Eis um pouco da leitura: Os sonhos orientam o ego consciente para uma atitude adaptada e madura frente à vida. Os sonhos procuram regular e equilibrar as nossas energias físicas e mentais. Eles não apenas revelam a causa básica da desarmonia interior e da angústia emocional, como também indicam o potencial de vida latente no indivíduo; apresentam soluções criativas para os problemas diários e ideias inspiradas para o potencial criativo da vida. Jung descobriu que enquanto dormem, através dos sonhos, as pessoas despertam para aquilo que realmente são. Os sonhos nos mostram como encontrar um sentido em nossas vidas, como cumprir nosso próprio destino e realizar o potencial maior de vida que há em nós. Parece, portanto, haver em nós uma inteligência superior que poderíamos denominar guia interior ou centro divino que produz os sonhos, cujo objetivo parece ser tornar a vida do indivíduo a melhor possível. Os sonhos costumam tocar nosso ponto cego. Eles nunca nos dizem o que já sabemos, mas o que não sabemos. Na técnica na psicologia junguiana compara-se o sonho a um drama e o examina sob três aspectos estruturais: primeiro, a introdução ou exposição - o cenário do sonho, os protagonistas e suas associações com o próprio sonhador e a colocação do problema; segundo, a peripécia - o desenrolar da história; e finalmente, a lysis - a solução final, ou talvez a catástrofe. Alguns sonhos acabam sem levar a nada - esses não são favoráveis e isso quer dizer que o próprio inconsciente não tem solução. Fora esse caso, porém, o que quer que aconteça no fim do sonho é a solução. Em geral, eu diria que cerca de 85% dos temas oníricos são subjetivos. Eis alguns simbolismos básicos: 1. Os sonhos de queda brusca em geral coincidem com fortes desapontamentos exteriores, quando subitamente nos vemos frente à realidade tal qual ela é - o que pode ser um choque mortal para o ego. O que quer dizer isso, quando o sonhador morre ou é assassinado num sonho? Isso quer dizer que a atitude do ego, como se configura naquele momento, deve desaparecer. A morte do sonhador significa uma mudança radical, não restando nada da velha pessoa ou da velha atitude. 2. A estrela, por sua vez, tem a ver com a eternidade do aspecto único da personalidade, a alma imortal. É isso que foi projetado na estrela. 3. A pedra também recebe essa mesma significação. 4. Na heráldica a águia é o pássaro dos reis e dos líderes. Assim como o leão é o rei dos animais selvagens, a águia é o rei dos pássaros. Ela tem a ver com o desejo de poder, mas também com a elação espiritual, com os altos voos do pensamento e da fantasia. 5. Costuma-se falar do rio no sentido do fluir da vida, o fluir do tempo. O tempo é um rio que desemboca no oceano da eternidade. A vida é um rio que começa numa jovem fonte e termina no mar da divindade, e assim por diante. O rio é um símile famoso para os sempre mutáveis fatos da vida, que na verdade são as mudanças constantes da substância psíquica que nos carrega. 6. A pirâmide quadrangular composta de quatro triângulos e um quadrado é um símbolo daquilo que Jung denomina Self, o centro divino mais profundo da psique. É uma imagem do Self para ambos os sexos. Quando personalidade, o Self aparece para o homem como velho sábio e para as mulheres como velha sábia. Quando não personificado e sob a forma do que chamaríamos de mandala, transcendendo as diferenças de gênero, ele simplesmente significa o centro mais profundo da psique. A pirâmide é a tumba que sobrevive à morte e ressuscita os mortos para a vida eterna em comunhão com o Deus-Sol. Quando os raios do sol nascente batiam na pedra o faraó em sua tumba tinha uma iluminação. Erguia-se dos mortos e novamente despertava do mundo subterrâneo. Durante toda a história religiosa da nossa cultura judeu-cristã os sonhos tiveram um papel central na determinação do destino da humanidade. Eles eram tidos como a voz de Deus. As pessoas demasiado racionais e materialistas sonham com coisas sobrenaturais como se o inconsciente lhe avisasse que no reino da psique, milagres podem acontecer. Na raiz do sonho há um mistério criativo que não temos como explicar racionalmente. É a mesma criatividade que criou aquilo que o homem jamais poderia ter inventado: as milhares de espécies de animais, flores e plantas que há na Terra. Os sonhos são como flores ou plantas. São algo único, diante do que só podemos nos maravilhar. Todos nós temos nosso inimigo favorito - digamos nosso melhor inimigo. Eles são, em geral, a nossa sombra. É natural que você odeie alguém que lhe faça mal. Mas se alguém não lhe fizer mal nenhum e mesmo assim você fica louco de raiva cada vez que essa pessoa aparece, pode estar certo que é a sombra. O melhor que se tem a fazer nesse caso é sentar-se e escrever um texto sobre as características dessa pessoa. Depois de pronto, leia e diga: "Este sou eu."
