis, uma crítica com que Floriano concorda. Ele entra numa altercação com o irmão Eduardo, comunista stalinista, adepto do modelo rígido do realismo socialista, que renega Proust pelos vícios pequeno-burgueses apesar de lá no fundo gostar muito da Busca.
Essa partezinha no final levanta a questão de o quanto de Erico Verissimo há em Floriano Cambará, não só por ser este um personagem escritor mas por aquela reminiscência dele em frente ao túmulo de uma personagem que foi importante neste volume. Ele pensa em escrever sobre, resgatar a história dela num trabalho jornalístico de trabalhar com as fontes primárias, e reviver a defunta através da sua ficcionalização, coisa que o próprio Verissimo fez e continuou fazendo nessa saga. Esse livro é de 51, época em que ele já amadurecera os temas de, por exemplo, Olhai os Lírios do Campo, um romance em que a crítica de ser um livro vazio cabe muito bem. É um romance água com açúcar moralista, digno de novela das nove. A partir de O Tempo e o Vento, o Verissimo amadurece tremendamente enquanto escritor e passa a escrever personagens complexos. Me parece que aqui a carapuça serviu um pouco demais, e nesse volume ele foi além da conta. De qualquer forma dá um gostinho a mais pra ler O Arquipélago.
A história do Rio Grande do Sul continua a ser contada por meio da saga da família Terra Cambará. Neste quarto livro e fim da segunda parte, o foco é em Rodrigo Terra Cambará, bisneto e herdeiro em temperamento do Capitão Rodrigo, um dos protagonistas da primeira parte da obra "O Tempo e o Vento".
Assim como na primeira parte da obra, "O Retrato" tem início e fim em um tempo presente (no caso, 1945, logo após a queda de Getúlio) e todo o miolo construído em memórias que começam 15 anos depois do final de "O Continente". A narrativa aqui perde velocidade e ganha fortes laços psicológicos, que vêm com a complexidade e os dilemas que afetam Rodrigo e sua percepção sobre quem ele é e qual o seu papel na sociedade.
Diferente de seus antepassados, Rodrigo pôde desfrutar do privilégio de ser herdeiro de uma família dona de grandes propriedades rurais e elite econômica e social do estado e do Brasil. Com isso, ele teve também a oportunidade de estudar em Porto Alegre, de viajar e conhecer metrópoles mundiais, o que lhe deu uma visão de mundo e a consciência de seus privilégios.
As angústias de Rodrigo em querer ser bom e exemplar, ou render-se a seus preconceitos e ímpetos do típico gaúcho do início do século XX têm o papel de fio condutor do romance e os encontros, debates, amores e conflitos que protagonista tem com os demais personagens constróem todo o enredo e trazem as diversas reflexões sobre os fatos históricos e sociais que transcorreram durante o período de 1910 a 1915.
O mesmo ocorre em relação aos dilemas de uma cidade que acompanha a evolução tanto tecnológica, quanto social, mas vê-se com fortes raízes na tradução e nos costumes interioranos. Nesse aspecto, é muito interessante perceber a crítica de Erico Verissimo às tradições gaúchas, que sempre o incomodaram. Para ele, originário de Cruz Alta, a cidade que inspira a vizinha fictícia Santa Fé, muitos dos valores tradicionais do gaúcho são questionáveis e atrasados.
Por ser muito centrado em Rodrigo, o romance perde a presença de personagens femininos fortes (resta Maria Valéria em um papel muito reduzido), que foram tão marcantes no Continente e tiveram importante destaque na crítica ao machismo retratado na época. Aqui, ele ainda é evidente, mas carece da visão introspectiva da mulher no contexto retratado no livro.
Ainda assim, o romance é obrigatório. Os duelos ideológicos entre os diversos personagens nos transportam para a época e não nos deixa indiferentes. Em tempo, Rodrigo Terra Cambará é particularmente irritante.
