Nota: 2.75
Bento é um livro que me marcou quando o li pela primeira vez no já longínquo ano de 2003, pouco após ser lançado. Na época, eu era adolescente e ainda não conhecia a obra do autor, mas lembro de como a ideia havia me chamado a atenção de imediato; uma fantasia épica envolvendo vampiros, profecias e guerreiros místicos, tudo isso ambientado em um Brasil pós-apocalíptico. Pode-se tecer alguns comentários nem sempre elogiosos acerca do estilo da escrita de André Vianco, mas ele transita com tranquilidade entre os lugares-comuns do gênero com o qual trabalha, e não dá para acusá-lo de falta de criatividade ou de ser ruim com worldbuilding. Bento faz bem em se reconhecer como uma obra de ação com pitadas de terror, e embora faça menção à questões mais profundas, não permite que as mesmas o forcem a assumir tons pretensiosos. Porém, mesmo esse saudável grau de autoconsciência aliado a um bom conceito não são o suficiente para tornar a narrativa menos morosa.
O grande problema do livro é a prosa, a qual sofre daquilo que costumo chamar de "Síndrome de Cavaleiros do Zodíaco"; um mal que também acomete outras obras da fantasia moderna brasileira, como A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr. Em suma, ela tende à prolixidade, é repleta de exposições desnecessárias e de personagens que teimam em se comunicar como se estivessem em uma telenovela. Há também parágrafos e mais parágrafos explicando coisas que fluiriam melhor caso estivessem costuradas ao drama e ao diálogo. Avesso ao princípio do "Mostre, não conte" e quase completamente desprovido de sutileza, o texto não cansa enquanto não explicar ao leitor, como se o mesmo fosse uma criança, os pormenores da cena em questão, inobstante o quão óbvios sejam. Este fenômeno se repete até, literalmente, a última frase do livro. Perdi a conta de quantas vezes fui "lembrado" pelo roteiro de que um punhado de olhos rubros e brilhantes na floresta era um grupo de vampiros empoleirados, ou de que sujeitos utilizando armaduras, espadas de prata e capas vermelhas eram bentos. Às vezes, parte de mim não se surpreenderia caso Vianco descrevesse alguém tomando água e então gastasse uma linha extra com "... essa substância líquida, sólida ou gasosa que nos dá vida e mata a sede!". Tal abordagem, a meu ver, é somente aceitável em livros infanto-juvenis (decididamente não é o caso) ou por amadorismo do autor, e dada a experiência de Vianco em 2003, isso não corresponde à realidade. Também há uma profusão de personagens, muitos deles sem grande relevância na história, mas que mesmo assim são quase todos acompanhados de verdadeiras fichas de RPG com descrições e tudo mais, tornando a leitura para lá de cansativa.
Basicamente, Bento é mais um caso clássico de uma boa ideia surrada por uma execução meio capenga. Além de cortar gordura, precisava urgentemente de um editor capaz de dar um pouco de foco a um escritor que, embora talentoso, aparentemente ainda não tinha muita noção dos próprios limites. Mas ah, para não fechar esta resenha com um comentário negativo, que fique registrado: Mesmo com todos os problemas, esse livro ainda é muito superior a Twilight.