Quem me conhece, sabe que nutro alguma animosidade em relação aos romancistas americanos. Ressalvando algumas exceções, como por exemplo, Philip Roth, a literatura americana, pelo menos aquela que tenho tido acesso, enquadrado no género contemporâneo, entedia-me sobremaneira.
A minha primeira abordagem à obra de Michael Cunningham deveu-se “Ao Cair da Noite”, narrativa que abandonei, já ia eu na pág. 130 - num total de 306 -, levando a minha paciência ao limite ... bocejando em cada página, parágrafo ou linha, desisti ... e, como sabemos, ao iniciarão-nos na obra de qualquer escritor, se a primeira leitura não nos agrada, consideramos autor banido para o resto do nosso tempo.
Nas tertúlias literárias que mantenho com algumas amigas, foi-me sugerido “Dias Exemplares” ... não, obrigada, vade retro MC. Mas a minha amiga garantiu-me que iria gostar e, assim sendo, tão bem recomendado, lá me lancei na aventura ...
E, meu amigos, surpresas das surpresas .... “Dias Exemplares” encantou-me muito por força da magnífica originalidade da estruturação literária utilizada por MC. A narrativa divide-se em três partes todas passadas nos EUA:
1. Século 19, com a Revolução Industrial aflorando os modelos da taylorização que caracterizou a mecanicidade do trabalho laboral em fábricas que, por trás do enorme desenvolvimento que trouxeram ao mundo ocidental, escondia, invariavelmente, autênticos horrores no manuseamento das máquinas;
2. A segunda parte, leva-nos à atualidade ... a ação decorre no primeiro quinquénio do séc.21 ... Nova York, ainda traumatizada da tragédia do 9/11, procura a salvação da humanidade com ainda mais atentados perpetrados por locais, eles próprios fundamentalistas que incitam crianças ao ódio e à violência:
3. Q último capítulo, cuja ação decorre 300 anos depois, trata-se de uma distopia .... seres alienígenas que convivem com humanos biológicos, uma abordagem da inteligência artificial, muitas vezes seres híbridos, vivendo numa Nova York hiper vigiada por drones que tudo sabem sobre a nossa existência. Fala de seres provenientes do planeta Nardia e que desempenham funções menores na sociedade terráquea, num mundo afetado pelas catástrofes ambientais.
E qual é a linha que une esses três capítulos? Para além do nome das personagens principais, Simon em todos os três momentos e Katherine, Cat e Cateleen, a angústia, a ansiedade, o medo, o extermínio, a tragédia, a convicção de que em algum momento, a civilização terá um momento d paz e felicidade, conceitos esses completamente distorcidos neste livro.
Mas ainda assim, pese embora a carga extraordinariamente negativa que perpassa toda a narrativa, sempre temos a intervenção do poeta americano Walt Whitman, nomeadamente com varias citações do seu trabalho mais significativo “Folhas de Relva” e que, de alguma forma, suaviza a loucura inerente a todos os momentos desta estranha estória.