Rodrigo é a caricatura da elite brasileira: com origens misturadas e por vezes desconhecidas e aspirações europeias. Dispostos à luta política, porém sem desistir de seus próprios privilégios. Caridoso, porém se aproveita de oportunidades quando lhe convém. Louva a família, mas não se contém diante de suas tentações e depois de observar seu furor e ascendência em o Retrato I é muito interessante observar sua decadência.
Por muitas vezes me identifiquei com Rodrigo de O Retrato I, e infelizmente em algumas vezes com o Rodrigo de o Retrato II. Uma profunda reflexão sobre a hipocrisia humana e uma exploração de forma crua do fato em que não há vilões e mocinhos, há pessoas vivendo em eterna contradição, questionamentos, errando enquanto quer acertar.
Uma profunda análise da consciência humana e da sociedade brasileira com boas discussões filosóficas e um aprofundamento histórico detalhado que Érico sempre entrega.
Já não tenho muito mais o que dizer de diferente sobre os livros da série "O Tempo e o Vento", visto que Érico Veríssimo mantém sua escrita excepcional, que prende e impressiona. Nesse volume, acredito que questões políticas são mais aprofundadas e o que entra em foco são as opiniões de Rodrigo, seu cotidiano e seu ciclo social. É incrível notar a diferença geracional de comportamento entre toda a família Terra-Cambará ao longo da série e, mesmo assim, a semelhança familiar de comportamento que aparece em todas as gerações; dentre tantas outras coisas, como também, os sentimentos e emoções mais intensos que são transmitidos ao leitor por meio da escrita. Não pude terminar esse volume sem esperar ansiosamente pelo próximo, que já lerei em breve.
Nesta parte de O Retrato, o dr. Rodrigo passa a focar mais em tocar sua vida, e não em questões políticas. Fica evidente como é um homem falho e hipócrita, que procura as melhores desculpas para justificar seus erros. As mulheres continuam com pouco destaque na obra. O final é curioso ao mostrar como os decentes de Flora e Rodrigo pensam de modo muito diferente, o que cria uma desunião na família (algo semelhante ao que vemos recentemente com a polarização política).
Desisti aproximadamente na metade. Não é que seja ruim, mas não chega nem perto do que foi o Continente. Até então minha personagem favorita era Maria Valéria, mas ela não teve muita importância nesse livro, além disso, em determinado momento não se aguenta mais ler sobre homens brancos e ricos fazendo das suas, seria mais digesto se houvesse uma perspectiva diferente uma vez ou outra diante do pedantismo do protagonista.
Tem horas que esses homens da família Cambará irritam muito. Fiquei com muita pena da Toni, tão jovem e inocente. As últimas 10 páginas são bem chatinhas mas acho que é preparativo para o próximo livro.
Título: O Tempo e O Vento 2 - O Retrato vol. 2 Autor: Erico Verissimo Editora: Cia das Letras (2004) Páginas: 368 Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
_____________________________________ A conclusão do segundo tomo de O Retrato -- na minha opinião bem melhor que o primeiro -- temos um Rodrigo ainda mais contraditório e ainda mais instável. Passados 5 anos, vemos um Rodrigo já casado, pai de dois filhos, plenamente estabelecidos sua farmácia e seu pequeno hospital, ou seja, um homem realizado. Mas se assim ele se visse, seria uma traição ao fervilhante sangue Cambará. Por isso mesmo Rodrigo se vê comportando-se segundo os ditames desse sangue, um retrato minucioso mas discrepante de um homem letrado, conhecedor das principais correntes ideológicas ora vigentes, mas que dá vazão à seus instintos, muitos deles irresponsáveis e inconsequentes. Não sei se gosto ou não de Rodrigo: quando se pensa que ele finalmente usará sua influência e poder para ajudar os menos desafortunados, você o vê quebrando sem qualquer arrependimento, as convenções sociais, chegando ao ponto de, por causa de sua volúpia indecente, fazer uma moça de família ceifar a própria vida... É neste tomo que outras ideias são livremente discutidas, como o eterno debate entre igreja e filosofia, nas figuras do Padre (existência de Deus) e do Coronel (Positivismo). São também introduzidas as ideias comunistas e alguns fatos que levaram Getulio Vargas ao poder. Mas é no final, que de fato você reconhece o retrato dos Terra Cambará, só Sobrado e de Santa Fé. As elucubrações de Floriano Cambará são um meticuloso retrato das gerações de uma família antes forte, influente, que aos poucos foi definhando, perdendo sua identidade. Talvez o único resquício de outrora se ache pendurado na sala do Sobrado: o retrato que Don Pepe García fez de Rodrigo, com seu olhar perdido no horizonte, imagem bem mais promissora que a realidade.