Muitos policiais lutam contra a própria sombra na exterioridade de um criminoso e teriam uma inclinação criminosa se não fossem policiais. Esse é apenas um exemplo, que os criminologistas conhecem muito bem. Por experiência própria posso dizer o seguinte: Quanto mais a pessoa se julgar sempre correta, não vivendo nunca seu lado sombrio, mais ela o projetará e encarará os outros como malfeitores. O correto vive num estado de permanente indignação, derrotando a própria sombra sob a forma de uma pessoa exterior. De modo geral, se algo nos sonhos nos persegue, é porque quer chegar até nós. Mas nosso medo lhe confere uma aparência maléfica. Se formos capazes de encarar esse lado da nossa natureza e aceitá-lo, provavelmente ele se tornará mais benevolente. É claro que todas as regras de interpretação de sonhos são paradoxais. Às vezes somos perseguidos num sonho por poderes do inconsciente dos quais é correto fugir. Na psique há tendências destrutivas que devemos evitar. Mas 80% do que nos persegue em sonhos é, na verdade, algum aspecto valioso da nossa personalidade que deveria ser integrado. A educação força o ego a usar máscaras e então nos comportamos de forma não natural. Reprimimos nossas reações animais ou simplesmente humanas por polidez ou qualquer outra exigência da situação social. As pessoas sem sombra, que se pretendem perfeitas dentro dos seus protótipos de perfeição pré-estabelecidos, provocam uma inferioridade no ambiente que irrita os demais. Elas agem de um modo superior ao demasiado humano. A perfeição está em sermos vida perfeita de Deus e ponto, nada mais precisa ser definido ou avaliado em nós. A perfeição está na naturalidade, na espontaneidade de ser o que se é sem medo ou culpa, errando e acertando, fluindo abertamente e sem pressão ou regras fixas, mas os perfeccionistas não entendem isso. Temos um provérbio que diz: "O homem bom presta muita atenção no mal que o outro faz." Aí ele pode dizer: "Ah, foi ele, e não eu." Isso desempenha um grande papel na chamada psicologia do bode expiatório. Na antiguidade, os gregos, os judeus e outros povos mais achavam que podiam purificar a sociedade escolhendo algumas pessoas como bode expiatório; elas eram sacrificadas ou enviadas ao deserto. Carregavam consigo a projeção de todos os pecados da comunidade. Jesus foi um deles. Pesadelos são sonhos substancialmente e vitalmente importantes. O ponto do sonho em que despertamos é o choque através do qual o inconsciente diz: "Agora, é isso, preste atenção nisso!" O pesadelo é, portanto, uma verdadeira terapia de choque. A intenção é nos sacudir e arrancar de uma sonolência inconsciente a respeito de alguma situação perigosa. A ocorrência de pesadelos indica que estamos correndo algum tipo de perigo psicológico e dormindo, sem perceber. O pesadelo então nos desperta. Sua característica é apresentar certa urgência, como se o inconsciente dissesse: "Olhe aqui, esse problema é urgente!" Como um complexo dissociado funciona na vida de uma pessoa? Como um vampiro que lhe suga a energia vital. A pessoa suprime e sufoca a si mesmo, aos seus dons e talentos. O vampiro ou ser sugador e devorador leva a pessoa a ficar na inércia, vivendo só no mundo da fantasia, seja pela justificativa que for. Um homem que não desenvolveu a anima, seu lado feminino, em geral é narcisista. Na verdade, ele ama sua própria fantasia. Ele ama o fato de estar amando, mas isso está longe de aprender a amá-la de fato. Na literatura é comum a figura do jovem que descobre a experiência do amor, mas é autoerótico. É uma fantasia, a partir da qual, através de um doloroso sofrimento, ele deve aprender a amar a mulher, não enquanto objeto de suas fantasias românticas, mas como parceira humana. A anima passa por vários estágios e abarca um amplo leque de fatos psicológicos. Jung disse que há quatro imagens principais da anima: Eva, Helena, Maria e Sofia, a sabedoria de Deus. Eva seria a mulher biológica; quando aparece como anima de um homem ela implica sexo biológico, atração física, maternidade, a imagem comum de mulher atraente. Helena está num estágio mais elevado. Ela representa a hetaira dos gregos, ou a gueixa: