Selecção de sete contos, numa celebração dos duzentos anos do autor à data da publicação. Sinto agora que é quase indesculpável, aos trinta e dois anos de idade e para quem sempre esteve tão confortável no lado negro, nunca ter lido Poe.
São duzentas e poucas páginas de exploração daquilo que a astúcia, o insano, o macabro ou a doença podem provocar no comportamento humano. Em contos de poucas páginas, Edgar Allan Poe consegue frequentemente fazer-nos desconfiar de motivos malignos ou sobrenaturais por detrás do comportamento das personagens para depois rematar com uma explicação detalhada da maior sagacidade e astúcia que os planos da mente mais tresloucada podem ter, ou vice-versa. Assim, o autor transporta-nos por uma fusão de géneros que vão desde o terror e o fantástico até ao thriller e o policial.
Sem entrar em detalhes sobre o conteúdo de cada um dos contos, mas seguindo o raciocínio anterior, diria que cada um deles propõe uma leitura curta, mas intensa. Diria até pesada, no sentido em que Poe descreve os pormenores do mais hediondo dos crimes ou os intentos da mente mais retorcida e misteriosa como se fossem as coisas mais banais do mundo, conseguindo provocar-nos uma sensação de inquietude e tenebrosidade, mas simultaneamente fascínio e magnetismo. Porque, apesar disso, não vamos querer parar até descobrirmos como termina a história.
Relativamente ao estilo, pode aborrecer ao leitor actual algum remoer prolongado nas emoções das personagens, mas isso é apenas o reflexo do pleno período romântico em que o autor viveu. A enfatização do sentimento e da subjectividade, a correlação entre as características do clima e do espaço e o estado mental e físico dos indivíduos (e a influência que isso tem na sua sanidade... ou falta dela!)... Na minha opinião, até ajuda a adensar o mistério e aumentar o interesse, pois não há história de terror e fantasia que se preze sem uma boa carga de suspense emocional.
Em resumo, agora sei porque Edgar Allan Poe é leitura obrigatória para quem gosta de fantasia, horror, mistério e derivados. Pensando nas características das histórias de muitos livros e filmes (até de música) destes géneros que já vi, percebo agora porque é que ele é considerado um dos grandes precursores. E o original é sempre melhor que as imitações! Mestre.