A segunda parte de O Retrato regride no tempo e mostra o início da figura do Dr. Rodrigo Cambará, quando ainda era um jovem médico sonhando em transformar sua cidade-natal e se tornar, ou melhor dizendo, retomar o posto de novo potentado da cidade.
A forma como Rodrigo tenta mudar hábitos antigos de forma inicialmente democrática para depois utilizar-se da violência faz um paralelo com a própria História do Brasil, onde o sistema de saúde e sanitário teve que muitas vezes se valer de armas para realizar os seus intentos.
Igualmente reveladora, é a forma como Rodrigo enxerga a si mesmo como um "pai de família", mas costumeiramente se apaixona, seduz e arruína mulheres em seu caminho, afinal, é coisa de "macho". Tal interpretação é bem mais recente do que gostam de admitir os críticos do livro, mas o fato é que Veríssimo não poupou os políticos interioranos na construção de sua personagem.
O carisma, o clientelismo, a corrupção, tudo está dolorosamente lá, como diria Floriano, o personagem principal de O Arquipélago que faz uma breve aparição nesse volume.
Segundo volume da segunda parte da série O Tempo e o Vento, aqui se encerra a saga da familia Terra-Cambará, narrada sob a visão de Rodrigo Cambará que nos descreve todo o panorama histórico da década de 1940.
Qualquer semelhança com O retrato de Dorian Gray é mera coincidência?
Gostei mais do primeiro tomo dessa segunda fase de O tempo e o vento, embora seja nesse momento em que se fecha o ciclo Rodrigo Cambará, mostrando mais sua verdadeira face.
Amo essas histórias. Dr. Rodrigo foi um protagonista difícil de acompanhar, por seu caráter duvidoso, mas me peguei pensando que se tivéssemos tido mais do Capitão Rodrigo do que apenas um capítulo eu talvez não gostasse tanto assim dele…
Eu simplesmente não consegui gostar do Dr. Rodrigo Cambará. Maaaaaas, ainda tem mais três livros, então TALVEZ essa minha impressão se altere no decorrer dos próximos volumes. De qualquer forma, acho maravilhoso como Erico Veríssimo desnuda a alma de seus personagens, nada fica oculto, temos uma visão extremamente realista dos fatos, personagens e seus reais significados. Aqui personagens não podem usar de falsos sentimentos para justificar as ações. Tudo é deixado claro para o leitor. Aliás, não achei que fosse gostar tanto desse viés histórico do Rio Grande do Sul, então me surpreendi com a rapidez que a narrativa flui.
3.5 - O Retrato é tão diferente de O Continente que nem parece ser da mesma série de livros. Ele deixou de atingir minhas expectativas porque, depois de ler o primeiro livro da série no qual é contado 150 anos de história, de inúmeras gerações, personagens interessantes, guerras e revoluções, foi meio que um choque ler dois tomos focados num único personagem, uma espécie de anti-herói. O desenvolvimento do personagem e a escrita são muito bem feitos, porém eu senti falta de mais ação e foco em outros personagens, como as mulheres guerreiras que conhecemos em O Continente. Ainda assim, é um sentimento bom quando tu reconhece os lugares e costumes mencionados no livro que fazem parte da tua vida de gaúcho.