mulheres cultivadas com quem se pode ter não apenas uma aventura sexual, mas também falar de poesia e filosofia. Ela seria a companheira espiritual - sem excluir sexo romântico. O próximo estágio é o da figura da anima no Cristianismo. Ela é a Virgem Maria, forma suprema de espiritualidade, mas unilateralmente elevada demais. Falta-lhe o lado escuro, o lado Eva das mulheres, o lado terreno e sombrio, mais biológico, mais amplo, mais natural da anima. Ela é um pouco elevada e idealizada demais. Portanto, o quarto estágio, a sabedoria de Deus, como Jung notava sorrindo, é uma descida, porque a sabedoria não é uma espiritualidade tão virtuosa assim. A sabedoria está mais perto da vida. Se alguém sonha com um marido ou mulher que não se assemelham aos parceiros reais, trata-se então da esposa interior, ou do marido interior. Isto é, a principal figura de anima ou animus com a qual a pessoa está, por assim dizer, sempre casada interiormente: é o casamento interior. A anima é o sentimento de um homem, sua sensibilidade, sua consciência de coisas interiores. Se tiver uma relação positiva com a anima, o homem é receptivo aos processos espirituais que ocorrem nas profundezas da psique. Em sua forma desenvolvida, a anima é no homem a capacidade de amar, em contraste com o desejo de poder. É amar por amar, da forma mais elevada. Estar vivo não é apenas um fato físico, mas psíquico. Estamos vivos quando nos sentimos vivos e o que nos faz sentir assim é o contato com esse fluir da psique inconsciente. É por isso que os sonhos são tão importantes. Falando sobre o animus no feminino, as garotas que se comportam como princesas do papai têm muita dificuldade de se relacionar com os homens e correm o risco de não se casar e ter filhos porque, quando um homem as aborda sexualmente na vida comum e corrente, elas ficam encasteladas atrás de um muro de invisível inatingibilidade. As lindas menininhas do papai acabam se transformando em princesas presas na torre, inalcançáveis pelo homem comum. O animus se divide em quatro fases: Primeiro ele aparece como personificação do mero poder físico, por exemplo, como campeão atlético ou homem musculoso. No estágio seguinte, ele tem iniciativa e capacidade de ação planejada. No terceiro, o animus torna-se o "verbo" e finalmente, em sua quarta manifestação, ele é a encarnação do significado. Em seu mais elevado nível ele se torna (assim como a anima) um mediador da experiência religiosa, através da qual a vida adquire um novo sentido. Ele dá força espiritual à mulher, uma invisível sustentação interior que compensa sua delicadeza exterior. Nesse nível mais elevado o homem interior funciona como uma ponte para o Self. Ele personifica a capacidade de uma mulher ter coragem, espírito e verdade, estabelecendo uma ligação com a fonte da sua criatividade pessoal. Mas, assim como há a anima vampiresca do homem, o animus em sua forma negativa é um parasita. Ele personifica a brutalidade, a frieza e a obstinação, e paralisa o crescimento da mulher. É bastante comum, no decorrer da vida, sermos subitamente assolados por um novo aspecto da nossa personalidade. Temos novos sentimentos ou reações que nunca tivemos antes e muitas vezes, por puro hábito, não gostamos da nova experiência. Não gostamos de mudar. No decorrer da vida, acertadamente e às vezes não, partes da nossa personalidade morrem dentro de nós e outras nascem. A transformação do animus acarreta um sofrimento imenso, pois significa nada menos que abandonar uma velha identidade em prol de uma nova. É preciso uma enorme coragem. Mas a aventura vale a pena, porque as recompensas são imensuráveis. Uma mulher cujo animus esteja ferido ou não funcione é passiva demais. Ela fica demasiado exposta às vicissitudes da vida. Ela não consegue pegar o próprio destino nas mãos. O animus, portanto, é uma figura muito positiva. Em sua forma negativa, o animus, o homem interior da mulher, é uma força do mal que destrói a vida. Ele separa a mulher da sua própria feminilidade. Ele a afasta do calor humano e da delicadeza, deixando-a isolada num mundo sem sentido, martirizada por mãos invisíveis. Ela sente a si mesma como vítima, presa na armadilha das circunstâncias externas ou de um destino cruel. No fim, ela pode chegar a crer que sua terrível solidão não terá alívio neste mundo e mergulhará em fantasias de morte. A mãe para uma mulher representa a base instintiva, a matriz, a região do útero. A mulher que tem problemas com a mãe costuma tê-los também com menstruação, sexualidade