As bolhas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
(...)
Os fragmentos de Pessoa, ortónimo, podem ser entendidos como a consequência inevitável de uma busca pela unidade; descobrir-se a si próprio é nada mais do que partir-se | ou estar partido | em fragmentos, na tentativa de encontrar aquilo que há de mais fundamental no ser - o resquício da destruição, que é indestrutível.
Caeiro é um produto dessa busca, o fragmento mestre de outros, diametralmente oposto ao fragmento Pessoa. A sua filosofia é aquela do "ser em pleno", deitando fora o crivo do pensamento para receber o mundo na sua forma mais pura, regressando a um estado primordial de ser. Como aponta Pedro Sinde no prefácio, isto não implica um abandono da racionalidade - de facto, Caeiro explora as consequências últimas da sua filosofia, que (logicamente) desagua na abnegação de todos os intermediários, de todos os possíveis filtros | escrita, nomes, rótulos e até figuras de estilo | que possam deturpar esse estado de pleno sentir e total identificação com a natureza:
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
(...) Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
(...) Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens (...)
Levar a sua filosofia ao extremo seria nem sequer expressá-la; e Caeiro está ciente disto, de que as "mentiras dos homens" vêm ter com ele e o levam a atribuir qualidades, como beleza, a coisas que simplesmente são tanto quanto o podem ser - este é o limite da sua filosofia.
Pedro Sinde deixa espaço para o leitor reflectir e oferece várias interpretações de como encaixar Caeiro com as outras peças do puzzle. Num devaneio tão interessante quanto vão, vou explorar brevemente uma ideia, inspirado por Pedro Sinde.
No contexto da busca sobre o que há de fundamental no ser, Pessoa, como um todo, pode ser divido em quatro peças, sugere Sinde: Pessoa, o suposto fragmento de si próprio, virado para o interior | Caeiro, o fragmento virado para o exterior, o contra-pólo de Pessoa | Reis, o elemento Apolíneo | Campos, o elemento Dionisíaco.
Relembremos agora a tese de Nietzsche em A Origem da Tragédia , onde Apolo, que representa o individual e o interior, e Dionísio, representando a união com a natureza e o exterior, dançam os dois na paisagem metafísica e revelam o verdadeiro propósito da existência - o de o ser olhar de si para si, fora de si, como um fenómeno estético. Este processo é similar à tentativa de Pessoa para fazer sentido de si mesmo; na carta escrita a Casais Monteiro, este chega a referir-se referir-se a si na terceira pessoa. Este processo, de se ver de fora para dentro para atingir a unicidade do ser, aparentemente, falhou. Existem pistas do porquê; na Prece, lê-se:
Senhor, livra-me de mim!
Pessoa rejeita-se, e Caeiro pode ser visto como uma resposta a essa rejeição, um amálgama de tudo o que Pessoa, o fragmento, não é, mas queria ser. Rejeitando-se, falha na criação de um heterónimo de si próprio propriamente dito; falha na tarefa de olhar de si para si, em pura contemplação, e atingir a realização mencionada por Nietzsche | que, por si só, foi beber a Schopenhauer, que por sua vez foi beber ao Bhagavad Guita |. Assim, pode-se argumentar que os elementos apolíneo e dionisíaco, individual e universal, ou interior e exterior, em Pessoa, estão altamente fragmentados, e polarizados, devido a essa auto-rejeição - o poeta não encontra aquilo de fundamental que andava à procura; não se realiza.
Caeiro, derradeiramente simples, nasce na batalha de Pessoa contra si próprio, derradeiramente complexo.