e sentimentos maternos. Na outra face da moeda esta a figura do pai. Em geral, o primeiro homem que uma mulher conhece é seu pai, que, portanto, tem uma influência muito grande sobre a menina. Se a relação com o pai se constela de modo negativo, a menina reagirá negativamente a ele. O pai, em si, pode ser ou não um homem mau ou difícil. A menina pode simplesmente não gostar dele. Mas, de qualquer modo, se a relação for negativa, mais tarde ela provavelmente terá dificuldade com os homens e não descobrirá seu próprio lado masculino. No extremo, ela tenderá a ficar completamente incapaz de abordar os homens. O primeiro que ela encontrou na vida foi um horror, portanto todos os homens são um horror. Ela poderá tornar-se lésbica ou evitar cabalmente os homens. Com certeza, terá medo deles. Se o caso não for tão extremo, ela será o que se costuma chamar de uma mulher difícil. Discutirá com os homens, tentará sempre desafiá-los, criticá-los e pô-los para baixo. O animus negativo manifesta-se, sobretudo, como uma resistência, baseada em opiniões, a qualquer sentimento de amor. Se uma mulher se apaixona ou se interessa por um homem, seu animus negativo vem à tona e faz com que ela arruíne o relacionamento. Subjetivamente, ela não sabe o que está acontecendo. Ela acha que é maldição. Justo quando ela quer falar com o homem que ama algo nela provoca uma cena pesada. Daí ela vai para casa e chora. O animus negativo comporta-se aqui como um amante ciumento. Ele quer a mulher só para si e a afasta de qualquer outro homem. Essa coisa de ciúmes eu identifico em mim. Essa é uma das grandes dificuldades do trabalho analítico: fazer com que as mulheres percebam a diferença entre o que elas pensam e o que ele pensa nelas. O problema é que elas acham que os pensamentos do animus são os seus próprios pensamentos. Um dos objetivos da psicoterapia é ajudar as pessoas a manter uma identidade constante e conviver com sua família interior de almas sem ficar possuídas por elas. A atmosfera invisível é muito mais poderosa do que aquilo que se vê. Por isso Jung nunca escreveu muito sobre pedagogia. Ele dizia que não faz muita diferença o que você diz ou faz com os filhos. O que importa é que você seja saudável, irradiando assim uma atmosfera saudável e positiva. Nesse caso, não faz tanta diferença o que se diz. De qualquer forma, os filhos não ouvem mesmo. Eles reagem ao que está por trás. As crianças, por assim dizer, ainda estão nadando no inconsciente, na atmosfera de uma situação, e é a isso que reagem. Se uma mulher não conseguir fugir dos pensamentos autodestrutivos e autonegadores do animus negativo, ela poderá sofrer um severo distúrbio psicológico. Por que os sonhos usam nossos amigos para personificar os aspectos sombrios da nossa personalidade? Porque fazemos amizade com as pessoas que vivem nossa sombra. Nossos amigos fazem aquilo que não conseguimos fazer. Diga-me quem são seus amigos e eu tenho o panorama inteiro de suas boas e más qualidades. Essas nossas boas e más qualidades exercem sobre nós uma atração, um fascínio. O amigo muitas vezes é a pessoa que invejamos. É mais elegante, ou dança melhor, ou se sai melhor na vida exterior, ou é mais profundo, ou tem uma cabeça melhor. Portanto, se não trabalharmos nossa própria sombra, haverá sempre uma espécie de relação de amor e ódio com a sombra e com nossos amigos. Basta trazer o animus negativo para a consciência para que ele se transforme? É tão difícil e tão simples quanto isso. O sonho lhe mostra que se ela conseguir despertar e perceber que os julgamentos críticos e as opiniões negativas sobre si mesma não são de fato o que ela pensa, ela será capaz de mandar o diabo de volta para o inferno. Aí ela poderá se desenvolver como mulher. Quanto mais nos tornamos um indivíduo único, mais nos individuamos no sentido junguiano do termo, mais somos capazes de ver o outro como um ser único, sem juízos estereotipados. Isso faz vir à tona o que o indivíduo realmente é, ou o que a natureza quer que ele seja. Esse é o amor verdadeiro, amor que cura e faz do outro uma pessoa inteira. Nada tem a ver com sentimentalismo, polidez ou delicadeza. Na prática psicológica moderna as pessoas vivem se queixando: "Minha vida não tem sentido." Elas sacodem os ombros e dizem: "Para quê? O que estou fazendo aqui? Para que serve isso tudo? Eu poderia muito bem não existir." E aqui o sonho é singularmente importante ao indicar o que o inconsciente quer dessa pessoa, o que ele quer que essa pessoa se torne.